Os portugueses que salvam vidas no Mediterrâneo

Os portugueses que salvam vidas no Mediterrâneo
Sara Capelo 04 de novembro de 2017

Na terra, no ar ou no mar, têm como função resgatar migrantes, proteger as fronteiras europeias e identificar redes de tráfico de seres humanos.


Talvez outro técnico tivesse ignorado aquela afirmação. Mas Paulo Régio estranhou quando, no briefing diário com as autoridades marítimas da ilha de Samos, na Grécia, ouviu que estavam a chegar a um ilhéu próximo mais de 100 pessoas por dia que se identificavam como sírias. Quis conhecê-los. Aproximou-se sem levar identificação e – talvez fruto da sua experiência de 26 anos no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), alguns no aeroporto de Lisboa – achou que seriam magrebinos. Em vez de usar o intérprete de árabe, interpelou-os em francês e responderam-lhe com facilidade. Tinha cada vez mais motivos para desconfiar.

Ao entrevistá-los, confirmou que as presumíveis nacionalidades da maioria eram argelina, tunisina e marroquina. Afinal, a sua intuição estava correcta. "Parece uma situação normal, mas não é. Há uma percentagem de atentados que é perpetrada por indivíduos que entraram de forma irregular, que estavam a pedir asilo", explica à SÀBADO o inspector de 49 anos. "Se não for feita a identificação de forma correcta, estamos a lidar com pessoas-fantasma que nunca se sabe exactamente quem são." E isso pode acarretar riscos para a segurança europeia.

Naquele último trimestre de 2015, Samos vivia talvez a maior pressão de entrada de migrantes. "Pior do que passámos lá era impossível", desabafa Paulo Régio, que exercia funções como screener, o técnico da Frontex que estabelece a presunção de nacionalidade dos migrantes. "Tínhamos chegadas na ordem dos 100, 200 por dia e, a meio da missão, chegámos a ter 800, 1200." Os migrantes eram então colocados em centros de acolhimento (chamam -lhes hotspots) e tinham de esperar uma semana para que os entrevistassem, fotografassem e recolhessem as impressões digitais. Agora que as chegadas diminuíram (até Março, entraram na Europa pelo Mediterrâneo 14% do total de migrantes de igual período de 2016 – ver mapa), o processo voltou a ser mais célere.

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