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Bruxelas

Mudança da hora tem riscos para a saúde?

31.08.2018 12:30 por Mariana Branco
Bruxelas vai propor que os relógios não mudem no Verão e no Inverno. Especialistas em medicina do sono alertaram já para os riscos desta mudança, entre os quais estão alterações no sono, no estado de ânimo e nas capacidades cognitivas, como a memória.
Foto: Getty Images
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Há décadas que no último domingo de Março e no último domingo de Outubro se mudam os relógios – e, mesmo que os smartphones já o façam sozinhos, continua a ser necessário dar a volta aos ponteiros do relógio da cozinha ou alterar a hora que aparece no microondas. Mas esta obrigação pode estar prestes a chegar ao fim. Um inquérito realizado pela Comissão Europeia, ao qual cerca de 4,6 milhões de pessoas responderam, averiguou que uma maioria "muito clara" de 84% dos europeus quer o fim da mudança de hora. Especialistas em medicina do sono alertaram já para os riscos desta mudança horária, entre os quais estão alterações no sono, no estado de ânimo e nas capacidades cognitivas, como a memória.

"Esta mudança, decidida pela primeira vez com o argumento da necessidade de poupança energética, preocupa actualmente especialistas", explicou à Lusa Miguel Meira e Cruz, coordenador da Unidade de Sono do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa. O especialista alertou para os riscos da mudança, "mesmo numa amplitude aparentemente inofensiva".

"Quando exigimos uma alteração horária repentina esquecemos que os relógios existentes em todas as células do organismo não têm capacidade de se adaptar de imediato", disse Meira e Cruz.

Já um estudo, publicado no ano passado pelo neurologista brasileiro Fontenelle Araujo, concluiu que cerca de metade das pessoas sente de alguma forma o impacto da mudança da hora.

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"Na maioria das pessoas, o relógio biológico central procurará adaptar-se em quatro a seis dias, a partir do qual voltaremos a funcionar adequadamente", explicou Dario Castro-Viejo, do Instituto Internacional de Melatonina.

Fim da hora de Inverno será preocupante para crianças
Segundo o especialista em medicina do sono Joaquim Moita, o fim da hora de Inverno seria preocupante sobretudo para as crianças e adolescentes, por passarem a acordar e a ir para as aulas ainda de noite.

Em declarações à Lusa, o médico, que dirige o Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e a Associação Portuguesa do Sono, lembra que o cérebro humano precisa de exposição à luz solar para acordar devidamente. "Se acabar a hora de inverno, entre os meses de Novembro e Janeiro iremos estar às 08:15 ainda com noite escura", disse.

"O resultado não será benéfico e o desempenho cognitivo e físico podem ficar comprometidos. As crianças e os adolescentes já deviam ir bem acordados para a escola e, para acordar bem, o cérebro precisa de exposição ao sol, à luz solar", prosseguiu o especialista. "Os mesmos problemas também se podem aplicar ao mundo do trabalho. É muito preocupante para as faixas etárias mais jovens, mas também para quem já trabalha".

Europa quer o fim da mudança horária
Naquela que terá sido a maior consulta pública online realizada pela União Europeia, perguntou-se se gostariam que o sistema que avança uma hora no Verão, e recua no Inverno, terminasse. Portugal não se distanciou da opinião europeia. Segundo resultados publicados esta sexta-feira pelo executivo comunitário, 85% dos cidadãos portugueses que participaram no inquérito online defendem que deixe de se alterar os relógios duas vezes por ano. Bruxelas pretende agora implementar esta medida, com a apresentação de uma proposta legislativa.

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Os resultados preliminares – os finais apenas serão divulgados "nas próximas semanas" – "indicam também que mais de três quartos (76%) dos participantes consideram que a mudança de hora duas vezes por ano é uma experiencia ‘muito negativa’ ou ‘negativa’" e "como justificação do desejo de pôr fim a estas regras, alegam-se o impacto negativo na saúde, o aumento de acidentes de viação ou a falta de poupanças de energia", acrescenta a Comissão Europeia.

Esta sexta-feira, Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, anunciou que Bruxelas irá propor o fim da mudança horária, após essa ter sido a "vontade expressa" pela maioria dos europeus.

"Na maioria dos Estados-Membros há uma longa tradição de mudança da hora, que remonta, em muitos casos, à Primeira e à Segunda Guerras Mundiais ou à crise petrolífera da década de 1970" e, "desde a década de 1980, a União Europeia adoptou gradualmente legislação por força da qual todos os Estados-Membros acordam em coordenar a mudança da hora e acabar com os diferentes regimes horários nacionais", relembrou a Comissão Europeia. "Desde 1996, todos os europeus avançam uma hora no relógio no último domingo de Março e atrasam uma hora no último domingo de Outubro. Às regras da UE não presidiu a objectivo de harmonizar o regime horário na União, mas solucionar os problemas decorrentes de uma aplicação não coordenada das mudanças de hora anuais, nomeadamente nos sectores dos transportes e da logística".


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