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O Principezinho vai cativar Lisboa

08.03.2018 18:00 por Cátia Andrea Costa
O musical O Principezinho estreia no sábado, 10 de Março, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Esta adaptação da obra catalã é dirigida por Pedro Penim
Foto: Sábado

Tenham cuidado com o que fazem com O Principezinho." Foi este o alerta que Àngel Llàcer, Manu Guix e Marc Artigau mais ouviram quando, em 2013, aceitaram criar uma peça teatral inspirada na obra intemporal de Antoine Saint-Exupéry, O Principezinho. O musical teve tanto sucesso que continua em palco em Barcelona e chega agora ao Teatro da Trindade, em Lisboa, com encenação de Pedro Penim.

"Esta é a versão quase oficial d'O Principezinho para teatro, o que me deu muita segurança para aceitar este convite", assume Penim, durante a entrevista ao GPS, com Llàcer e Guix. Os dois catalães vieram a Lisboa assistir a alguns ensaios e ver como estão a correr os últimos preparativos do musical que conta a história de um rapazinho com cabelos cor-de-ouro e muito curioso, uma ovelha, uma rosa e um piloto perdido no deserto. A peça entra em cena a 10 de Março, mas Penim está tranquilo: "É um programa familiar, mas acho que vai directo ao coração de toda a gente. É uma obra filosófica e ao mesmo tempo divertida e emocional. Tem todos os ingredientes para ser um enorme sucesso."

Coração. Foi das palavras mais repetidas na conversa dos três. A obra com 75 anos - foi lançada em 1943, nos Estados Unidos - tem 300 traduções oficiais, vendeu 150 milhões de exemplares e alcançou os 400 milhões de leitores. "Aquilo que Saint-Exupéry escreveu e depois a forma como o Àngel e o Manu adaptaram a história para o teatro funcionam como uma flecha ao coração de qualquer pessoa", diz o encenador português.

A ideia de fazer uma versão portuguesa do musical foi apresentada a Pedro Penim pela Universal. "Os responsáveis foram a Barcelona, viram o espectáculo e ficaram encantados", explica. Tudo começou há seis meses, tempo que inclui o "convite, tradução, adaptação das canções, escolha dos actores, início dos ensaios". "Tem sido um trabalho conjunto, com troca de opiniões" com os criadores do musical, assegura, confessando que o desafio maior foi linguístico: "Como é que uma peça feita em catalão pode ser traduzida para português? Apesar de serem duas línguas de alguma forma próximas não são exactamente a mesma coisa e há algumas especificidades a ter em conta."

A Penim coube a tarefa de escolher o elenco: Mariana Pacheco (rosa), Paulo Vintém (o aviador), Joana Brito Silva, José Lobo e Diogo Bach. O nome do actor escolhido para fazer de Principezinho é o segredo mais bem guardado da peça, mas as suas características vão entrar nas únicas exigências da produção catalã. "A única coisa que disse ao Pedro foi que escolhesse uma equipa humana porque é o que esta obra deve ser. Que não escolhesse ninguém que quisesse participar apenas por estar desempregado ou para encher o currículo. Que só quisesse pessoas que tivessem realmente vontade de entrar no espectáculo", confessa o director artístico, Àngel Llàcer, para quem o objectivo foi cumprido: "Se não abres o coração, se não mostras o coração, esta obra não funciona. Aqui, há humanidade. O grupo escolhido é estupendo."

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Uma opinião secundada por Manu Guix, director musical, que destaca também a emoção de ver algo criado pela dupla "começar a cruzar fronteiras". "O Pedro está a fazer um excelente trabalho com o elenco - os actores são muito bons, há muito talento, muito entusiasmo", diz o catalão, que não tem dúvidas de que os elementos escolhidos demonstram "querer realmente fazer este espectáculo e que o amam".







O espectáculo nasceu com um convite feito pela marca Principezinho à La Perla 29 em 2013, tendo a peça estreado no ano seguinte. Àngel Llàcer e Manu Guix foram escolhidos pelas suas experiências e trajectórias profissionais. O primeiro é actor e encenador e já dirigiu produções como Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, ou Madame Meville, de Richard Nelson. O segundo é compositor, director musical e intérprete, tendo participado em vários espectáculos musicais. O percurso de ambos também se cruzou na televisão, quando participaram no sucesso da televisão espanhola Operação Triunfo.

"A responsabilidade era muito grande, tal como o respeito", assume Llàcer, que estudou o livro de Saint-Exupéry no liceu francês que frequentou. "O Principezinho e eu crescemos juntos durante algum tempo, conheço bem a obra", conta, para logo dizer que ainda assim é um livro que "surpreende cada vez que é lido". Deitaram mãos à obra, criaram o guião e procuraram a mensagem que queriam passar.

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"O espectador tem de se sentir cómodo com o que recebe", defende, e "é importante deixar tudo claro". "É preciso explicar que o Principezinho deixa o seu planeta porque quer aprender a gostar da rosa, porque não a entende. É muito importante explicar a viagem que o aviador faz com ele próprio…", detalha. A mensagem mais importante é a necessidade de "aprender a amar e a ser feliz". "Todos temos de aprender a fazê-lo. E para chegar a esse patamar é preciso conectarmo-nos com a criança que temos no interior."

Durante o processo de criação contaram sempre com a ajuda de familiares de Saint-Exupéry e membros da sua fundação, que estiveram na estreia e "gostaram muito da peça". "Sempre nos ajudaram e estiveram disponíveis para que conseguíssemos realizar de forma eficaz a nossa proposta", confidenciou Guix.

Ao todo, o musical tem 16 músicas, da autoria de Manu Guix, criadas depois do guião da peça estar concluído. A dupla analisou todos os momentos importantes e decidiu o que devia ser transformado em canção. "A rosa tinha de ter uma música, cada planeta visitado pelo Principezinho tinha de ter uma música também… Pouco a pouco fomos criando o que acabou por se converter no musical", explica o também cantor, para quem o mais difícil não foi escrever as músicas, mas sim "fazer com que tudo funcionasse". "Já se fizeram muitas peças inspiradas n'O Principezinho em todo o mundo e nenhuma funcionou realmente. O mais difícil foi conseguir a engrenagem perfeita, tanto a nível de guião, como musical."

Uma das estratégias usadas foi o recurso à tecnologia, como o mapping, cujo objectivo era tornar o musical mais atractivo. "Hoje em dia, um espectáculo como este pode beneficiar muito da tecnologia das projecções. A cenografia, sendo muito simples, é ao mesmo tempo capaz de te transportar a todos os universos que o Principezinho visita", explicou Guix, revelando: "Usámos os desenhos de Saint-Exupéry, tivemos autorização da fundação. Foram adaptados pela nossa equipa em Barcelona e modernizados - e no espectáculo estão todas as versões disponíveis, as originais e as novas. Além disso, o som também desempenha um papel importante para envolver todos os espectadores, tal como no cinema. Existem colunas em toda a sala e, por exemplo, parece que o avião viaja por todo o espaço. A tecnologia acaba por ajudar a que o espectador se sinta parte da obra, mais envolvido."
Pedro Penim acredita que a tecnologia é um dos factores que ajudará a "marcar a diferença. Tal como a "cenografia, o uso dos figurinos, o som, a unidade do casting" português. "O material é tão forte que não tem língua. Vai ser um sucesso de certeza", volta a sublinhar.

"Venham ao Trindade", apela o produtor português. Mas o objectivo é que a peça volte a ultrapassar barreiras regionais. "Queremos tentar ir ao Porto, Faro, Madeira e Açores. Fazer o maior número de espectáculos possível porque esta obra merece ser vista por muita gente." E uma ida a Barcelona? "Porque não? [risos] Não percebem nada do que dizemos, mas podemos tentar."

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O Principezinho
Teatro da Trindade
De 10/3 a 29/4 • 6.ª, 18h • Sáb, e dom., 11h30 e 15h30
€12 a €72


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