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Milhões de Festa

Milhões de Festa, a cada um a sua

11.09.2018 00:14 por Pedro Henrique Miranda
O encerramento do festival nortenho foi o testemunho de que há um futuro para a música fora da caixa.
Foto: Renato Cruz Santos


As expressões nas caras e cansaço acumulado nas pernas não dariam para menos: o dia a seguir é sempre o pior, e as malas às costas e horas de viagem o necessário preço a pagar pelos dias passados à margem de preocupações e afazeres. Mas finais de festival são também tempos de reflexão, a altura de processar o que se viveu intensamente nos dias anteriores e estabelecer, de uma maneira ou de outra, o que significou para nós. E no caso do Milhões de Festa, sediado pelo nono ano consecutivo em Barcelos, a impressão que fica é que todas as peças vão caindo, lenta mas certamente, no seu devido lugar. 

A fidelidade do seu público, por exemplo, não se deve só à notável ambição do cartaz, ano após ano dedicado a procurar novas formas de desafiar melómanos e curiosos em igual medida. O Milhões conhece o público que tem, e por isso mesmo equilibra, muito a seu proveito, simplicidade e conforto na sua logística quotidiana: integrando o património histórico e arquitectónico barcelense no seu roteiro, navegando na simpatia nortenha e cooptando as delícias da culinária minhota - das delícias caseiras às soluções prácticas que a correria de festival exige (ainda sonhamos com as sandes de rojão servidas no recinto).

E mesmo o campismo, esse anunciado suplício sempre que se fala de música ao vivo, reveste-se dessa aura: no parque municipal da cidade, o chão de relva aparada e a sombra das árvores (para quem chega cedo) são complementados por casas de banho e balneários do pavilhão de hóquei da cidade, a cujos frquentadores se pede compreensão pela pontual sobrelotação.

É claro que grande parte do público prefere passar as tardes na Piscina Municipal de Barcelos (vulgo Palco Piscina), que ganha nesta altura contornos paradisíacos (o calor de Setembro ajuda) e sedia a sua quota parte de belos concertos. A partir da água pôde-se ouvir, nesta última fase de Milhões de Festa, o stoner psicadélico dos mexicanos Tajak com o sol das 15h, o krautrock de improvisação de Pharaoh Overlord, da Finlândia, à luz das 17h e, antes do adeus forçado para as tendas, o brasileiro Johnny Hooker (entrevistado esta semana pela SÁBADO), uma das estrelas do último dia cuja pop só pecou por curta e tardia - apaixonada, eloquente e impecavelmente executada, combinou na perfeição com a frescura da água e os últimos raios de sol do dia.

É também por momentos destes que se vai ao Milhões de Festa. Como, mais tarde nesse mesmo dia, a performance art de UKAEA ou a discoteca silenciosa Anadolu Ekspres (em headphones) viriam a provar, é um festival que encontra adesão e receptividade na exploração de novas formas de se fazer espectáculo e, no processo, de testar limites sonoros. Os actos electrónicos dos últimos dias ilustram-no na perfeição: os produtores Gazelle Twin e The Bug, este último acompanhado da rapper Miss Red, fizeram o maior furor do lado digital do espectro musical do Milhões, ao passo que a dupla alemã Mouse on Mars canalizou o seu IDM alienígena para uma festa digna de nota. 

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E se restavam ainda dúvidas de que é um dos mais eclécticos festivais portugueses em actividade, os cabeças de cartaz trataram de as dissipar. Até porque é difícil conceber duas sonoridades mais díspares do que o doom metal dos britânicos Electric Wizard e o funaná caboverdiano dos Tubarões (igualmente distantes, eles próprios, da electrónica futurista de Squarepusher, a outra principal atracção do festival). E no entanto, cada um da sua maneira, lograram deixar a sua marca nesta edição: os primeiros, pelas suas abrasivas paredes de som e visuais satânicos, uma das mais célebres e brutais experiências à disposição dentro do género do metal; e os segundos, se não pela clara habilidade e décadas de experiência a fazer o que melhor sabem, por acolherem uma das mais surpreendentes mesclas de sons de África e do mundo - um espectáculo que dificilmente ficaria mal seja onde for, e que certamente não destoou do clima de festa e descoberta musical da última noite de Barcelos. 

Acrescente-se ao cenário o afrojazz de inclinações latinas de Nubya Garcia (outro dos momentos deslumbrantes do Milhões) e a world music exploratória de The Heliocentrics, e o resultado é um festival que, ainda de tamanho, recursos e visibilidade limitada, teimará em manter a reputação de Meca da música alternativa - pelo menos enquanto dela houver para descobrir.


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