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Milhões de Festa

Milhões de Festa - Capítulo III

11.09.2018 14:52 por Filipe Lamelas
Crónicas de um último dia saudoso sem que se tenha visto um único milhão.
Foto: Renato Cruz Santos

Porque já não aguentava mais bifanas, a ideia era ir a um restaurante e comer uma refeição
decente. Ao fim de alguns minutos e muita atrapalhação do pessoal do restaurante (que, em
dia de ponta, servem à volta de 10 refeições) lá se conseguiu uma mesa e fez-se o pedido nos
seguintes moldes: " o que for mais rápido, por favor".

Na mesa ao lado, os elementos dos finlandeses Circle. Era estranho ver aquelas figuras
enormes, sentados, relaxados, a beber um bom vinho e a fazer uma refeição tranquila. No fim,
quando pagaram demonstraram uma simpatia extrema com o empregado que os serviu e
distribuíram sorrisos. Lembrei-me outra vez da Maiju que, sabe-se lá porquê, gosta de conchas
e pedras bonitas. Talvez por isso, durante três dias na praia, se tenha dedicado à tarefa de
levar consigo todas as conchas que encontrasse e que tivessem feitios, formas ou cores
diferentes. Nesse momento tão simples, ela também distribuía sorrisos pelas pessoas que
passavam enquanto prosseguia a missão de esvaziar a praia de qualquer ex-receptáculo de
moluscos. Os finlandeses têm a sua graça.

Ainda assim, antes do jantar, a grande desilusão do festival. Um ligeiro atraso, uma chegada ao
recinto apressada para descobrir que o concerto do Johnny Hooker era, afinal, num local
surpresa. Fiquei surpreendido e foi surpreendido que fui às bilheteiras perguntar onde era a
actuação do cantor brasileiro. Era nas piscinas. Obrigado. Surpreendentemente, cheguei a
tempo de ouvir a última música.

Do concerto dos The Heliocentrics fica a memória de um colectivo sólido, capaz de uma
interacção fantástica sem que com isso tivessem de derreter-se em "obrigados".
Musicalmente, foram avassaladores e nem o Adolfo Luxúria Canibal se coibiu de abanar a anca
– mesmo que em local mais recatado. Dos Mouse on Mars ficou apenas a impressão de que se
dedicavam a uma electrónica pouco orgânica mas talvez tenham sido prejudicado pelo barulho
das bolas de matraquilhos. A vingança serve-se fria, tal como a música dos Mouse on Mars.

Chegada a vez dos Tubarões, uma advertência, feita pelo vocalista do colectivo cabo-verdiano:
"vamos partir a louça toda". E partiram. Não houve um único pé no chão, uma anca que não
abanasse, uma mãozinha que não acompanhasse o ritmo da música. Final de festa, claramente
final de festa para toda a gente, ainda que não fossem milhões.
Em modo saudosista, enquanto abandonava o recinto lembrei-me que há pessoas que nem
sequer sabem que devem pedir desculpa. E são tão más como aquelas que estão sempre à
espera que lhes peçam desculpa.

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