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Milhões de Festa

Milhões de Festa - Capítulo II

10.09.2018 22:08 por Filipe Lamelas
Crónicas de uma noite de sábado amena, mas ainda sem milhões.

Todos deram uma desculpa diferente para não vir ao Milhões. Para o Miguel, era o Motel X,
para o outro Miguel era o cão, para o Porfírio e para o Chico o assunto era mais sério e tinha a
ver com obrigações parentais. Mais recorrente do que pessoas que não sabem pedir desculpa
são pessoas que não sabem arranjar uma boa desculpa (o que não é o caso dos amigos
progenitores). Já a Maiju foi cruel e nordicamente honesta: viria se não tivesse arranjasse
outro programa.

A propósito disso, uma das coisas que despertou a minha atenção, naqueles dias em que já me preparava para a solidão do Milhões, foi a forma como as pessoas nos olhavam na rua. As
mulheres olhavam-me como se eu, de repente, tivesse passado a ser o moreno mais apetecível da península ibérica; já os homens oscilavam entre uma admiração profunda e um desdém evidente (como quem pensa: se este gajo sacou esta loira matulona, eu também consigo). No extremo oposto, as mulheres olhavam para a Maiju como uma espécie de rameira nórdica que tinha vindo roubar o último espécimen lusitano; a forma como os homens a olhavam…bem, essa forma é demasiado constrangedora para adjectivar.

Comparado com o dia anterior, o recinto do Milhões (a utilização deste vocábulo continua a
parecer-me claramente abusiva) estava muito mais composto, a roçar umas boas centenas. Na noite de sábado também já se viam alguns transeuntes com t-shirts alusivas a bandas; a
explicação é bastante simples: um ou outro metaleiro mais entusiasta que não se coibiu de
mostrar a sua filiação musical. Os cabelos compridos também abundavam (mas à séria e não
como os já costumeiros "man buns"). Se Wwwater já prometia ser um dos pontos altos da
noite, a promessa foi cumprida na totalidade. Foi daqueles concertos em que o palco principal
do Milhões – e sem qualquer desprimor – pareceu pequeno para tanto talento: Charlotte
Adigéry não é um animal em palco; é uma besta sedutora com uma voz eclética capaz de
encher Barcelos e envolve-la na sua totalidade. Graças a Adigéry houve direito a uma super
bolha numa noite de sábado que, ao início, asseverava ser como outra qualquer.

Nubya Garcia foi a artista mais aclamada do dia e a que mereceu um público mais concentrado e dedicado a apreciar um dos grandes nomes do afrojazz contemporâneo. Gazelle Twin só cativou os fãs irredutíveis e um ou outro curioso com uma pose pedante. Para mim, foi a hora certa para levar uma abada nos "matrecos" (nunca joguem matraquilhos com uma miúda da margem sul). Bala é o que é: punk rock galego, pesado e estridente (continuei a perder jogos atrás de jogos e a meter moedas sucessivamente).

Antes que o meu mau perder viesse ao de cima e a vergonha me consumisse refugiei-me no
meio da multidão para assistir ao concerto dos Electric Wizard (supostamente são uma espécie de descendentes dos Black Sabbath; bom para eles). Vi muita guedelha mas nem um
headbanging…o que é que se passa com esta nova geração de metaleiros?

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O Chico continua chateado porque, há 8 anos, ninguém quis ver os The Fall e, de alguma
forma, culpa-me por nunca os ter visto ao vivo. Mandei-lhe uma mensagem a dizer que ia
gostar dos Wamduscher e dos Wwwater. Depois disso apercebi-me que, tal como ontem achei
que havia pessoas que não sabem pedir desculpa, hoje também constatei que há pessoas que
não sabem esperar por uma desculpa.


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