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Vinhos

Nicholas deixou o dinheiro da Suíça para fazer o seu primeiro rosé em Portugal

06.09.2018 07:00 por Catarina Moura
Depois da morte aos 105 anos do fundador do Casal Santa Maria, chegou o seu neto de 50 para avançar com algumas mudanças. Criou o primeiro rosé da casa e um enoturismo
Foto: DR

Nicholas gosta de tudo em Colares. Só não perdoa a esta terra uma coisa: o Inverno em que decidiu mudar-se para aqui com os filhos e a mulher, Myriam, foi o mais rigoroso dos últimos 80 anos. Tiveram de dormir com botijas de água quente e quilos de cobertores porque a casa ainda não tinha aquecimento.

A resistência ao frio era necessária à missão: continuar a produção de vinhos com 10 anos, iniciada pelo avô de Nicholas aos 96. Depois de pegar no Casal Santa Maria em 2017, Nicholas lança neste mês de Setembro o seu primeiro vinho e o primeiro rosé da marca. Chamou-lhe Mar de Rosas.

Nicholas von Bruemmer não se apresenta como produtor de vinho mas sim como provador. "Adoro rosé e acho fascinante a maneira como acabou por entrar em todas as classes sociais", conta, sentado num dos salões da casa do Casal Santa Maria, que remodelou para poder aqui viver nos próximos cinco anos.

Quando se pensou que um dos seus primeiros vinhos à frente da marca devia ser um rosé, iniciou uma maratona para beber todos os vinhos portugueses deste tipo. "Nenhum me agradou completamente. Queria fazer um rosé que mostrasse aos franceses como se fazem estes vinhos e que nos deixasse orgulhosos de beber um português", relembra.

Para cada grande decisão - como que vinho lançar a seguir - há Jorge Rosa Santos e António Figueiredo, os dois enólogos que trabalharam com o falecido barão, Bodo von Bruemmer - e há ainda um pêndulo na mão de Myriam. Foi herança deixada pelo sogro que se guiava por esta arte esotérica.

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"Quando fiquei com ele li tudo o que consegui e pergunto-lhe tudo", conta Myriam junto à escadaria que recebe os convidados na entrada. "Não se faz nada que o pêndulo não ache boa ideia", reforça.

Olhando para a história de Bodo, acreditando ou não naquelas forças magnéticas que saem do fio em direcção ao chão, há que dar o benefício da dúvida: o barão comprou este casal em Sintra, entalado entre a serra e uma vista para o mar, nos anos 60, quando lhe diagnosticaram um incurável cancro do pâncreas. A ideia era que a mulher, Rosário, tivesse um lugar bonito onde viver depois da morte do marido. Foi ele quem acabou por sobreviver-lhe e na herdade acabou por plantar cinco mil pés de rosas para a recordar.

Anos mais tarde, já depois de ter iniciado um negócio de criação de cavalos puro sangue árabe no terreno, quando recuperava de uma cirurgia aos 96 anos, sonhou ser produtor de vinhos e desfez-se de alguns dos pés de rosa para apostar num terreno de vinha que não chega aos dez hectares.

As castas de uva branca estão mais próximas do mar, plantadas em perpendicular com a linha de costa para que o vento da nortada, cheio de salinidade, entre nos corredores entre as vinhas; as tintas estão mais juntas à serra, protegidas dos ventos.

"Quando ele quis fazer vinho aos 96 anos eu disse-lhe 'porque arranjar problemas quando podes ter uma vida descansada?'. A história do meu avô ensina que nunca é tarde".

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Nicholas Von Bruemmer, novo dono do Casal Santa Maria

Quando morreu aos 105 anos, a opção de Nicholas era vender a produção de vinhos (e passar a outros os famosos Pinot Noir e Chardonnay atlânticos), ou virar a sua vida ao contrário - sair da Suíça, depois de ter trabalhado sempre com elevadas quantias de dinheiro, na banca e na gestão de activos de famílias.

"Pensei, ‘se calhar é perfeito: tenho 54 anos, e é agora ou nunca’. Os miúdos tinham por volta de 9 anos e com essa idade adaptam-se a tudo. Falam melhor português que eu e fazem surf na Praia Grande", diz sentado à mesa e enquanto enche o copo deste rosé que homenageia a história de amor dos seus avós e é feito das castas Pinot Noir, Touriga Nacional e Syrah.

Inverteu o rácio de horas passadas no escritório e ao ar livre - agora são 10 no meio dos terrenos e 25 minutos no escritório num dia normal de trabalho. Com isso já tirou algumas conclusões: numa pequena área de cultura havia há dois anos 23 castas. Muitas foram fora e agora há nove, que nisto do "sonho de fazer vinhos" a certo ponto há que tornar o negócio eficiente. Talvez venha também a comprar terrenos em volta para estender a área de produção e conseguir ter um portfólio consistente de cinco ou seis vinhos.

Pouco depois de uma rápida conversa com vista para o alpendre e para o céu raramente limpo da zona, chega um casal de turistas, sem pré-aviso e com vontade de visitar a quinta. "Claro, arranjamos isso!", declara Nicholas, num contamento pós-almoço. São logo encaminhados para um guia que lhes vai mostrar os espaços e pô-los a par da história rocambolesca do fundador e do terreno (que tem construções do século XVIII).

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Aqui está a grande mudança no espaço da quinta com a vinda do neto do fundador. O casal Santa Maria está a ficar mais amigo de enoturistas e desde este ano há visitas guiadas que acabam com provas de vinhos e petiscos. "Agora o que quero fazer é trazer o charme de Colares a este sítio. Refazer os recantos da casa, ter segredos escondidos pelo casal", perspectiva.

As obras estão a ser a parte complicada. Teve de habituar-se ao modo de fazer português, diz, e quando insiste que quer ver resultados a aparecer ouve muitas vezes um "com calma, com calma", conta a rir, metendo esta expressão portuguesa no meio do seu inglês. "Eu não me quero tornar um milionário alfa, só quero ganhar o suficiente para que toda a gente esteja feliz". Com calma, Barão.


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