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Música

Johnny Hooker: "Chegou a nossa vez de nos expressarmos"

07.09.2018 08:00 por Catarina Moura
Os cortes no Estado social, a comunidade LGBT e a ligação irrecusável ao Brasil. Entre muita maquilhagem e brilho, está tudo no rock com samba de Johnny Hooker, que se estrea esta semana em Portugal
Foto: Sábado

É da geração de músicos brasileiros que, à boa maneira da música brasileira, não tem medo de se expressar e por isso o seu último disco, Coração (Julho, 2017), está carregado de frases de resistência e manifestos queridos à comunidade LGBT. Tudo isto enquanto Johnny Hooker aplica rock a um passeio pelos vários sons do Brasil, do interior, do Rio, do Nordeste. O primeiro concerto em Portugal, sexta-feira, 7, no Musicbox, em Lisboa, esgotou, e por isso abriu-se uma nova data, terça-feira, 11. Entre estes dois concertos, no domingo, 9, passa pelo Milhões de Festa, em Barcelos. Antes da estreia, atendeu a chamada do GPS ainda no Brasil.

Há um vídeo de Caetano Veloso contente a ouvi-lo cantar "dançar contigo me dá Caetano". Como reagiu?
Nossa, foi muito emocionante porque o disco tinha acabado de sair, não fazia 48 horas. Fiquei todo tremendo.

O que é afinal "dar Caetano"?
Acho que é um sentimento de brasilidade. Caetano representa para mim a resistência da música brasileira e esse sentimento de pertença ao Brasil, que nestes tempos obscuros é importante de se ter.

Caetano Veloso, Madonna e David Bowie formam a sua "santíssima trindade". O que lhe deu cada um?
Madonna influencia na questão específica da provocação e de entender que o que eu vejo como arte tem um quê de provocação. Bowie vai nessa coisa da androginia do Ziggy Stardust. Obviamente é também um precursor do videoclip. O que têm em comum é a provocação. E são performáticos, trazendo a sexualidade.

Quando ficou claro que a provocação ia entrar no seu trabalho?
Tive o privilégio de crescer num ambiente libertário. Meus pais são artistas e convivi com diferentes tipos de pessoas. Quando vi o documentário Na cama com Madonna tinha seis para sete anos. Fiquei admirado com aquela mulher rodando o mundo, com um show que questionava tantas coisas numa época tão careta: ela ali com aquela trupe de dançarinos e músicos - trupe cigana por assim dizer - tão diversa, com gays, negros, mulheres... Lembro de olhar para aquilo e pensar "aqui dentro desse show existe um lugar seguro" Acho que entendi ali o que queria fazer no futuro. Para mim a arte tem esse papel, é uma experiência tão libertadora e tão mais religiosa do que qualquer outra forma de religião que eu conheça. Na mesma medida que educa, liberta. Nesse mundo careta e nessa sociedade ultraconservadora, senti-me na obrigação de trazer essas questões para o meu trabalho

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Vê essa ligação nos seus discos?
Do primeiro [Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito, 2015] para o segundo disco houve mudanças políticas: o golpe de Dilma Rousseff, as forças retrógradas de extrema-direita atacando direitos que tinham avançado nos últimos 15 anos. Vimos depois tudo andar para trás - o congelamento dos gastos na saúde e educação... tem sido um período muito assustador. O segundo disco é como se fosse uma resposta - músicas como Touro ou Flutua (principalmente) são músicas-manifesto sobre os nossos tempos. O primeiro pega o final do momento progressista, é muito ligado ao cancioneiro da dor de cotovelo, cancioneiro romântico e brega.
Como apareceu esta diversidade de sons no segundo disco?
Mas ao mesmo tempo ele acaba por ser coeso, porque é mais ou menos um passeio pelo Brasil. Ele vai no Rio com um samba, onde estava morando quando escrevi o disco; ele vai em Recife com frevo e tem essa característica de misturar esses ritmos com o rock - é um disco de banda. Outra coisa que une esses ritmos brasileiros é essa minha pegada mesmo intensa, visceral: o drama e o cantar cheio de teatralizada. Veio depois da tourné do primeiro disco onde a gente pôde trocar muito culturalmente com lugares do norte, do nordeste, pude conhecer mais enquanto ser humano as culturas locais e trocar com outros artistas de outros lugares.

Johnny Hooker

Começa com uma música de combate: Touro. Acabou por tatuar uns versos.
Exactamente. "Firme e forte feito um touro" é uma frase que a minha avó, do sertão brasileiro, sempre falou para mim nos tempos difíceis. Quando eu escrevi Touro estava passando por um processo de depressão severa - a digressão do primeiro disco me exauriu física e emocionalmente, junto com a separação de um casamento tóxico. No dia que eu estive pior vieram como uma corda de salvação essas palminhas [que iniciam Touro] e essa frase. A tatuagem serve para lembrar, durante os tempos sombrios que ainda virão - a vida é feita disso -, de não desistir.

Diz que a depressão nunca lhe trouxe nada de bom. Como lida com esse discurso de que a cura é um processo renovador é purificador?
Acho que esse discurso é um pouco moralista, é um discurso que culpa a vítima — 'você está assim porque você não levanta, porque não faz alguma coisa com a sua vida' — como se você pudesse fazer alguma coisa, como se a sua tristeza não viesse de uma percepção aguda de que as coisas no mundo estão todas erradas. As pessoas falam quase como se fosse num nível de merecimento: 'você superou a depressão porque você merece, porque foi à luta'. Tem gente que não tem força para ir à luta. Esse discurso de aprender uma lição é muito simplista. O que me salvou da depressão no final das contas foi teramigos e família muito amoros e ter-me agarrado no poder da arte. A arte, nesse sentido, é transformadora, mesmo.

Em muitas das suas letras o amor surge como um sentimento dominador e obsessivo. Porquê esta noção de amor?Quando escrevi o primeiro disco era muito jovem ainda, não que seja agora um velho, mas tinha uma noção de amor muito romântica. Como sempre fui muito intenso, isso saiu de uma maneira crua no primeiro disco. Neste disco há músicas que têm também uma noção de romance, mas que vão já em outro lugar, mais amadurecido. De lá para cá entendi que a gente reproduz tanta coisa heteronormativa, até nos relacionamentos gay, que são processos tóxicos de idealização. Tento agora fugir ao heteronormativo, que acho que ainda permeia muito aquele momento da minha obra - é muito romântico, muito brega - é isso que eu acho que é tóxico

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Já o censuraram na Internet e escreve-se muito sobre as suas "afirmações polémicas". Sente-se ameaçado?
A nossa sociedade é ultraconservadora, apesar de vender uma ideia de liberalismo e Carnaval, liberdade sexual. É uma sociedade muito religiosa ainda. Desde que eu existo (só por existir) que recebo ódio na Internet, comentários de gente me chamando de aberração, que têm nojo, que eu sou um lixo. Aqui no Brasil a gente não teve marcos de militância de direitos gay. Agora começou a ter: a gente tem um deputado do congresso [Jean Wyllys]. Um assumidamente gay naquele universo inteiro de deputados [594]. E ele também é severamente atacado.

Muitas vezes dentro do Congresso, por outros deputados.
Exactamente! É uma sociedade que está muito atrasada na discussão de muitos direitos e liberdades individuais. As pessoas acham que a religião tem poder de Estado aqui; não entraram em contacto com a ideia do Estado laico: esse é o abismo de educação que a gente tem aqui. Eu tenho uma postura que é muitas vezes de confronto porque eu acho necessário também para que as questões sejam colocadas em pauta.

Johnny Hooker em concerto
Como é ser gay no Brasil?
Completamente assustador, é o país que mais mata LGBT no mundo [segundo a Amnistia Internacional]. Não me sinto seguro de morar aqui, tenho muitos amigos que sofreram violência, outros se mataram. É uma sociedade muito opressora. Ao mesmo tempo que isto acontece, a gente tem uma cena de músicos levando essa discussão para a frente e me sinto orgulhoso de fazer parte. A música no Brasil tem essa força.

Alguma vez pensou deixar o Brasil por causa disso?
Eu sei que a luta pela democracia e pelos direitos é todo o dia. A gente tem de resistir. Mas não vou mentir que vem à minha mente passar um tempo em algum outro lugar para respirar um pouco. Vamos ver o que vai acontecer nessas eleições aí [presidenciais em Outubro]. Acho que se a extrema-direita ganhar as eleições será impossível ficar no Brasil, aí sim se tornaria um lugar muito perigoso de se estar. Mas tenho esperança que a gente pode construir um país progressista.


Participou como actor numa novela e noutras com músicas. Como se concilia este mundo normativo e às vezes conservador com a sua provocação?
Nunca foi para mim uma discordância ocupar esses espaços porque afinal de contas são concessões públicas do Estado. Como artista brasileiro tenho direito a estar ali representado. Sei que tem TV aqui ligadas a causas religiosas (ligadas à direita), mas acho que dentro dessas TV você encontra profissionais incríveis que estão a fim de trazer a discussão.

Como vê a geração de artistas brasileiros a que pertence?
É uma geração criada num momento progressista do mundo então vem com essa questão de poder ser quem se quer. A música é uma maneira incrível de quebrar os tabus, gera uma conexão e identificação profunda em termos de humanidade. Essa geração vem trazendo essa questão muito forte porque fomos criados numa altura em que o futuro pareceu possível: a gente viu um operário nordestino ser Presidente, a nossa primeira Presidente mulher, o casamento gay ser aprovado no civil e no supremo. Vimos algumas coisas do mundo andando e pensámos "chegou a nossa vez de nos expressarmos".
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