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Música

Anna Calvi: A caçadora atraída pela sedução e prazer

10.09.2018 10:33 por André Santos
Cinco anos passaram desde One Breath. Anna Calvi parece que susteve a respiração durante este tempo todo. Agora manda tudo cá para fora em Hunter, o seu terceiro álbum, enquanto prepara uma digressão europeia que passará por Portugal. Falámos com ela sobre a produção deste disco
Foto: Sábado

Quando em 2010 o nome de Anna Calvi começou a dar os primeiros passos no imaginário indie-rock da década, a britânica já tinha bagagem pesada para carregar sozinha. Pouco antes de sair o seu álbum de estreia homónimo em 2011, Brian Eno, que colabora em algumas canções, já dizia que ela era a melhor coisa a surgir na música popular desde Patti Smith. Associações a PJ Harvey, Nick Cave ou aos imaginários cinematográficos de David Lynch ou Wong Kar-Wai começaram a surgir.

Anna Calvi, o álbum, ainda não tinha saído e Anna Calvi, quase a chegar aos 30, tinha todas as razões para sentir a pressão do estrelato. A cantora e compositora chegou tarde à festa, começou a cantar nos seus vinte e muitos e teve alguns projectos antes de começar a carreira a solo, sempre adiada por causa de receio e vergonha do seu talento.

Ao telefone, Anna Calvi diz ao GPS que a forma de ultrapassar essa timidez e medo inicial foi perceber de uma vez por todas que estava envolvida e a trabalhar em algo que lhe interessava muito. "Comecei a perceber que aquilo que eu valho não pode ser aquilo que as outras pessoas pensam. Para avançar e também sobreviver às reacções iniciais à minha música tive de me dedicar à escrita de canções pelas quais me sentia mesmo ligada, apaixonada. Penso que é uma forma de criares - e sentires - uma relação saudável com o teu trabalho e o sucesso."

One Breath, o álbum seguinte, saiu dois anos depois e foi gravado em semanas. Hunter foi menos imediato e fez parte de um processo mais longo. Pelo meio, Anna Calvi escreveu a banda sonora para a ópera The Sandman, baseada na obra de E. T. A. Hoffmann.

Foi um processo diferente para Calvi: "Foi fantástico porque não tive de me preocupar com o que as canções significariam para mim enquanto expressão artística. Tinha de me confinar à história da peça e isso foi muito libertador. Assumi alguns riscos e foi uma experiência muito inspiradora."

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A orientação para a narrativa de uma ópera talvez tenha servido para ganhar músculo para o intenso sentido narrativo de Hunter: "Demorei algum tempo a gravar Hunter porque queria gravar um álbum que fizesse todo o sentido e que me deixasse orgulhosa no seu todo. Sinto-me muito satisfeita com o resultado, penso que gravei as canções certas para Hunter." Hunter, um caçador, quem é este caçador? "As mulheres andam a ser caçadas pelos homens na cultura actual. É a história de uma mulher que é uma caçadora, que parte para o mundo e o explora e que se sente atraída pelo prazer."

Hunter é também um álbum em que a sua personagem não precisa de um género, de um alvo concreto (feminino ou masculino), mas de uma sexualidade e de um sentido de exploração que atinjam uma catarse ou uma total libertação. A voz de Anna Calvi vive mais do que em qualquer outro dos seus álbuns. Em canções como Chain ou Wish faz-se ouvir como se quisesse a voz fora da canção, que saísse para o mundo e atacasse, caçasse. Em Alpha ou Hunter a voz é outro tipo de arma: sedutora, tentadora, um sussurro quase vampírico, predador. Uma voz com uma presença tão forte precisa de um corpo.

Anna Calvi assegurou-se disso com a presença de Mally Harpaz, multi-instrumentista e sua habitual colaboradora, Adrian Utley dos Portishead e Martyn Casey dos Bad Seeds. A ligação com Nick Cave não se fica por aqui, Calvi contratou Nick Launay para produzir Hunter. Launay já produziu álbuns para Nick Cave e Grinderman e tinha a visão necessária para entregar aquilo que Calvi queria para o terceiro álbum: "Queria que o álbum tivesse um som visceral e selvagem. Ele é um produtor incrível e percebeu de imediato o que eu queria, algo visceral, musculado e arrojado."

Após o lançamento de Hunter a 31 de Agosto pela Domino, Anna Calvi vai ter uma agenda preenchida. No final de Setembro começa uma digressão europeia de quase dois meses, que passará pelo Porto (19 de Outubro, Hard Club) e Lisboa (20 de Outubro, Capitólio). Todos prontos para serem caçados pela voz de Calvi?

Hunter
Anna Calvi
Indie-rock
• Editora Domino
€13,99  
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