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O lado negro do fundador da Uber

21.05.2017 15:00 por Dina Arsénio e Maria Espírito Santo
Ele criou a Uber e pode afundá-la. Travis Kalanick enfrenta queixas de assédio sexual e má gestão. Diz que precisa de ajuda para liderar
Foto: Sábado

Quando era miúdo queria ser espião, mas logo trocou a perseguição pela conquista comercial, a vender facas porta a porta para a Cutco (marca de cutelaria). Eram os primeiros passos no empreendedorismo, na altura em Northridge, subúrbio da classe médica de Los Angeles, nos EUA. Hoje, Travis Cordell Kalanick, 40 anos, é conhecido como o fundador da Uber, um dos homens mais poderosos do mundo, segundo a Forbes, que o colocou no nº 64 da sua lista. Mas, ultimamente, ganhou lugar noutro pódio: o dos mais polémicos e até odiados.

"As pessoas não gostam de assumir responsabilidade pelas suas merdas", disse a um motorista que o transportava e que se queixava de os preços cobrados em viagem terem descido, o que o levou à falência. Disse logo boa noite e fechou a porta: não sabia que estava a ser filmado. Dias depois desculpou-se publicamente, admitiu que precisava de ajuda para liderar. Só que Travis não é um novato.

A veia comercial herdou-a da mãe, que trabalhava no ramo de vendas e o jeito para a matemática do pai, engenheiro. Aos 18 já era um ás dos números. Foi aí que criou a New Way Academy - um centro de explicações onde dava aulas; depois estudou Engenharia Informática, mas desistiu.

Em 1998 co-fundou a Scour, uma plataforma para anexar e descarregar documentos, que fecharia, processada por violação de direitos de autor. Seguiu-se o próximo negócio, em 2000, a RedSwoosh, uma empresa de software de rede. Logo perdeu as rédeas: primeiro os conflitos com o co-fundador, depois as irregularidades no pagamento de impostos - por essa altura teve de se mudar para casa dos pais; até que decidiu vender a empresa, em 2007, pelo que seriam hoje 20 milhões de euros. Ficou milionário, viajou por meio mundo (também passou por Portugal) antes de chegar à derradeira criação - a Uber, que nasceu quando ele e Garrett Camp (co-fundador) não conseguiram apanhar um táxi.

Assédio e roubo
O polémico vídeo gravado pelo motorista foi filmado na noite do Super Bowl e divulgado no fim de Fevereiro. Não foi um caso isolado. Ainda este ano surgiram queixas internas de assédio sexual, e em 2014 Travis já fazia multiplicar as críticas por comentar à revista masculina GQ que a empresa se devia chamar Boober (trocadilho entre Uber e mamas), pela atenção feminina que recebia.

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Regressando ao presente, mais concretamente a Janeiro, foi em Nova Iorque que taxistas (a maioria imigrantes) fizeram uma manifestação contra o decreto que proibia a entrada de muçulmanos. A Uber continuou a circular. O hashtag #deleteuber levou a um autêntico movimento: em três dias perderam 200 mil clientes. Um par de semanas depois: a Google acusava a Uber de lhe ter roubado a tecnologia do carro autónomo Waymo para a Otto, start-up da Uber que quer pôr carros a viajar sem condutor.

As acusações põem Travis e a Uber em risco. Criada em Março de 2009, em São Francisco, Califórnia, a multinacional está em 581 cidades de 81 países, mas dá prejuízo - o ano passado foram 2,8 mil milhões. 

Artigo originalmente publicado na edição nº 672 na SÁBADO, a 16 de Março de 2017


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