Na página como cerca de três meses, Ricardo vai contando de jeito peculiar os resultados das suas descobertas. Num dos posts, falou sobre um TO de 27m2 colocado à venda por 300.000 euros." Em plena Rua do Crucifixo [ndr: em Lisboa] pode crucificar 300.000€ num imóvel... é tão pequeno que talvez dê para arrastar pelas ruas", escreveu o arquitecto.
A ironia foi novamente usada na denúncia de um caso na zona do Príncipe Real: um T1 para alugar por 2.358 euros por mês. "Podia até ser na Suécia, onde um 'T2 pode facilmente ultrapassar os 2500 euros' mas é Lisboa e é um T1!", reforçou.
À SÁBADO, Ricardo Garcia Pereira defendeu que até a classe média europeia fica fora destes investimentos. "O que está a acontecer é que quem tem muito dinheiro pode viver em Lisboa e quem não tem não pode. Independentemente do país de origem", atirou.
Arrendamento longo vs Airbnb
O Fundo Monetário Internacional revelou, na passada semana, que o preço das casas aumentou 15% num período de apenas dois anos – batendo o pique atingido antes da crise, em 2010 - devido ao turismo. Além do aumento do investimento directo na compra de imóveis por estrangeiros que beneficiam de condições especiais, também muitas empresas de construção passaram a apostar na recuperação de prédios e habitações para turistas alugarem.
O regime fiscal para o Residente Não Habitual, que desde 2009 isenta de tributação durante uma década o rendimento trazido de fora por pensionistas estrangeiros, juntou-se ao programa de autorização de Residência para Actividades de Investimento criado em 2012, os vistos gold, e tornaram-se também eles uma dupla que trouxe dinheiro para o imobiliário. Em 2016, o investimento directo estrangeiro neste sector totalizou 6,2 mil milhões de euros, mais 50% face a 2014, segundo dados do Banco de Portugal. Os franceses são os principais e preferem comprar – Campo de Ourique, em Lisboa, perto do Liceu Francês, é uma das zonas preferidas. Outros compradores incluem brasileiros, chineses, turcos, iranianos ou libaneses (ainda há angolanos, mas em menor número), que tiram parte do património, do risco e da instabilidade doméstica para a Europa – Portugal, seguro, barato, acolhedor e no radar é visto como uma oportunidade agradável de investimento.
O efeito da presença dos estrangeiros no sector imobiliário faz-se sentir igualmente no sector do mercado de alojamento local. Em Março deste ano havia 10.9698 propriedades em Lisboa listadas com activas no Airbnb e 4.269 no Porto, segundo a empresa norte-americana Airdna, uma consultora que analisa este mercado.
Ricardo Garcia Pereira também fez uma pesquisa para demonstrar o quanto o mercado dificulta a vida aos locais. "Procurei T1 e T2 para alugar em Lisboa com valores de 350 euros e 650 euros – número atingido tendo em conta que não se deve ultrapassar 33% do rendimento disponível na habitação. Encontrei quatro casos para a primeira tipologia e três para a segunda. Em contrapartida, havia mais de 10 mil Airbnb activos", revelou à SÁBADO.
O controlo do arrendamento local é "fundamental" para Garcia Pereira, para quem urgem medidas concretas – e que podem ser várias. "Pode limitar-se o número de dias que um imóvel pode estar disponível para arrendamento local. Também se deve ter em conta que casas são alugadas e como. Por exemplo, um casal com dois quartos disponíveis, mas que habita a casa, não a vai abandonar para a alugar. Esse é um exemplo lógico de Airbnb. Há ainda a hipótese de a Câmara ser proprietária dos apartamentos do centro da cidade e com isso influenciar os preços de todo o mercado e de se mudarem as regras do arrendamento a longo prazo", enumerou.
Habitação agita campanha
"É preciso perceber que tipo de investimento que queremos trazer para Portugal. Não pode valer tudo para que não se perca esse dinheiro", atirou ainda o arquitecto. Numa alfinetada aos candidatos à Câmara de Lisboa nas eleições autárquicas de 1 de Outubro, Ricardo Garcia Pereira acusou muitos dos que agora se preocupam com a questão da habitação de serem responsáveis pelo afastamento dos lisboetas do centro da cidade.
A venda e arrendamento de imóveis na capital tem sido um dos "temas quentes" da campanha eleitoral e uma "arma" dos principais candidatos. Fernando Medina, actual presidente da Câmara de Lisboa e candidato do PS, criou o programa Renda Acessível que pretende oferecer mais de seis mil casas a preços acessíveis (200 a 400 euros de rendas) para famílias da classe média. Além disso, promete defender uma redução de 10% em sede de IRS para arrendamentos superiores a dez anos.
A social-democrata Teresa Leal Coelho quer colocar no mercado cerca de dois mil fogos pertencentes à Câmara, criar uma bolsa de fogos municipais para famílias deslocadas e refugiados e criar condições para que a entrega de casas de habitação social não ultrapasse os três meses. Do programa consta ainda uma proposta de isenção do IMI para compra de habitação permanente ou para arrendamento para habitação.
A candidata e líder do CDS, Assunção Cristas, pretende que o património da Câmara seja usado por famílias da classe média e quer apostar mais na reabilitação de fogos do que na construção – a "arma" é o programa Renda Acessível.
Do lado comunista, João Ferreira aposta numa bolsa de fogos para arrendamento a custos acessíveis e, no caso da construção nova e da reabilitação profunda, que se tenha que reservar pelo menos 25% dos fogos para arrendar a preços controlados. O candidato do PCP quer ainda que mais recursos financeiros – incluindo subsídios da EU – sejam usados para habitação nos bairros históricos.
O programa Viver Lisboa é a grande aposta do Bloco de Esquerda, com o objectivo de disponibilizar 7.500 casas a preços acessíveis. Ricardo Robles partilha com João Ferreira a intenção de que 25% dos imóveis reabilitados ou construídos tenham preços controlados. O BE promete ainda aumentar o IMI para quem abandona as habitações e desagravar o imposto a quem usar os fogos para casa própria.
"Lisboa está absolutamente dependente do turismo e a habitação é um reflexo disso", acrescentou Ricardo Garcia Pereira, alertando o perigo de "queda da economia quando os visitantes escolherem outras paragens".
O arquitecto assegura que nem os actuais proprietários estão conscientes dos riscos que correm. "Já há ‘gigantes’ neste mercado que estão a arrebatar os mais pequenos. Mas, com este crescimento desenfreado, não tarda chegam os fundos imobiliários", reforçou. Para Ricardo Garcia Pereira, tal irá criar problemas gravíssimos aos actuais compradores e arrendatário: "Ninguém é capaz de fazer frente aos fundos imobiliários."
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Arquitecto criou página no Facebook para denunciar a "catástrofe" que se vive em Lisboa
A página de Facebook Negócios de Sonho foi imaginada quando um colega de trabalho de Ricardo Garcia Pereira começou a procurar casa para comprar. As "situações absurdas" encontradas levaram o arquitecto a avançar com o projecto cujo "objectivo é denunciar, através da ironia e do humor, os preços estratosféricos que se praticam em Lisboa". "A ideia é reduzir a situação ao ridículo", explicou à SÁBADO, revelando que muita gente não acreditava nos valores que ele dizia encontrar -e que vão desde quartos para alugar por 3 mil euros ou T0 de 32m² por 334.800 euros.
Recentemente, Garcia Pereira cruzou-se com uma mãe da Madeira que "procurava desesperadamente" por um quarto para alugar para a filha. A jovem entrara numa universidade em Lisboa, "obudget disponível era de 300 euros e não havia oferta em sítio nenhum". Uma situação que não surpreende o arquitecto: "Se repararmos bem, grande parte dos anúncios são dirigidos a estudantes estrangeiros e por isso é que estão traduzidos para inglês. O que para eles é um pouco alto é insuportável para os portugueses".
Na página como cerca de três meses, Ricardo vai contando de jeito peculiar os resultados das suas descobertas. Num dos posts, falou sobre um TO de 27m2 colocado à venda por 300.000 euros." Em plena Rua do Crucifixo [ndr: em Lisboa] pode crucificar 300.000€ num imóvel... é tão pequeno que talvez dê para arrastar pelas ruas", escreveu o arquitecto.
A ironia foi novamente usada na denúncia de um caso na zona do Príncipe Real: um T1 para alugar por 2.358 euros por mês. "Podia até ser na Suécia, onde um 'T2 pode facilmente ultrapassar os 2500 euros' mas é Lisboa e é um T1!", reforçou.
À SÁBADO, Ricardo Garcia Pereira defendeu que até a classe média europeia fica fora destes investimentos. "O que está a acontecer é que quem tem muito dinheiro pode viver em Lisboa e quem não tem não pode. Independentemente do país de origem", atirou.
Arrendamento longo vs Airbnb
O Fundo Monetário Internacional revelou, na passada semana, que o preço das casas aumentou 15% num período de apenas dois anos – batendo o pique atingido antes da crise, em 2010 - devido ao turismo. Além do aumento do investimento directo na compra de imóveis por estrangeiros que beneficiam de condições especiais, também muitas empresas de construção passaram a apostar na recuperação de prédios e habitações para turistas alugarem.
O regime fiscal para o Residente Não Habitual, que desde 2009 isenta de tributação durante uma década o rendimento trazido de fora por pensionistas estrangeiros, juntou-se ao programa de autorização de Residência para Actividades de Investimento criado em 2012, os vistos gold, e tornaram-se também eles uma dupla que trouxe dinheiro para o imobiliário. Em 2016, o investimento directo estrangeiro neste sector totalizou 6,2 mil milhões de euros, mais 50% face a 2014, segundo dados do Banco de Portugal. Os franceses são os principais e preferem comprar – Campo de Ourique, em Lisboa, perto do Liceu Francês, é uma das zonas preferidas. Outros compradores incluem brasileiros, chineses, turcos, iranianos ou libaneses (ainda há angolanos, mas em menor número), que tiram parte do património, do risco e da instabilidade doméstica para a Europa – Portugal, seguro, barato, acolhedor e no radar é visto como uma oportunidade agradável de investimento.
O efeito da presença dos estrangeiros no sector imobiliário faz-se sentir igualmente no sector do mercado de alojamento local. Em Março deste ano havia 10.9698 propriedades em Lisboa listadas com activas no Airbnb e 4.269 no Porto, segundo a empresa norte-americana Airdna, uma consultora que analisa este mercado.
Ricardo Garcia Pereira também fez uma pesquisa para demonstrar o quanto o mercado dificulta a vida aos locais. "Procurei T1 e T2 para alugar em Lisboa com valores de 350 euros e 650 euros – número atingido tendo em conta que não se deve ultrapassar 33% do rendimento disponível na habitação. Encontrei quatro casos para a primeira tipologia e três para a segunda. Em contrapartida, havia mais de 10 mil Airbnb activos", revelou à SÁBADO.
O controlo do arrendamento local é "fundamental" para Garcia Pereira, para quem urgem medidas concretas – e que podem ser várias. "Pode limitar-se o número de dias que um imóvel pode estar disponível para arrendamento local. Também se deve ter em conta que casas são alugadas e como. Por exemplo, um casal com dois quartos disponíveis, mas que habita a casa, não a vai abandonar para a alugar. Esse é um exemplo lógico de Airbnb. Há ainda a hipótese de a Câmara ser proprietária dos apartamentos do centro da cidade e com isso influenciar os preços de todo o mercado e de se mudarem as regras do arrendamento a longo prazo", enumerou.
Habitação agita campanha
"É preciso perceber que tipo de investimento que queremos trazer para Portugal. Não pode valer tudo para que não se perca esse dinheiro", atirou ainda o arquitecto. Numa alfinetada aos candidatos à Câmara de Lisboa nas eleições autárquicas de 1 de Outubro, Ricardo Garcia Pereira acusou muitos dos que agora se preocupam com a questão da habitação de serem responsáveis pelo afastamento dos lisboetas do centro da cidade.
A venda e arrendamento de imóveis na capital tem sido um dos "temas quentes" da campanha eleitoral e uma "arma" dos principais candidatos. Fernando Medina, actual presidente da Câmara de Lisboa e candidato do PS, criou o programa Renda Acessível que pretende oferecer mais de seis mil casas a preços acessíveis (200 a 400 euros de rendas) para famílias da classe média. Além disso, promete defender uma redução de 10% em sede de IRS para arrendamentos superiores a dez anos.
A social-democrata Teresa Leal Coelho quer colocar no mercado cerca de dois mil fogos pertencentes à Câmara, criar uma bolsa de fogos municipais para famílias deslocadas e refugiados e criar condições para que a entrega de casas de habitação social não ultrapasse os três meses. Do programa consta ainda uma proposta de isenção do IMI para compra de habitação permanente ou para arrendamento para habitação.
A candidata e líder do CDS, Assunção Cristas, pretende que o património da Câmara seja usado por famílias da classe média e quer apostar mais na reabilitação de fogos do que na construção – a "arma" é o programa Renda Acessível.
Do lado comunista, João Ferreira aposta numa bolsa de fogos para arrendamento a custos acessíveis e, no caso da construção nova e da reabilitação profunda, que se tenha que reservar pelo menos 25% dos fogos para arrendar a preços controlados. O candidato do PCP quer ainda que mais recursos financeiros – incluindo subsídios da EU – sejam usados para habitação nos bairros históricos.
O programa Viver Lisboa é a grande aposta do Bloco de Esquerda, com o objectivo de disponibilizar 7.500 casas a preços acessíveis. Ricardo Robles partilha com João Ferreira a intenção de que 25% dos imóveis reabilitados ou construídos tenham preços controlados. O BE promete ainda aumentar o IMI para quem abandona as habitações e desagravar o imposto a quem usar os fogos para casa própria.
"Lisboa está absolutamente dependente do turismo e a habitação é um reflexo disso", acrescentou Ricardo Garcia Pereira, alertando o perigo de "queda da economia quando os visitantes escolherem outras paragens".
O arquitecto assegura que nem os actuais proprietários estão conscientes dos riscos que correm. "Já há ‘gigantes’ neste mercado que estão a arrebatar os mais pequenos. Mas, com este crescimento desenfreado, não tarda chegam os fundos imobiliários", reforçou. Para Ricardo Garcia Pereira, tal irá criar problemas gravíssimos aos actuais compradores e arrendatário: "Ninguém é capaz de fazer frente aos fundos imobiliários."
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