Quando os médicos e enfermeiros têm de pagar para trabalhar

Quando os médicos e enfermeiros têm de pagar para trabalhar
Lucília Galha 20 de novembro de 2019

Há vários médicos e enfermeiros a suportar as despesas de material e de aparelhos clínicos que faltam nas unidades de saúde - e que nunca chegam. Numa USF do Algarve, os profissionais pagaram mais de 100 euros, cada um.

Um balcão para a receção, duas tábuas de apoio para os computadores das salas de tratamentos, oito peças de madeira (poleias) para segurar as respetivas tábuas, um frigorífico, um micro-ondas, dois blocos de gavetas, uma cadeira de secretária, duas cortinas para gabinetes médicos, detergentes para limpar, quatro lâmpadas fluorescentes, duas caixas com divisões para arrumar medicação, quatro lanternas de cabeça para fazer exames, sete medidores de pressão arterial, sete balanças digitais… e a lista continua. São, no total, 32 itens. Este não é, contudo, um inventário qualquer. O material, que se destinou a equipar uma unidade de saúde pública do Algarve, foi comprado, não pelo Estado - como seria esperado - mas pelos próprios profissionais de saúde entre o final de 2018 e março deste ano.

Motivo: a Unidade de Saúde Familiar Sol Nascente, em Albufeira, foi inaugurada, de forma atabalhoada e à pressa, a 17 de dezembro de 2018 - o Governo estabelecera a meta de ter 100 novas Unidades de Saúde Familiares (USF) a funcionar até ao fim da legislatura e, na altura, faltavam apenas seis meses para ela terminar. Com pouco material para trabalhar - e, alegadamente, também sem um prazo da Autoridade Regional de Saúde do Algarve para as coisas chegarem -, a equipa de profissionais de saúde teve de resolver o problema sozinha. Como? Organizando uma coleta entre todos para comprarem o que era necessário. "Foram os sete médicos, cinco enfermeiros e quatro administrativos daquela unidade que suportaram as contas", diz à SÁBADO Sérgio Branco, presidente da secção Sul da Ordem dos Enfermeiros.

Uma despesa que terá ficado em pelo menos 1.600 euros. "Cada um investiu cerca de 100 euros: foram ao supermercado buscar aparelhos, como balanças e medidores da pressão arterial; ao IKEA comprar móveis e até tiveram de ser eles a garantir a limpeza do espaço", relata o profissional de saúde.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Opinião Ver mais