O serviço com 100 horas de trabalho a mais por mês e tempo a menos para celebrar o Natal

José Couceiro com Leonor Riso 24 de dezembro de 2020

O médico António Pais Lacerda, diretor do serviço de Medicina Interna II do Hospital Santa Maria, em Lisboa, revela como vai ser passada esta época festiva entre os profissionais.


Neste momento, o serviço de Medicina Interna II do Hospital Santa Maria, em Lisboa, possui 80 camas para doentes com covid-19 e 30 camas para doentes sem covid-19. Com este número elevado, "não demos férias a ninguém durante este período de dezembro", pois "era impensável porque deixávamos de ter pessoas para fazer escalas" explica o diretor do serviço, o médico internista António Pais Lacerda.
 
Se apenas ficassem a trabalhar os médicos e enfermeiros que estão de serviço, "estes dias iam ser perdidos, pois não ia ser possível arranjar mais vagas para entrarem mais doentes". Isto porque "doentes que poderiam ser transferidos, ou ir para casa ficariam à espera que o serviço voltasse a ter todos os profissionais".
 
No entanto este esforço sai da pele dos profissionais. "As pessoas andam muito cansadas, pois de três em três dias estão no serviço", revela o médico. "Os profissionais neste serviço têm cerca de 100 horas a mais por mês do que deveriam ter", acrescenta. António Lacerda realça que "o esforço dos médicos e enfermeiros em conjunto tem de ser divulgado para a população" de forma a ter uma melhor percepção do que se passa. 
 
E como é que este médico vai passar a sua quadra natalícia? "Eu vou passar na minha casa apenas com a minha mulher", e não com outros membros da família, pois "o que temos visto é que as pessoas que ficam infetadas, é muitas vezes em casa de familiares". Dá como exemplo o caso de uma colega, médica, que, apesar de trabalhar com doentes com covid-19, foi em casa que ficou infetada.
 
António Lacerda entende que estas medidas são duras para as pessoas, no entanto avisa que "é preciso que este Natal assim seja", e que entre os seus colegas há uma preocupação constante com as consequências desta época festiva. "Sempre que pensamos em janeiro, questionamos quantos mais doentes irão entrar", relata o especialista.
 
Neste serviço não há também tempo para muitas celebrações "os meus colegas disseram que ou vão ficar em casa, com o seu agregado familiar, ou que ficam a trabalhar" diz o médico internista. "Vai haver festa mais num sentido psicológico, de pensar na família, do que no sentido real", pois continuam a trabalhar.
 
António Lacerda finaliza subscrevendo a ideia de Angela Merkel, que um Natal mais condicionado é necessário para que não seja o último Natal a ser celebrado com os familiares.

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