Alunos do ISPA convocam greve contra os exames presenciais

Alunos do ISPA convocam greve contra os exames presenciais
Sónia Bento 15 de janeiro
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Se desde o início do ano letivo as turmas se dividem em dois grupos, com aulas presenciais e à distância, os estudantes dizem que não faz sentido juntarem-se todos para os exames e até convocaram uma greve.

Alguns alunos do ISPA (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida), em Lisboa, queixam-se que a universidade os obriga a realizar os exames presenciais e não compreendem porque não lhes é permitido fazer online, como aconteceu no ano letivo anterior. Em protesto, foi convocada uma greve mas a adesão tem sido muito fraca. "Há pouca gente a fazer greve por medo. Estamos a ser coagidos a colocar em risco a saúde pública. Se desde o início do ano letivo temos aulas com as turmas divididas em dois grupos, com o máximo de 15 alunos, metade presencial e a outra metade à distância, decidirem agora fazer os exames presencialmente é um absurdo. E a resposta que a reitoria nos dá é a de que estão a cumprir as normas do Governo, quando há outras faculdades que estão a fazer as avaliações online", diz Carlos C. (nome fictício), aluno do 1.º ano do mestrado. E continua: "Li um artigo que dizia que o grande problema dos exames online foi o aumento bastante grande das médias, o que não se podia repetir. Se esse é o problema faziam-se exames online com consulta".

Reuters

Malas ao monte e pouca distância
Catarina, que fez o exame de Biologia e Neurociências, na manhã desta sexta-feira, conta à SÁBADO que se sentiu "bastante insegura". "Primeiro, eram duas turmas, com um total de cerca de 70 pessoas, que tiveram de deixar as malas ao monte. No auditório, havia apenas uma cadeira a separar-nos, longe de estarmos com um distanciamento de dois metros, e as folhas de exame andaram de mão em mão. A minha chegou-me depois de ter passado pelas mãos de sete pessoas". Esta estudante do 1.º ano revela ainda que quando saiu do instituto ficou chocada com os ajuntamentos: "Vi vários grupos de sete e oito pessoas, algumas sem máscara, e no café então era o caos".

Maria B., aluna do 1.º ano, sofre de asma, vive com uma pessoa de risco, e por isso tem tido aulas online desde o início do ano semestre, o resto da turma vai rodando semanalmente. Quando soube que tinha de se deslocar à faculdade para fazer os exames reclamou, mas não teve alternativa. "Eu não saio de casa há quase um ano, sofro de ansiedade e depressão e saber que vou estar numa sala com dezenas de pessoas, fragiliza-me ainda mais. Mas não tenho opção... e se infetar a minha mãe e a minha avó? Como é que me vou sentir? Dizem que há outra sala para pessoas de risco ou que coabitem com pessoas de risco, mas é tudo muito burocrático", conta. Maria enviou um e-mail ao tutor que lhe disse que compreendia a situação, mas que nada podia fazer. "No ano passado, o ISPA realizou os exames online e os alunos agora, com a situação pandémica mais agravada, não encontram explicação para que não se continue a fazer da mesma forma", adianta. A associação de estudantes do instituto tem recebido centenas de mensagens de alunos a reclamar e apelou à reitora.

Quem não faz os exames é reprovado
O caso de Madalena S., que também frequenta o 1.º ano, também é complicado: o pai tem diversas patologias, sendo de elevado risco, além de ela estar fragilizada por ter perdido a avó, vítima de covid-19, há menos de um mês. "Contactei a faculdade, os serviços académicos, o conselho pedagógico e a reitora, mas nunca obtive resposta de ninguém. Falei com o meu tutor de turma, que não pode fazer nada. Não me sinto segura, isto podia ser evitado, mas temos de ir aos exames porque se não formos somos chumbados", revela a aluna. "Se chumbarmos a uma disciplina acrescem 100 euros à mensalidade, que está quase nos 400 euros. É incomportável para muitos", explica outro colega. Luís R. também não concorda com a forma como a universidade resolveu a questão dos exames e aderiu à greve, mesmo sendo penalizado com a ausência de avaliação. "Não sou de risco, mas acho que os exames presenciais não fazem sentido quando no ano passado, em que a situação pandémica não era tão grave, fizemos online e correu bem. Ainda que sejamos jovens, podemos transmitir o vírus aos pais e aos avós", diz à SÁBADO. E acrescenta: "Houve quem dissesse que os exames online fizeram subir as médias. O que é mais importante? Isso ou a saúde pública? Há muita gente no ISPA que gostaria de aderir à greve, mas tem medo de represálias".

Joana P., estudante do 1.º ano de mestrado, levanta a mesma questão: "Se durante todo este semestre andámos separados por turnos, com as salas abertas, esperávamos que o mesmo acontecesse na época de exames. O edifício do ISPA é limitado, tem corredores estreitos e labirínticos e apenas dois auditórios, que vão ser ocupados por duas turmas durante as provas. Que sentido faz? Submetem-nos a exames presenciais, em que as únicas opções são: ‘devo ir a exame, sujeitar-me a adoecer e a infetar os meus, para fazer a cadeira?’ ou ‘devo preservar a minha vida e a dos outros e deixar esta cadeira por fazer?’".

Contactada pela SÁBADO, a reitoria do ISPA esclarece que o instituto "deu cumprimento às indicações da Tutela que refere claramente que o ensino superior deve garantir as atividades letivas e não letivas, assim como as avaliações, em regime presencial. Conscientes das preocupações da comunidade académica, todas as medidas de higiene e segurança foram respeitadas e reforçadas, nomeadamente através da identificação de circuitos de circulação específicos, desfasamento de horários de avaliações, etc.".

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