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Entrevista

Manuel Antunes: “Depois de operar um bebé, sou sempre eu que dou o biberão”

16.06.2018 16:22 por Lucília Galha
Há 41 anos, entrou numa sala de cirurgia cardíaca pela primeira vez. Já operou 35 mil corações.Hoje, antes de se reformar a 20 de Julho, é homenageado num evento em Coimbra.
Foto: Sérgio Azenha
Foto: Sérgio Azenha
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Foto: Sérgio Azenha

Manuel Antunes

Há um aspecto que salta à vista nos corredores do edifício do Centro de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Além do espaço (quando estava a ser construído, o director pediu que aumentassem a área em 10% e é tudo mais espaçoso), ou das cores garridas dos corredores (o bloco é vermelho e a unidade de cuidados intensivos e intermédios rosa-lilás), há quatro vitrinas carregadas de salvas de prata e moedas de ouro – que os doentes fazem questão de oferecer a Manuel Antunes, para lhe agradecerem. O director do serviço, 69 anos, envaidece-se com a atenção, mas relativiza: "Não salvámos a vida a todos, tenho a noção de que os doentes nos dão mais do que aquilo que merecemos", diz. Não guarda nada para si, à excepção de itens pessoais. Como relógios. No dia em que conversou com a SÁBADO, na véspera de partir para a Colômbia para um simpósio, usava um (desta "colecção"), discreto, com bracelete preta. Confidenciou-nos que custava 800 euros. A conversa estendeu-se por quatro horas e meia e acabou por perder o comboio para Lisboa –, mas ainda assim, o cirurgião cardiotorácico fez questão de apresentar o serviço. E pelo caminho aproveitou para fechar umas portas, e umas luzes. Já vai perceber porquê.

Nasceu numa aldeia chamada Memória, em Leiria.
No dia 20 Julho de 1948. Vivi na Memória até aos 5 anos. O meu pai emigrou para Moçambique, em 1950, logo a seguir à guerra. Foi à procura de trabalho e de melhores condições de vida, éramos uma família modesta. Depois, fomos ter com ele.

Como era a vida na aldeia?
Lembro-me de o meu pai construir um carrinho de madeira, com o qual eu e o meu irmão [dois anos mais novo] brincávamos. Dava para um se sentar e o outro puxar. Do que me lembro vividamente foi do dia em que deixei a Memória.

Como foi?
Chegámos a Lourenço Marques a 1 de Abril de 1954 e foi lá que cresci. A nossa casa estava cheia de gente para se despedir. Saímos de madrugada de comboio para Lisboa, onde ainda se tinha de tratar das vacinas e dos papéis, e só depois fomos para o barco.

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Recorda-se da viagem?
Lembro-me dos enjoos e de toda a gente a vomitar. O barco tinha 1ª e 2ª classes e ainda havia o porão [foi aí que viajou], onde as pessoas faziam camarotes. Havia gradeamentos para as pessoas não caírem no mar. A viagem demorava 19 ou 20 dias, parava na Madeira, depois em São Tomé, Luanda, África do Sul e finalmente em Moçambique.

Era uma travessia difícil?
Pelo contrário, é a memória mais vívida que tenho. Quatro anos depois tivemos de voltar a Portugal, porque o meu pai esteve muito doente e ficámos um ano na Memória, onde fiz a 4ª classe. Como o meu pai se tornou funcionário dos serviços de viação da Câmara Municipal de Lourenço Marques, quando regressámos a Moçambique já tivemos direito à 2ª classe [do barco], que era uma coisa em grande.

Quem eram os seus pais?
A minha mãe era dona de casa e o meu pai era motorista de pesados, trabalhava para uma companhia que recolhia resinas. A seguir à guerra, o trabalho tornou-se incerto e ele emigrou. Em Moçambique, a vida era claramente melhor, um admirável mundo novo. Na Memória, não havia água canalizada, nem electricidade. Carregar num botãozinho na parede e a candeia acender-se era extraordinário, ou chegarmos à casa de banho e sair água da torneira. Na terra, havia um poço onde se ia buscar a água.

Porque decidiu seguir Medicina?
Sinceramente, não sei. A Câmara de Lourenço Marques tinha um posto médico e, quando eu tinha um bocadinho de febre, o meu pai levava-me logo lá. Para mim era um dia de festa porque não ia à escola. Via os médicos a trabalhar e, provavelmente, comecei a tomar-lhe o gosto.

Tinha referências na família?
Nenhuma. Fui o primeiro licenciado da família.

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Porque foi o primeiro?
A família era modesta e, naquele tempo, em Portugal, muitos nem iam à escola. O meu pai fez questão de nos levar mais longe. Sempre fui bom aluno e tinha o desejo de ir para a frente, mas se não tivesse condições, teria ficado pelo caminho. Devo isso claramente ao meu pai.

Começou a operar no curso?
Naquele tempo, havia blocos com duas mesas operatórias, era possível operar dois doentes ao mesmo tempo. As hérnias inguinais na população negra são endémicas e, a partir do 4º ano, eu e outro colega (já estávamos ambos interessados em ir para cirurgia) começámos a operar. Quando terminei o curso, já tinha operado umas 400 hérnias. Às quintas -feiras à tarde, operávamos, uns com anestesia, outros com anestesia local, outros com aguenta aí, enfim… Os tempos eram diferentes.

Como percebeu que era isso que queria fazer?
Sempre fui coca-bichinhos, era eu que arranjava as torneiras e os interruptores da luz na nossa casa e na dos vizinhos. Gostava de mexer com as mãos e a cirurgia dava-me esse prazer. Houve outros dois factores: o meu avô, pai da minha mãe, morreu com cancro do esófago quando eu estava no 4º ano; também no meu 4º ano aconteceu a primeira transplantação cardíaca, faz agora 50 anos. Tive uma interacção com o professor [Christiaan] Barnard [o cirurgião sul-africano que fez o primeiro transplante de coração].

O que aconteceu?
No 4º ano tive Deontologia Médica. Era preciso fazer um trabalho e eu escolhi os aspectos éticos e legais da transplantação de órgãos – naquela altura só se transplantavam rins. Isto foi em 1967 e tinha de entregar até 29 de Fevereiro de 1968. A 3 Dezembro de 1967 saiu a notícia do primeiro transplante de coração e, chico-esperto como sempre fui, pedi ao professor para mudar o tema. Só que não havia nada escrito. Um mês depois, o Barnard operou o segundo doente – que foi, durante muito tempo, o mais longo sobrevivente de um transplante cardíaco, resistiu três anos. Decidi escrever -lhe uma carta e escrevi também ao tal doente. Claro que eu não esperava que o professor Barnard fosse responder a um aluno da Faculdade de Medicina de Lourenço Marques. Mas ele respondeu, dois dias depois de ter entregado o trabalho. Ainda consegui pô-lo como apêndice e tive 20 valores. Treze anos depois, em Maio de 1980, já depois de acabar a especialidade, conheci-o num congresso em Joanesburgo. Ele lembrava-se da minha carta e disse-me: "Era uma carta num inglês difícil de interpretar (nunca fui bom na língua), mas com perguntas inteligentes."

Lembra-se da sua primeira cirurgia?
Quando entrei para a especialidade operei uma miúda de 12 anos com uma apendicite, foi a primeira oficialmente. O professor tirou à sorte para ver quem entrava primeiro, eu ou o meu colega, e calhou-me a mim. O pai dela era pescador e trouxe-me um peixe grande, parecia um tubarão.

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A certa altura mudou-se para África do Sul, porquê?
Ofereceram-me a possibilidade de fazer um doutoramento e fui para Joanesburgo. Não cheguei a fazê -lo, terminei a especialidade de cirurgia geral, depois passei para cirurgia torácica.

Trabalhou no Hospital de Baragwanath, no Soweto, o maior do hemisfério sul. O ritmo era muito exigente?
Sim, lembro-me de períodos de 24 horas em que operava 10 ou 12 doentes. Lembro-me de operar, numa noite, três doentes com facadas no coração. Muitas vezes encostava-me num canto da sala e fechava os olhos por cinco minutos, tão cansado que estava.

Como aguentava?
Se me pergunta se, com tanto trabalho, se fizeram asneiras? Provavelmente, mas salvámos muitos doentes. Nesta vida há perdas, mas desde que os ganhos sejam muito, muito maiores… A cirurgia tem um bocadinho de bordado, de ponto -de-cruz, é ciência, técnica, mas também é arte. É como fazer um fato.

Como assim?
A minha mãe gostava de fazer uns bordados, mas começou a perder a vista, naquele tempo não era fácil arranjar logo uns óculos. Um dia, ela tinha um trabalho para fazer e fui eu que o acabei. Tinha 14 ou 15 anos. Mais tarde, para treinar a constância dos pontos na cirurgia, traçava uma linha com uma régua e depois marcava à mão os milímetros. E repetia. É preciso treinar os dedos, treinar as mãos. Treinar, treinar, treinar. Como fazem os jogadores de futebol com os penáltis. Não percebo como falhámos três na Taça das Confederações.

Manuel Antunes
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Esteve na África do Sul na altura do apartheid, como foram esses tempos?
O Soweto era a cidade negra de Joanesburgo. Quando entrei para cirurgia cardíaca, havia o hospital para negros e o hospital para brancos. Depois de assumir a chefia do serviço, propus que se juntassem os dois hospitais. Tive resistências, mas consegui: o director do hospital para brancos era da oposição que se dizia não racista. A integração foi mais difícil para os negros, que não estavam habituados a estar com os brancos, e não se sentiam confortáveis.

Em que circunstâncias veio para Portugal?
O professor [Norberto] Canha convidou-me na altura em que se estava a acabar de construir o novo hospital da Universidade de Coimbra, inaugurado a 30 Setembro de 1987. Tinha condições extraordinárias, davam-me um serviço novo, e eu sempre quis voltar – fui emigrante à força. Regressei em Março de 1988. A minha família já estava toda aqui.

Sentiu diferença na cirurgia cardiotorácica que aqui se fazia?
Na África do Sul estávamos mais avançados, mas eu trouxe os mesmos métodos, o que incluiu diferenças nos horários da equipa. Ainda hoje, aqui no serviço, se um médico está de urgência, por exemplo, na segunda-feira, entra às 8h e sai na terça às 16h [faz mais horas do que o suposto]. Lembro-me de que, no dia em que cheguei, o Diário de Coimbra veio entrevistar-me e pôs um título no artigo completamente exagerado: "Chegou o maior especialista em transplantação cardíaca." Eu nunca tinha feito mais do que transplantar cinco chimpanzés!

Está em Coimbra há 29 anos à frente de um serviço considerado de excepção em Portugal, sem listas de espera. Como foi possível?
Não é possível fazer isto com turnos máximos de 12 horas. Eu fui moldando as coisas e tentei não criar fricções. Houve pessoas que não gostaram e saíram. Se não gostam do chefe, porque ele ralha muito, levanta a voz, trabalha demasiado, paciência. Isto funciona à imagem de quem chefia e quem chefia está cá das 8h às 20h. Ainda hoje, embora sénior, passo 20 a 25 noites por ano aqui.

Neste novo edifício, do Centro de Cirurgia Cardiotorácica, interveio até na construção?
Quando se decidiu construir um novo serviço, eu pedi ao director do hospital que nomeasse um representante do dono da obra. Leio muito bem um plano de construção civil. Escolhi e decidi tudo, a forma como as portas abriam, o tamanho das divisões, as cores das portas e dos corredores – cada sector tem uma cor diferente.

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Como é enquanto director?
Mandão, gosto de controlar tudo. Todas as noites, às 23h, quem fica de serviço telefona-me a dar conta de como as coisas estão.

Há coisas com as quais implica?
A falta de pontualidade aqui é um crime. Já oferecemos um despertador a uma funcionária, quando fez anos, porque chegava sempre cinco minutos atrasada. Tenho a disciplina de limpeza, de apagar as luzes quando saio, ou fechar bem as torneiras, eu próprio monitorizo essas coisas antes de sair. Se conseguir apanhar quem nunca fecha a porta, entalo-lhe o pescoço! [ri-se]

Quantas pessoas são operadas por dia?
Oito ou nove, todos os dias da semana. Não temos lista de espera, portanto, não temos o benefício de operar aos fins-de-semana e ganhar mais dinheiro com isso. Se um doente que era para ser operado amanhã chega a fumar – não faz sentido fazer uma cirurgia muito cara e o doente continuar com os seus vícios –, chamamos outro, não fica um lugar vago.

É igual enquanto cirurgião e director?
Faço questão de acompanhar os doentes, o primeiro biberão que aquele bebé [quando a SÁBADO fez esta entrevista, estava uma menina com 10 dias nos cuidados intensivos] fizer depois da cirurgia, sou eu que lho vou dar. Tenho esse ritual que cumpro sempre. Quando estivemos na Jordânia, em Maio [numa missão humanitária a operar crianças refugiadas sírias], também o fiz. Operámos uma criança com menos de 3 kg e eu dei-lhe o biberão.

Tem mais rituais?
Quando estou a desinfectar-me, às vezes faço a minha oração interior, em situações em que sinto que preciso de outra ajuda. Se calhar devia fazer sempre, mas se andarmos constantemente a pedir, talvez quem nos deva ouvir não oiça sempre.

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Quantos corações já operou?
Eu diria 35 mil.

Qual foi o que mais o marcou?
Os bebés marcam-me muito, toda a gente sabe que quando perco um bebé fico neurótico. Por exemplo, este bebé tinha uma transposição das grandes artérias, uma das malformações mais complexas. A cirurgia exigiu muito ponto-de-cruz.

Como é que lida com a morte?
Ao longo do tempo vamo-nos habituando, mas não é fácil perder um doente. Nós temos uma mortalidade inferior a 1%, mas 1% em dois mil são 20 por ano, ao fim de 30 anos são 600 mortes. É quase como os militares, tenho de continuar a correr e a fugir dos tiros.

Manuel Antunes


O coração envelhece?
Envelhece. É como a nossa pele. As células do coração envelhecem e envelhecem sobretudo as válvulas cardíacas, que se tendem a tornar flácidas, rasgam, calcificam e deixam de funcionar.

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Hoje, os problemas de coração diferem dos de há 50 anos?
Iguaizinhos. Mas agora há uma epidemia que é o coração velho do doente muito idoso. Há muita gente no País com mais de 90 anos que tem os corações muito velhos. Nós operamos muito menos bebés e mais velhos.

O que era mais difícil antes?
A cirurgia cardíaca começou em 1954, a primeira máquina coração -pulmão foi utilizada numa cirurgia nesse ano. Fez agora 62 anos, eu estou há 41, portanto, participei em dois terços da história. As máquinas parecem mais sofisticadas, mas aquilo que se sofisticou foi a mente humana. O carro continua a ser o mesmo: quatro rodas e um tanque de gasolina.

O coração artificial pode substituir mesmo o nosso coração?
Pode, já há doentes com corações artificiais. Tira-se o coração velho e em vez de se pôr um outro, põe-se uma bomba. O coração é uma bomba, aliás, uma dupla bomba, a trabalhar em paralelo: uma que bomba para os pulmões e outra para o corpo. Ao contrário do coração humano, este é uma máquina que pode ser completamente controlada: pode regular-se o número de batimentos, por exemplo.

Lembra-se do seu primeiro transplante de coração?
Está vivo ainda, operei-o em 2002. Era um homem entre os 40 e os 50 anos. Reuni uma dezena de doentes para quando aparecesse um coração ter um o mais parecido possível. O motor tem de corresponder ao tamanho do carro. Falei com todos. Um deles disse-me: "Professor, eu sei que preciso de um transplante, mas não quero ser o primeiro." Passados 15 dias, mudou de ideias e disse-me: "Hoje já não me importo de ser o primeiro." Sentia que a vida lhe estava a escapar.

Qual foi a pessoa mais nova e a mais velha que transplantou?
O mais novo tinha 3 anos e o mais velho, 72. O mais novo era um menino que morreu ao fim de quatro anos, com uma leucemia. Gostava muito de esparguete e, quando vinha à consulta, a enfermeira trazia-lhe massa só para ele. Recordo-me de o ouvir dizer: "A massa está muito boa."

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Há alguma história que o tenha marcado particularmente?
A carta que a mãe de um dador, um jovem de 34 anos, me enviou. Dizia: "Diga à pessoa que tem o coração do meu filho, uma parte da minha vida, uma parte do meu coração, que eu exijo que o trate bem [emociona-se]." Imprimi-a e entreguei-a ao receptor do coração e também pus uma cópia no balcão da zona da transplantação, para fazer dela um exemplo para todos.

Os doentes podem sofrer alterações de personalidade depois de um transplante?
Aquilo que sabemos é que a paragem do coração, durante algum tempo, pode ter efeito no nosso cérebro. É possível que as pessoas sofram alterações cognitivas e afectivas, mas decorrentes das condições da cirurgia, do facto de estarem a morrer e sobreviverem, tudo isso pode transformar uma pessoa.

Porque é que o coração de uma mulher num receptor homem tem resultados inferiores?
As mulheres são mais pequenas do que os homens, têm menos massa corporal. Os resultados inferiores são em termos de sobrevida.

O contrário também é verdade?
Costumo dizer que não podemos meter o motor de um Fiat num camião, nem o de um camião num Fiat, porque faz abanar muito a carroçaria. Mas transplantar um coração um bocadinho mais volumoso é vantajoso, e procuramos isso.

O que mais de insólito já lhe aconteceu num transplante?
A recolha do órgão tem sempre peripécias. Já aconteceu deslocarmo -nos a uma cidade distante de carro, escoltados pela GNR, e perdermos os agentes que vão a 200 km/h. Uma vez, um avião da Lufthansa teve de dar mais uma volta sobre Lisboa para deixar o nosso helicóptero aterrar em Figo Maduro. Outra vez, o piloto do helicóptero pediu à torre de controlo do aeroporto de Lisboa para sobrevoar o espaço porque íamos colher um coração ao Hospital de Santa Maria. Quando regressámos, o piloto pediu novamente autorização, disse que já tínhamos colhido o órgão. Responde a pessoa da torre de controlo: "Qual órgão? Vocês não iam buscar um coração?"

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Em Maio foi a Amã, na Jordânia, operar 14 crianças sírias. Como foi?
Não foi uma experiência totalmente nova. Sou presidente de uma ONG que existe internacionalmente, chamada Cadeia da Esperança, e há 16 anos criámos um Instituto do Coração em Maputo, Moçambique, onde não existia cirurgia cardíaca. Vamos lá todos os anos. Também em São Tomé temos um posto avançado.

Aperceberam-se das histórias daquelas crianças?
Procurámos não nos meter muito, era gente muito sofrida. Houve um episódio que nos emocionou, de um miúdo de quatro anos que operámos. A mãe contou-nos a sua história: foram os únicos sobreviventes de uma família inteira, morreu o pai, mais dois irmãos e uns tios. Uma história difícil.

O que lhe trazem as experiências de voluntariado?
A sensação de que não podemos passar a vida a olhar para o nosso umbigo.

Como ocupa os tempos livres?
Tenho poucos. Além do tempo que passo no hospital, nos sábados e domingos que estou em Coimbra passo pelo serviço, tenho actividade científica internacional. Também gosto de fazer jardinagem, tenho as minhas roseiras e uma pequena horta que nunca dá nada. A minha mulher farta-se de ralhar. Às vezes vou ao cinema, mas mais por insistência dela. O trabalho é a minha grande paixão.

Onde conheceu a sua mulher?
Somos da mesma aldeia, lembro -me do dia em que ela nasceu, estava a brincar com o tal carrinho. É talvez a memória mais antiga que tenho, sem saber que iria casar com ela. Depois foi em Moçambique que nos encontrámos. Namorámos, casámos ao fim de quatro anos e temos três filhos. Ela foi a única namorada que tive.

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O que gosta de fazer em família?
Encontramo-nos com muita frequência, somos muito unidos. Trato os meus sogros por pais. Têm uma grande estima por mim, sabem que eu gosto muito de fruta e guardam sempre a melhor peça para mim. Continuam todos a viver na Memória, depois de voltarem de África.

É religioso?
Sou católico, vou à missa todos os domingos, mesmo se estou no estrangeiro ou em missão. Sou um bom praticante à vista desarmada, tenho os meus pecadinhos também. Mas acredito e às vezes peço ajuda.

Qual é o papel de Deus e o papel da ciência?
Sou muito pragmático e acho que temos de nos esforçar. Estaremos orientados, mas não vale a pena pensar que Deus vai fazer isto por mim, porque Ele tem mais em que pensar.

Quais são as suas principais inquietações?
A morte inquieta sempre, mas não vivo paralisado. Há um mês e meio, numa viagem de carro para o Porto, adormeci quando estava a chegar à praça das portagens. Consegui passar pela Via Verde e só depois embati violentamente no carro que estava à minha frente. No dia seguinte, houve um tipo em Santa Maria da Feira que se despistou entre as duas vias da portagem e morreu. Eu conduzi meio a dormir, meio acordado, a 120 km/h, por um canal estreito…

Acha que houve intervenção divina?
Eu disse: "Deus não quis que fosse o meu dia."

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Como médico que trabalha com o coração, como está o seu?
Sou boa boca e como tudo. Abuso da fruta principalmente. A fruta é boa, saudável, mas eu como 1,5 kg por dia. Tanto quanto sei o meu coração está bem, mas não sei exactamente. Podia fazer exames com mais frequência, mas tenho algum medo de vir a saber que não está tudo bem. 

Artigo originalmente publicado na edição n.º 694, de 17 de Agosto de 2017.


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