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Cancro do pulmão: as duas faces do cancro que mais mata em Portugal

Agosto é o mês em que se assinala o Dia Mundial do Cancro do Pulmão e como forma de sensibilizar para a doença está em curso a campanha "Não Deixes que o Pulmão te Rebente na Mão" promovida pela Johnson & Johnson Innovative Medicine Portugal em parceria com a Pulmonale, Associação Portuguesa de Luta contra o Cancro do Pulmão.

O cancro do pulmão resulta do crescimento descontrolado de células do pulmão

O cancro do pulmão não é uma doença única. Divide-se em dois grandes tipos: o cancro do pulmão de não pequenas células representa cerca de 80% dos casos; o de pequenas células, mais raro e mais agressivo, corresponde aos restantes 20%. Esta distinção tem um peso decisivo na forma como a doença é tratada. Agosto é o mês em que se assinala o Dia Mundial do Cancro do Pulmão e como forma de sensibilizar para a doença está em curso a campanha "Não Deixes que o Pulmão te Rebente na Mão", promovida pela Johnson & Johnson Innovative Medicine Portugal em parceria com a Pulmonale, Associação Portuguesa de Luta contra o Cancro do Pulmão.

"O cancro do pulmão resulta do crescimento descontrolado de células do pulmão, que acumulam alterações genéticas e deixam de responder aos mecanismos normais de controlo do organismo", explica David Araújo, pneumologista da ULS São João. Segundo o especialista, a doença continua a ser a principal causa de morte por cancro em Portugal e no mundo porque, na maioria dos casos, chega tarde ao diagnóstico. "Em Portugal são diagnosticados mais de 5000 novos casos por ano, e a doença provoca em média 12 mortes por dia, um número que está nos valores mais altos das últimas duas décadas", sublinha o pneumologista.

O tabaco continua a ser o principal fator de risco, e uma parte significativa dos doentes é ou foi fumadora. Mas David Araújo faz questão de desmistificar uma ideia comum. "Importa desmistificar a ideia de que esta é uma doença exclusiva dos fumadores, cerca de 15 a 20% dos doentes nunca fumaram", afirma. Muitos tumores não causam sintomas nas fases iniciais, e quando surgem sinais como tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão, cansaço prolongado ou perda de peso inexplicável, a doença encontra-se já frequentemente numa fase avançada.

Diagnóstico de casos 5000

Em Portugal são diagnosticados mais de 5000 novos casos por ano.

Tratar cada doente, não cada doença

O tratamento do cancro do pulmão passa hoje por várias frentes. A cirurgia e a radioterapia continuam a ser opções centrais nas fases iniciais da doença, com o objetivo de remover ou eliminar o tumor. Já o tratamento sistémico, que atua em todo o organismo, inclui três grandes classes. A quimioterapia elimina células de crescimento rápido; as terapêuticas dirigidas atacam especificamente as alterações moleculares do tumor; a imunoterapia estimula o próprio sistema imunitário do doente a combater a doença. A escolha entre estas opções depende cada vez mais das características específicas de cada tumor.

"A maior mudança é que hoje, em muitos casos, já não tratamos apenas um cancro do pulmão genérico", nota David Araújo. "Conseguimos identificar as alterações moleculares que caracterizam o tumor de cada doente e, quando estas alterações são acionáveis, selecionar terapêuticas dirigidas, muito mais eficazes nesses grupos específicos", acrescenta o pneumologista da ULS São João. O especialista ressalva que esta abordagem ainda não é possível em todos os doentes.

Doentes com mutações genéticas específicas que recebem terapias-alvo ou imunoterapias alcançam hoje uma sobrevida média de 3 a 5 anos. O impacto na vida das pessoas é claro. Muitas destas terapêuticas são administradas por via oral ou subcutânea, o que facilita a manutenção da vida profissional e familiar do doente. Há uma década, um doente com cancro do pulmão metastático tinha uma sobrevida média contada em meses. Hoje, com terapêuticas dirigidas, alguns doentes vivem cinco, sete ou mais de dez anos e mantêm qualidade de vida, um cenário que o pneumologista descreve como "verdadeiramente excecional há pouco mais de uma década".

Óbitos por dia 12

Em Portugal, o cancro do pulmão provoca em média 12 mortes por dia.

O rastreio como oportunidade decisiva

Há um ponto em que os especialistas são unânimes: o diagnóstico precoce muda tudo. Quando o cancro do pulmão é detetado numa fase inicial, a sobrevivência aos cinco anos pode atingir valores entre 70% e 90%. É uma diferença que não deixa margem para dúvidas sobre a importância de rastrear.

"O rastreio do cancro do pulmão afigura-se da maior relevância na alteração do panorama atual desta patologia oncológica, com a maior taxa de mortalidade associada", afirma Isabel Magalhães, presidente da Pulmonale. Segundo a responsável, o rastreio possibilita a deteção da doença em fases muito iniciais, "permitindo assim a redução da mortalidade em mais de 20%".

"O  cancro do pulmão resulta do crescimento descontrolado de células do pulmão, que acumulam alterações genéticas e deixam de responder aos mecanismos normais de controlo do organismo" David Araújo, PNEUMOLOGISTA da ULS São João

David Araújo acrescenta um detalhe técnico relevante: os programas de rastreio com TAC de baixa dose devem ser dirigidos a populações de risco, nomeadamente fumadores ou ex-fumadores entre os 50 e os 75 anos. "Têm o potencial de inverter a pirâmide do diagnóstico atual, passando a identificar a maioria dos casos em estadios precoces, com possibilidade de cura, em vez de em fase avançada como acontece hoje", refere o pneumologista.

Em Portugal, vários centros hospitalares têm avançado com projetos-piloto de rastreio, alinhados com as recomendações europeias, mas a implementação alargada de um programa nacional continua a ser um dos maiores desafios pendentes.

"O rastreio do cancro do pulmão afigura-se da maior relevância na alteração do panorama atual desta patologia oncológica, com a maior taxa de mortalidade associada". Isabel Magalhães, presidente da Pulmonale, Associação Portuguesa de Luta contra o Cancro do Pulmão

Para Isabel Magalhães, a mensagem a transmitir aos doentes e às suas famílias é, sobretudo, de esperança. "Seria necessariamente uma mensagem de esperança face à evolução ocorrida nos últimos anos na abordagem e tratamento desta patologia", afirma. A evolução a que se refere abrange desde a cirurgia e a radioterapia até ao tratamento sistémico. "Uma abordagem cada vez mais personalizada, numa patologia em que o tempo faz a diferença", remata a presidente da Pulmonale.

Também David Araújo deixa uma nota de confiança no futuro da especialidade. "O cancro do pulmão deixou de ser uma doença com um destino inevitavelmente fatal", garante o pneumologista. "Hoje, para um número crescente de pessoas, é possível transformá-lo numa doença controlável durante muitos anos e, em muitos casos, aumentar de forma muito significativa as probabilidades de cura quando é diagnosticado precocemente."

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