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A anemia é um problema de saúde pública em Portugal

Uma doença que em Portugal afeta um em cada cinco adultos não pode ser ignorada

António Robalo Nunes, presidente do Anemia Working Group Portugal (Crédito: Raio X)
28 Novembro 2019 08:11

No passado dia 26 celebrou-se o Dia da Anemia. A anemia é uma condição clínica invisível à maioria da população. Porquê? Os principais sintomas de alerta, como o cansaço, a falta de força, a irritabilidade, os problemas de concentração, a insónia ou a tensão arterial baixa, são associados a outras causas, passando de forma desapercebida à maioria das pessoas.

António Robalo Nunes, presidente do Anemia Working Group Portugal (AWGP), explica as causas desta doença e as repercussões que tem na qualidade de vida de muitos portugueses.

O que é a anemia?

A anemia é uma condição clínica que resulta da diminuição dos glóbulos vermelhos na circulação sanguínea (hemoglobina), comprometendo uma das ações mais vitais e nobres do organismo, o transporte de oxigénio a todas as células e tecidos do corpo.

Como se manifesta a anemia?

Na sequência dessa dificuldade de transportar oxigénio a todas as células e tecidos do organismo, as manifestações são muito abrangentes, podendo atingir todos os aparelhos e sistemas. Os sintomas são muito variáveis e talvez por isso inespecíficos.

Quais os sintomas?

O sintoma que é comum a todas as formas de anemia é o cansaço desproporcional. Uma pessoa que se sente muito cansada, muito fatigada, e incapaz de cumprir as atividades da vida diária. A pessoa terá também a sintomatologia de órgão, como dificuldades de concentração, dificuldades em dormir, alterações cutâneas da pele ou das mucosas. Pode atingir todos os sistemas e aparelhos do corpo. O que é importante é estar a atento a estes sintomas e valorizá-los.

Qual é a relação da anemia com a falta de ferro?

A falta de ferro é responsável, seguramente, por mais de metade dos casos de anemia. A principal causa é nutricional e dentro desta realidade é a anemia por deficiência de ferro. Um micronutriente essencial para a produção de glóbulos vermelhos. Cerca de 25% da população mundial tem alguma forma de anemia. Deste universo de pessoas, mais de metade é relativo à falta de ferro.

Esta percentagem de 50% também é válida para Portugal?

É semelhante. Quando realizámos um estudo epidemiológico em 2015 para tentar dimensionar o problema da anemia em Portugal, percebemos que na população adulta um em cada cinco portugueses tinha alguma forma de anemia. É um problema sério de saúde pública moderada ou grave. A principal causa da anemia também foi, como era previsível, a deficiência de ferro.

A perceção de portugueses com anemia mudou muito com este estudo?

Não conhecíamos o número exato. Existia a noção de muitos portugueses terem anemia, sobretudo pela prática diária. A Organização Mundial da Saúde calculava, com base no índice de desenvolvimento do país, que Portugal teria cerca de 15% de anemia na população. A realidade que o estudo EMPIRE, realizado pelo Anemia Working Group Portugal, mostrou é que esse valor é superior, cifrando-se nos 20%. Estes valores são diferentes da média existente na nossa situação geográfica. Estamos habituados a ver anemia em zonas fortemente carenciadas, nomeadamente África e América do Sul. Um em cada cinco portugueses adultos tem anemia. Este é um valor pouco europeu, mas a verdade é que foi a evidência do estudo de base epidemiológica referenciado aos Censos nacionais, com uma metodologia muito robusta, e que deu uma dimensão muito importante deste problema e que constitui um problema de saúde pública.

O número de pessoas diagnosticadas em Portugal com anemia corresponde a esta dimensão?

Não, por uma razão muito preocupante. Há um desconhecimento muito grande da doença. Neste mesmo estudo, conseguimos evidenciar a prevalência de anemia em um em cada cinco portugueses adultos. Nas pessoas em que efetivamente foi diagnosticada a anemia, mais de 80% das que tinham anemia não sabiam que a tinham. Ao não saber que a tinham, nunca tomaram nenhuma medida para a curar. Há uma amplificação do problema por falta de literacia e desconhecimento. Temos um problema entre mãos.

Um primeiro passo para minorar esta situação é contar com o apoio dos médicos de família?

Os médicos de família são parceiros importantíssimos na luta contra este problema. São a primeira linha de contacto com o doente e com a família e apanham todas as faixas etárias. A verdade é que isto é paralelo à própria anemia, que é uma condição que pode afetar desde o recém-nascido até ao idoso.

Para o AWGP, o que seriam as medidas adequadas para minimizar o desconhecimento desta condição clínica?

Por um lado, a informação. A sensibilização da população para valorizar os sintomas. Quando referi que o cansaço é um denominador comum a todos os quadros de anemia, as pessoas não o valorizam porque encontram explicações para o facto de estarem cansadas. Há outros sinais para estar atentos, como a perda de sangue, as alterações do sono, a falta de força.

Um segundo tema é a formação das várias especialidades médicas. Muitas vezes, as especialidades estão demasiado focadas naquilo que são os aspetos centrais da sua atuação e olham com menos atenção para as coisas menos específicas da sua área. A anemia é uma delas. É muito transversal, muito presente, e precisa de ser valorizada de uma forma mais ativa por algumas das especialidades. Há especialidades em que tem um peso muito grande, nas que abordam doenças crónicas como a cardiologia, a nefrologia ou a gastro, na oncologia. São especialidades nas quais a anemia é um fator de agravamento das doenças existentes. Nesse sentido, deve consistir num alvo a abater, na medida em que pode melhorar, e muito, a qualidade de vida do doente.

O estudo identificou, para já, a população adulta que tem anemia. E o resto da população?

Pela prática, acreditamos que existe também um problema com uma vasta dimensão junto da população que ainda não é adulta. Não sabemos os números. Queremos saber. Esse é o próximo passo. Está na nossa agenda de investigação tentar perceber qual é a dimensão do problema antes da fase adulta. Dos zero aos 18 anos. É necessário acautelar o crescimento e o desenvolvimento do jovem, o problema específico da adolescência e os problemas alimentares restritivos, os períodos menstruais das jovens adolescentes. Há todo um universo de situações que devem ser acauteladas. Queremos desenhar, em conjunto com as autoridades e com os decisores, políticas de educação para a saúde, educação nutricional e educação para o exercício, e medidas preventivas para que a pessoa chegue à fase adulta com uma carga menor de probabilidade de ter anemia do que aquela que tem hoje.

O que é o Anemia Working Group Portugal?

É uma associação científica. Nasceu em 2012 porque um grupo de profissionais de várias especialidades médicas chegou à conclusão que tinha uma inquietação comum: o peso e a importância que a anemia assumia nas suas especialidades. O grupo tem uma matriz multidisciplinar, onde cabem todas as especialidades médicas, atendendo a que a anemia afeta todo o ciclo de vida do homem. É uma associação aberta, com a lógica de formar e ajudar as diversas especialidades médicas a falarem umas com as outras sobre este assunto comum.


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Porque os sintomas se confundem, muitas vezes, com outros problemas de saúde, há uma nova aplicação, disponível em www.orostodaanemia.pt, que tem como principal objetivo sensibilizar a população para o que é considerado já um problema de saúde pública.