Nuno Melo
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Nuno Melo
O cabeça-de-lista do CDS/PP às eleições europeias vai a pé para o Parlamento, anda à boleia, tem surpresas guardadas no caso BPN e diz que se fez pelo trabalho e não pela proximidade de Portas. Leia como é um dia de Nuno Melo e ouça a entrevista. Texto de Maria Henrique Espada, fotografias de Ricardo Pereira e montagem de Bruno Vaz


A partir daqui, é todos os dias na rua”, avisa Nuno Melo às seis caras à sua volta, na mesa de reuniões na sede nacional do CDS/PP, no Largo do Caldas, em Lisboa. É a primeira reunião do núcleo de campanha para preparar as eleições europeias, na segunda-feira de manhã, depois de, quatro dias antes, o deputado ter sido anunciado como cabeça-de-lista. O “a partir daqui” é um jantar de campanha, que Nuno quer a marcar o arranque, “uma coisa grande, lá em cima, com sala cheia, como sinal de força”. Acertada a data, agarra no telefone: “Ricardo? Tenta já uma reserva para dia 30 à noite.” O deputado não disfarça o orgulho nem a satisfação que sente por ser o primeiro cabeça de lista a umas eleições europeias que não é presidente do partido.
Mas o jantar é o clássico e as campanhas já não são só isso. O candidato quer saber o que se pode fazer em termos de novas tecnologias. O YouTube? O assessor do partido, Diogo Belford Henriques, sugere um filme ou fotos, como diário de campanha, com Nuno Melo a fazer “um statement, que não demora mais que três minutos a fazer e marca”. Vai haver um “argumentário”, um resumo diário do que foi dito na véspera por toda a gente na campanha, enviado a todas as estruturas do partido; e um apelo a voluntários no blogue da campanha.
Melo quer “racionalidade na volta”, para não andar a fazer piscinas de Norte a Sul; quer “roubar” o assessor de imprensa ao Parlamento durante a campanha; uma agenda mais próxima de Lisboa nos dias em que houver comissão do BPN; e uma componente social nos contactos de rua. Dividem-se tarefas: quem trata dos cartazes, quem responde aos emails.
 Paulo Portas, que não participa, aparece mais tarde, espreita à porta bem-disposto: “Nuninho!” Nuno responde: “Grande líder!”
 
A escolha dos candidatos para as eleições europeias é mais uma prova de que o CDS precisa de renovação? Os três são “mobília” portista.
Eu cheguei ao Parlamento sem ser, na origem, do núcleo afectivo do dr. Paulo Portas.
Se não é portista de nascimento, é por afinidade.
Sou apoiante do Paulo desde a primeira hora. Mas tenho-me em melhor conta do que isso. Eu sou o que sou não pelo Paulo, mas por aquilo que o meu trabalho justificou. Nada me foi dado, nem na vida nem na política, tudo o que tenho foi à custa do meu trabalho. Eu era talvez o mais improvável dos dirigentes do partido ou dos deputados eleitos para chegar onde cheguei. Era o número dois de uma lista por Braga, aqui vim parar e comecei a exercer funções que quase ninguém queria. Nasci na freguesia de Joane, concelho de Famalicão, distrito de Braga, acabei por ser cabeça-de-lista, primeiro na história do partido sendo de lá, e consegui manter a ligação ao distrito e ao mesmo tempo ascender no plano nacional. Sou muito mais do que um produto do dr. Paulo Portas, passe a imodéstia. Haverá outros até que estão muito mais próximos do Paulo e há muito mais anos do que eu, mas não terão sido escolhidos para muita coisa que eu fui.
 
A seguir, nova reunião, agora, sim, no gabinete de Portas. “Está aqui um gelo”, queixa-se o líder, alguém regulou o ar condicionado para 18 ºC. “A data limite é 27” (para formalização das candidaturas), alerta Portas. “Nós fixámos para 24”, responde Nuno. Segue-se outra reunião, com o economista Manuel Castelo Branco. Nuno começou a estudar “europês” e quer ter afinado o discurso sobre a crise.
O dia começou como de costume, a pé, da Rua Sampaio Bruno, em Campo de Ourique, onde vive desde que é deputado em Lisboa, ao Parlamento, onde tomou o pequeno-almoço: chá e uma sanduíche de queijo. Apanhou depois boleia no Smart do assessor de imprensa, Pedro Salgueiro, para o Caldas.
A funcionária do bar de deputados diz-lhe à despedida: “Vai-se embora, vai ver que lá não o tratam tão bem!” Ele responde: “Se calhar depois volto, talvez daqui a quatro anos.” Subtraiu um aos cinco do mandato europeu.
Na Assembleia da República, é da casa, diz que “talvez custe” deixar o local onde foi politicamente feliz: “Não seria normal há oito anos pensar que iria ser líder do grupo parlamentar, depois vice-presidente da Assembleia da República, um dos mais novos, e fui. Vice-presidente do partido também já sou.” Mas acha que atingiu “o máximo que na perspectiva parlamentar” poderia atingir e há quem o defina como ambicioso.
 

O almoço é novamente perto do Parlamento, na Praça das Flores. Come uma sopa, bifes de peru, crumble de maçã, com razoável calma: “É o único momento de paragem ao longo do dia.” Nem tanto. A política intromete-se na refeição. A chefe de gabinete do líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, dá-lhe os parabéns, e acrescenta: “Vamos lá ver o que calha pelo meu lado.” Um SMS chega-lhe antes da comida, mostra-o a Pedro Salgueiro. A mensagem parece indicar que será Rangel o escolhido. Assim, Melo deixa de ser o único cabeça-de-lista sem ligação, actual ou passada, ao PCP. Na reunião da manhã gracejara: “Se pelo PSD fosse a Zita Seabra” ainda podia usar o argumento. Deixa escapar que Marques Mendes é bom em campanha, mas parece arrepender-se do comentário, recusa alinhar preferências, depois muda de assunto e deixa a política. Mas a fonte do SMS estava certa: no dia seguinte, o nome de Rangel seria confirmado como cabeça-de-lista social-democrata às eleições europeias.
Se durante a semana gravita à volta do Parlamento, ao fim-de-semana, sem falta, vai até ao Minho. Mantém o escritório de advogado, que ele próprio fundou, em Guimarães, e a mãe e muitos amigos continuam a Norte. Às vezes vai até ao Alentejo, na zona de Évora ou de Moura, para um dos hobbies preferidos: a caça. Tem várias armas, e fez lobbying político para que a proposta do Governo de limitar a posse por pessoa a duas ficasse pelo caminho. “Eu alguma vez vendia uma arma que tivesse sido do meu avô ou do meu pai?” Mas a ida para Bruxelas vai condicionar-lhe os hábitos. Diz que gosta mais da luz de Lisboa e o escritório vai ficar mais longe.
 
Até pode evitá-la, mas só vai depender dele. Os eurodeputados não estão obrigados a exclusividade. Depois do almoço, e antes da reunião, ainda tem tempo para uma incursão às Amoreiras, sempre no Smart. O senhor Paulo, motorista da Assembleia, a que tem direito como vice-presidente, passa dias sem o ver. Anda à procura de uma biografia de Bismarck, mas está esgotada na primeira livraria. Entusiasma-se com os Discursos que Mudaram o Mundo. Abre nas páginas com um discurso do general Patton e delicia-se com a ousadia do militar numa declaração à moda antiga: “Tenciono matar pessoalmente esse pintor de paredes desse filho da mãe do Hitler.” Ele próprio costuma ser menos directo, mas tem ensaiado um estilo razoavelmente contundente nas audições da comissão de inquérito ao BPN. Melo sabe que o destaque na comissão o faz ganhar créditos políticos, não a quer descurar mesmo em tempo de pré-campanha. De manhã, Portas ainda lhe alvitrara uma ida a Aveiro à tarde, a uma feira. Nuno trocou-a pela reunião de trabalho, na Assembleia, para preparação das próximas audições na comissão. A política também vive de protagonismo. Mas o PE não lho garante.



O futuro de Ribeiro e Castro
, o ex-presidente do partido de quem foi líder parlamentar, até ter saído depois de dizer que o partido tinha saudades de Paulo Portas – o que Castro não engoliu –, é abordado com pinças no partido. À chegada à Assembleia, ainda à porta, um jornalista confidencia a Nuno Melo: “Parece que o Ribeiro e Castro vai fazer qualquer coisa” às 5h da tarde. Melo regista, mas segue.
Tem a porta do gabinete de vice-presidente fechada. Tira a carteira do bolso, tem lá dentro guardada a chave da porta, de prevenção para estas emergências. Logo à entrada, à direita, está uma mala de viagem, comprada numa loja chinesa, por 25 euros, para conseguir alojar e transportar os inúmeros dossiês e documentos relativos ao caso BPN. A mala, entretanto, já se partiu com o peso, e também já não chega para todos os papéis. Nuno Melo sabe que no banco as audições parlamentares são seguidas como se fossem um reality show em directo. E em parte foi esse o segredo do sucesso da intervenção do CDS no caso: a cada nova inquirição, alguém ficava indignado com o que era dito e fornecia os documentos necessários para contrariar a versão apresentada. Com o tempo, o CDS criou uma rede de “fontes”. E agora Nuno Melo pode dar-se ao luxo de brincar e dizer que “muita gente pagava” para saber o que ele tem naquela mala. A reunião começa, com Diogo Belford Henriques e José Pedro Amaral, que também estão com ele na preparação das eleições europeias. Tem pouco mais de um mês para deixar o caso BPN arrumado e pelo meio entra em campanha.
 
 
 


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