Sábado – Pense por si

Uma série para ver esta semana: "The Hack", a nova ficção do criador de "Adolescência"

Baseada em acontecimentos reais, a série estreia na Filmin esta segunda-feira, dia 2, e revisita um dos mais perturbadores escândalos da imprensa britânica.

Capa da Sábado Edição 3 a 9 de março
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 3 a 9 de março
Uma série para ver esta semana: 'The Hack', a nova ficção do criador de 'Adolescência'
Tiago Neto 02 de março de 2026 às 17:00
A carregar o vídeo ...

Num tempo em que a verdade parece cada vez mais disputada, The Hack regressa ao início do século XXI para revisitar um caso que abalou o Reino Unido e redefiniu a relação entre imprensa, poder político e esfera privada. A série, escrita pelo argumentista multipremiado Jack Thorne, é o seu primeiro projeto pós-sucesso de Adolescência, fenómeno de audiências da Netflix, e realizada por Lewis Arnold, estrutura-se ao longo de sete episódios como um drama de investigação que cruza jornalismo, crime e responsabilidade institucional, inspirado em factos que continuam a ecoar no presente.

O ponto de partida é o escândalo das escutas telefónicas levadas a cabo pelo tabloide News of the World, prática ilegal que expôs a forma como jornalistas e investigadores privados acederam a mensagens de voz de figuras públicas, políticos e cidadãos comuns. No centro desta revelação está o repórter Nick Davies, cuja investigação no The Guardian acabaria por desmontar um sistema profundamente enraizado. A série acompanha esse trabalho paciente de verificação, resistência editorial e confronto com estruturas de poder que, durante anos, pareciam intocáveis.

Em paralelo, a narrativa acompanha outra linha temporal: a investigação conduzida pelo antigo detetive Daniel Morgan, cujo homicídio permaneceu por resolver durante décadas e se tornou símbolo de alegadas ligações impróprias entre polícia e imprensa sensacionalista. Ao entrelaçar estas duas histórias, The Hack procura não apenas reconstruir acontecimentos mas explorar as zonas cinzentas de um período recente que o próprio Thorne descreveu como “estranho e enganador”, sublinhando que compreender plenamente o que aconteceu exigiu revisitar camadas sucessivas de versões, silêncios e interesses.

O elenco reúne alguns dos nomes mais sólidos da representação britânica. David Tennant (Doctor Who; Broadchurch) interpreta Davies, num papel marcado pela obstinação moral de quem insiste em seguir a pista quando tudo parece desaconselhá-lo, enquanto que Robert Carlyle (Trainspotting) encarna o investigador policial envolvido no caso Morgan.

Ao duo, juntam-se Toby Jones (A Toupeira; The Hunger Games - Os Jogos da Fome) como o editor Alan Rusbridger e um vasto conjunto de intérpretes - entre eles Rose Leslie, Dougray Scott, Eve Myles, Adrian Lester ou Katherine Kelly - que dão espessura a uma história feita tanto de decisões individuais como de mecanismos sistémicos.

Mais do que um relato cronológico, a série assume-se como uma reflexão sobre a fragilidade das instituições e sobre o papel do jornalismo numa era de crescente desconfiança. Sem recorrer ao sensacionalismo que denuncia, The Hack constrói-se com o olhar tenso e meticuloso da luta pela verdade. E sobre o preço de a procurar.

Artigos Relacionados
A Newsletter Na Revista no seu e-mail
Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca. (Enviada semanalmente)