Crónica: O dia em que me fui abaixo
Foi quando tive a primeira sensação de derrota, quando me veio pela primeira vez à cabeça a possibilidade de não conseguir cumprir com o meu objectivo. E se isto me acontece no dia da prova?
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Crónica: O dia em que me fui abaixo
Não é fácil a vida de um amador que anda a preparar-se para correr uma maratona pela primeira vez. A dieta já vai longa (começou em Dezembro) e começa a faltar a força quando trocamos olhares com um pastel de Belém atrevido ou quando as batatas fritas nos começam a seduzir ao almoço. Mas tem de ser. As pernas também já tiveram dias melhores. O treino intensivo dá-nos confiança mas também pode ter um efeito contrário. Não estão a ver como? Eu explico.

A segunda semana é capaz de ser a melhor para quem começa a treinar mais a sério. É a semana em que o trabalho mais pesado, o retomar o treino, já passou, a ferrugem começa a sair e as pernas mostram-se fortes e confiantes, e conseguem cumprir com o que exigimos delas (normalmente, nesta fase, é pouco, apesar de nos parecer imenso).
Na minha segunda semana de treinos (que foi em Dezembro/Janeiro) comecei a fazer as primeiras incursões às corridas com mais de 10 km. Num dia corri oito, noutro seis e depois atirei-me para os 12. E aguentei-me, sem grande esforço, até. Nestes dias, terminava os treinos e sentia-me um campeão. “Fogo, como é que eu estive parado tanto tempo e uma semana depois de ter recomeçado já consigo correr isto tudo?”. Quem faz exercício regularmente sabe do que estou a falar – aquela sensação de bem-estar que o desporto nos proporciona, uma coisa com explicação química (após um exercício exigente o corpo liberta endorfinas, que são uma espécie de droga natural que serve para combater a dor, mas acaba por proporcionar a tal sensação de bem-estar – é um efeito colateral porreiro).

Só que é quando nos achamos uns campeões que as coisas começam a descambar. As pessoas mais competitivas, como eu, gostam de se superar a cada treino, de bater recordes, de esticar a corda, de perceber os limites, e então atiram-se de cabeça para os treinos, muitas vezes sem medir bem os contras. E foi o que me aconteceu a partir da quarta semana, na altura em que só queria fazer treinos com um mínimo de 10 km e um máximo de 20, de preferência, seis treinos por semana. Consegui, efectivamente, mas sempre com registos de tempo fracos, e com níveis de cansaço anormais.

O resultado foi que na quinta semana tentei começar mais um treino, com o objectivo de completar uma meia-maratona, e fui-me abaixo aos 6 km. Não deu mais. O corpo não deixou. As pernas não tinham força, o coração parecia-me estar a bater de forma pouco controlada, a respiração era ofegante, e então parei. Fiz 25 minutos de treino e não deu para mais. Foi quando tive a primeira sensação de derrota, quando me veio pela primeira vez à cabeça a possibilidade de não conseguir cumprir com o meu objectivo. E se isto me acontece no dia da prova? Como sou um leitor compulsivo de tudo o que são revistas técnicas de corrida e de exercício em geral, sabia perfeitamente o que me tinha acontecido: excesso de treino, pouco repouso e uma alimentação demasiado pobre em hidratos de carbono (para desinchar mais depressa, cortei nas massas, no arroz, no pão e nas batatas a partir das 17h, o que ajudou a emagrecer, mas teve como consequência uma quebra na rentabilidade do treino).

Uma maratona é isso mesmo, uma maratona, uma prova longa, em que se vão experimentando diversas sensações, diferentes estados de espírito, superando pequenas metas, vencendo obstáculos. Um treino para uma maratona é a mesma coisa: um processo longo, que exige treino, capacidade física, mas também muita cabecinha. Foi aí que errei. E tive de mudar de estratégia. Para a semana falarei disso.
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