20 FEVEREIRO 2012 - 19.41h
Lobos Neves
Categoria: Política   Autor: Carlos do Carmo Carapinha

Brás Cubas – herói defunto de Machado de Assis - tinha encontrado uma lei sublime, após ter valsado uma noite com Virgília: a lei da equivalência das janelas. O modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência. Brás Cubas (ainda) amava Virgília, com quem tinha estado, em tempos, para casar. Mas não casou. Virgília casou com Lobo Neves. Lobo Neves venerava Virgília. Para ele, Virgília era a perfeição: amorável, austera, um modelo. Confessava-o, à boca cheia, a Brás Cubas.

Mas Brás Cubas cedo percebeu que Lobo Neves não era um homem feliz. E este acabou por lhe confessar o mal de que padecia: faltava-lhe a glória pública. Curiosa confissão esta, porque Brás Cubas tinha um tio, cónego de prebenda inteira, que lhe costumava dizer que o amor da glória era a perdição das almas. Um outro tio, oficial de infantaria, tinha opinião diversa: o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que havia no homem e, por conseguinte, a sua mais genuína vocação. Seja como for, Lobo Neves sofria, em silêncio, de tédios impossíveis, amarguras engolidas e raivas recalcadas.

Confessou, a Brás Cubas, que o mundo da política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses e vaidades. Mas então porquê a política? Por equívoco: Lobo Neves vira o teatro pelo lado da plateia - um soberbo cenário, com vida, movimento e graça na representação – e tinha-se inscrito às cegas. Uma vez em palco, a graça deu lugar à ingratidão, o movimento revelou uma inconstância de sentimentos e a vida era tudo menos gloriosa. Lobo Neves vivia, por isso, uma existência infeliz. E Brás Cubas, supõe-se, soluçava com o divertimento.

A política é um assunto demasiado sério para ser entregue a amadores. E, acrescento eu, a senadores estacionados no burguês sofá do «estatuto». Entregue a amadores (ou, como diria o senhor bastonário dos advogados, a «betinhos») ou a eminências pardas, a política tende a resvalar para a «política baixa»: o terreno das escorregadelas para o enfático, dos inenarráveis autos narcísicos quase sempre hilariantes (“eu sou tão boa pessoa que me parece impossível ninguém o perceber”), do insulto gratuito e verboso e, claro está, da clássica liturgia da vitimização.

Como diria o outro, é preciso ter estofo. Ter estofo, em política, é conceder zero graus de latitude à postura tanto do desgraçadinho, como do vaidoso enfastiado (eternamente iluminado mas incompreendido). Para abraçar a causa pública é preciso ser-se suficientemente desassombrado para perceber que não há um inimigo a cada esquina ou em cada palavra escrita ou lançada ao vento. É ter o paciente poder de encaixe para lidar com a crítica mais austera, a farpa mais mordaz ou o reparo mais ou menos eloquente, por mais injustos, imprecisos ou errados que estes possam parecer. É perceber que «dizer mal» é, ainda e sempre, um dos vários exercícios que concorrem para o escrutínio público a que as figuras públicas estão sujeitas (com particular destaque para os políticos ou para quem exerce funções de poder). De «Lobos Neves» estamos todos mais ou menos fartos.


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