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Judite Sousa: “Ainda não desisti de viver”

28-09-2014

O médico avisou-a: parar seria entregar-se à depressão. Dois meses depois de perder o seu único filho, a jornalista mais poderosa da televisão fala da dor, da fragilidade e do que vai fazer agora à sua vida

Por Dulce Garcia

Perdeu o seu filho, André Bessa, de 29 anos, há dois meses. Voltou ao ecrã há meia dúzia de dias com uma entrevista onde revelou a sua fragilidade. É uma das mais conceituadas jornalistas televisivas das últimas décadas. Cobriu guerras, cimeiras e casamentos reais. E entrevistou toda a gente que conta neste país. Aos 53 anos, e na única entrevista que concedeu após o acidente, diz que precisa de trabalhar para sobreviver. Era isso ou entregar-se a uma depressão profunda. Judite Sousa reagiu. Vai lançar um livro com fotografias de André e uma selecção das centenas de cartas que recebeu de pais que também perderam filhos. As receitas irão para associações de apoio ao luto. Em três horas de conversa, chorou (muito), sorriu (pouco) e não se esquivou a uma só pergunta. Diz que mudou. Que tudo mudou. E admite viver o resto da vida sozinha.

Na entrevista a Cristiano Ronaldo disse: “É o trabalho que nos salva”. É isso que sente?

Neste momento, em que estou a passar pela maior das tragédias, essa frase foi dita intencionalmente. Quis explicar, perante os telespectadores, porque é que estava de volta. Eu fiquei reduzida a mim própria. Não tenho mais filhos, não tenho marido, não tenho nenhum companheiro. Era eu e o meu filho. E tendo desaparecido o meu filho, o que é que me resta? O trabalho. Não trabalhar significaria desistir da vida. Quando se instala o vazio e não temos âncoras, podemos ter 20, 30 ou 40 amigos que não há consolo – perante a morte de um filho a palavra consolo perde todo o sentido. Quando eu disse: “só o trabalho nos salva” quis dizer: a mim só o trabalho me pode salvar. Se não voltasse, significaria que tinha desistido de viver. Obviamente, bati no fundo [emociona-se] mas ainda não desisti de viver. Também quis transmitir uma mensagem a outros pais e mães que perderam os filhos, quis dizer-lhes que as pessoas têm de ter força para seguir com a vida. Quais são as alternativas? O suicídio? Depressões profundas que nos põem numa cama? Temos de nos agarrar àquilo que temos e aquilo que justifica a minha existência, neste momento, é o meu trabalho.

Ronaldo personifica algo que valoriza muito: a força do trabalho. Veio de um meio pobre e transformou-se no melhor do mundo. Acha que ele também reconhece em si esse valor?

Não identifico as pessoas pelas suas origens sociais. Desse ponto de vista, sou muito marxista, acho que o valor das pessoas está no trabalho e admiro particularmente quem, não tendo enquadramento social e ajudas externas, é capaz de se afirmar num mundo tão competitivo – e isto tanto é válido para o futebol como para o jornalismo. De certa forma, revejo-me no trajecto do Ronaldo. Fiz a minha carreira a pulso e estou onde estou em virtude dos degraus que fui subindo.

Isso até os seus críticos reconhecem. Acusam-na de ser dura, não questionam o seu trabalho.
É verdade. Penso que, de certa forma, a morte do meu filho e o estado de espírito em que me encontro é a ex pressão de que sou uma pessoa tão humana como as outras. E não sou distante. Gosto de ser gostada e de gostar, sou generosa, tenho uma atitude desprendida em relação a valores materiais, mas quando tenho de tomar decisões que não podem agradar a todos, e que são importantes para as empresas onde trabalho, tomo-as sem hesitação. Esse também é o nosso trabalho. Sobretudo num meio tão competitivo como o da televisão.
As pessoas que me conhecem bem sabem que a minha imagem não corresponde em nada ao que está no meu íntimo mas, mesmo que isso acontecesse, há uma coisa que é importante compreender: os nossos comportamentos, as nossas formas de estar, as palavras que dizemos e a forma como as dizemos reflectem muitas vezes a vida que tivemos e acho que só quem tenha histórias de felicidade para contar é que eventualmente gerará consenso numa redacção. Às pessoas que tenham vivido momentos de profunda tristeza, não se lhes pode pedir mais do que aquilo que são no seu interior.

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