Rui Castro
Rui Castro: 1º de Dezembro (áudio)
Não fora o 1º de Dezembro de 1640 e este seria o “nosso” hino, o hino do Reino de Espanha. A Restauração da Independência, celebrada no dia 1 de Dezembro é a designação dada à revolta dos portugueses, dos Quarenta Conjurados, contra a tentativa de anulação da independência do Reino de Portugal pela governação da Dinastia filipina.
É este um dos feriados que o Governo pretende extinguir na sangria economicista que se apoderou de um País falido e sem rumo, como é o nosso. Generalizou-se a ideia de que os portugueses produzem pouco, o que se calhar nem anda longe da verdade. Já a conclusão de que os portugueses trabalham de menos é que me parece um pouco precipitada. Mas como cada vez mais vivemos da imagem, entenderam importante passar uma de mais trabalho. Passamos a trabalhar mais e até a produzir mais, ainda que isso não signifique fazer melhor. Significa apenas fazer mais. Ainda que admitamos que o curto prazo não se mostra compatível com o desafio da qualidade, maisimportante e muito mais exigente, não se percebe bem por que carga de água a ditadura da urgência nos leva a abdicar de uma certa cultura do simbólico. Os feriados representam e simbolizam alguma coisa. E nem todos me parecem igualmente descartáveis.
Procurando agradar a gregos e a troianos, eliminado feriados religiosos e civis, em igual número, abdicando do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro, o Governo arrisca-se a desagradar a todos.
A maçonaria que se reclama herdeira de um jacobinismo mais do que datado, antiquado; a mesma maçonaria que agora se diz tão inofensivaquanto transparente, não prescinde do seu cinco do dez, mas parece não fazer questão em manter o dia da Restauração da Independência, talvez por se mostrar mais propensa a uma lógica revolucionáriade pendor internacionalista. Enquanto a implantação da república evoca um golpe militar que dividePortugueses, a Restauração da Independência, pelo contrário, recorda o dia em que os Portugueses se libertaram do jugo estrangeiro. É, nessa medida, uma data verdadeiramente nacional.
Embora duvide do sucesso da iniciativa, registo o esforço de quem persiste em manter acesa a luz da memória de um dia, de uma data, que simboliza a força aglutinadora de um País. Um País que descobriu novos mundos, que dobrou cabos e tormentas, que ajudou a delinear o mapa do Mundo tal como o conhecemos, que traçou rotas de comércio, que aproximou culturas, que encurtou distâncias e que antecipou importantes avanços da tecnologia e da ciência em disciplinas como a ciência náutica, a cartografia e a astronomia.
Tudo isto, que já foi ensinado nas escolas, na História de Portugal, como representativo da grandeza de um País e da nobreza de um povo valoroso e destemido, constitui para muitos um passado que convém esquecer.
Por tudo isto, e para que não se perca a memória do que já fomos, do que já quisemos ser, assinei esta petição para a manutenção do feriado do 1.º de Dezembro, evocativo da Restauração da Independência de Portugal.
Um País vive também da ressonância das suas glórias e da sua memória. Portugal tem-nas em abundância, mas há quem as queira riscar da nossa História e seguramente que não é por modéstia nacional. Cabe-nos a nós, todos os que não nos envergonhamos de ter um Portugal Livre e independente, impedir que isso aconteça. Para já, podemos começar por defender a manutenção do feriado que celebra a nossa independência, a nossa capacidade de querer tomar nas nossas mãos o nosso próprio destino. É um princípio.