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Opinião

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José Pacheco Pereira

Verdade e mentira no mundo digital

As fotos que reproduzo em baixo são falsas mas circularam na Internet como sendo do recente acidente de aviação da Air France no meio do Atlântico. Teriam sido tiradas por um passageiro antes da queda e recuperadas num cartão de memória da máquina fotográfica no mar. Como se vê, não se trata apenas de fazer circular as fotos, inclui-se uma história, uma “lenda” para a tornar ainda mais plausível. As fotos são apenas um entre muitos exemplos de falsificações, com mais ou menos verosimilhança, que circulam na rede e que enganam muito mais gente do que se poderia esperar.
Este tipo de falsificações encontram-se associadas a sítios conspirativos na rede em que se utilizam este tipo de imagens de choque para transmitir uma mensagem que é igualmente popular: estão a ver o que vos querem esconder, estas são as imagens que a imprensa, a polícia, as autoridades, os militares, a CIA ocultam para fugir das suas responsabilidades ou para esconderem um OVNI ou um extraterrestre qualquer. Quando da destruição das Torres Gémeas em Nova Iorque estas histórias fervilharam e, mais ou menos cuidadas, deram origem a filmes assentes em teorias de conspiração. A RTP passou um desses filmes duas vezes como se fosse sequer um trabalho plausível, uma resenha de factos “inexplicados” nos quais assentava uma teoria conspirativa , que, no clima de antiamericanismo reinante, servia para a propaganda política.



Mas o problema é hoje mais complexo porque não existe validação do mundo digital como mundo “real”. É que no mundo dos bits toda a manipulação é possível, sem ser dotada de qualquer critério de verificação da sua realidade e, por isso, uma fotografia digital não pode servir de prova em tribunal mesmo que tenha a arma fumegante do assassino. Em particular se tiver mesmo a arma fumegante e uma excelente foto do assassino.
O Photoshop explica muitas coisas e deixa de longe as falsificações fotográficas tradicionais, que essas sim, podem ser detectadas com facilidade . No século XIX  alguns amadores de fotografias fizerm umas “fadas”,  rudimentares aos olhos de hoje, mas que enganaram muita gente incluindo Conan Doyle, que não era propriamente desprovido de capacidade de perceber fraudes. O que não muda é a nossa capacidade de sermos enganados pelo sentido mais poderoso, a visão. O mundo digital está aí, diante de nós, com uma infinita capacidade de nos enganar. As “fadas” são mais sofisticadas, mas os nossos olhos e a sua infinita capacidade de logro, é que são os mesmos.


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