
Primeiro tive dificuldade em imaginar de quem eram uns cartazes mais ou menos jocosos que me pareciam de uma cadeia de supermercados. Depois nem queria acreditar que os cartazes não eram para nos fazer comprar shampô ou ir ao Rosa e Teixeira em vez da feira do Relógio, mas sim da institucionalíssima Comissão Nacional de Eleições. Nem queria acreditar que a CNE nos estava a dizer que votar é a mesma coisa do que escolher um corte de cabelo ou um casaquinho e gravata, a mesma coisa sem tirar nem por.

Percebe-se muito bem a que ares da moda a CNE se submete: ao domínio do engraçadismo nacional, a ideia que ninguém presta atenção a nada se não vier numa anedota ou numa caricatura apensa. A ideia é que agora tudo o que não é envolvido numa capa de engraçadismo não existe. Um digno jornal económico tem duas páginas de “humor” metidas na paginação normal,- ílegivel, mas isso pouco importa - , as televisões vão pouco a pouco substituindo o comentário pela brincadeira e o sinal é sempre o mesmo: aquilo da política é tudo uma chateadeira pegada por isso ou se lá chega pelo humor ou mais vale desligar a televisão. Claro que para se chegar a Jon Stewart é preciso muita leitura, muita equipa e muito saber, e o que está a dar esta proliferação é que para cada coisa de qualidade no humor há dez miseráveis “engraçados” a dizer graçolas. Como na política.
A CNE acha que é com o engraçadismo que se pode cativar essa fera escondida na inércia, no barulho ou nos copos, a “juventude”, que entra com 800.000 novos corpos no voto ou na abstenção. E ei-la representada por um bronco qualquer que se presume que fala em SMS (ou fez a promoção para os 140 caracteres do Twitter), vestido de bloquista dos subúrbios, olhando para um gravata como se fosse um peixe viscoso. A dama aos gritos é também dominada por um estereotipo feminino típico, o da histérica no salão de cabeleireiro, com um espelho modernaço e um cabelo explosivo.
Nesta representação da “juventude”, as personagens revelam tudo, menos ter cabeça. Vinde cá, “escolheide” a cor do cabelo e as madeixas e tu, “ó jovem”, deixa a cerveja e a “passa” e vai votar. Porquê? Onde? No PS, no PSD, no PCP? Duvido. Talvez a menina do cabeleireiro, tal Vanessa, vote no Dr. Portas, e o atordoado da gravata-em-devir no Dr. Louçã, porque este tipo de imagens é para aí que dá. É que os outros partidos são pouco “engraçados”, não merecem o voto da “juventude”.
É verdade que “aquilo”, a política em democracia, é muitas vezes uma chateadeira pegada, mas, às vezes, as coisas são sérias e pouco engraçadas e só o grande humor é que as melhora, o engraçadismo, nunca. E não é a melhor maneira de se lá chegar numa democracia, acrescentando ao discurso cínico dos jornalistas, um discurso de depreciação dos partidos e da democracia. É bom para o populismo, não para a qualidade. Não é que o Estado deva estar cheio de gravitas, que é em Portugal quase sempre empáfia e pompa, mas é verificar que tal linguagem tem efeitos políticos, não é neutra, comporta uma mensagem e a CNE aceitou-a de forma acrítica.