José Pacheco Pereira
Sócrates entre os bloggers...
Ou o menino entre os doutores.

Sócrates teve um encontro com autores de blogues e saiu-se bem. Não há uma linha de notícia com interesse que tenha aparecido sobre esse encontro e o relato mostra que o que aconteceu foi abaixo de morno. Tendo em conta a “fama” dos blogues e a fanfarronice que muitos deles têm quando é a solo e sem ser cara à cara, podia pensar-se que iria ser difícil para Sócrates, porque teria que responder a questões “que ninguém tinha coragem para colocar”, etc. , etc. Mas o Menino chegou lá e meteu os doutores no bolso e saiu feliz e santificado.
Claro que houve um falhanço “técnico” e o “directo” ficou com o ecrã a preto, mas isso vem de quem se mete com amadores que fazem uns biscatos e depois não há volta a dar em tempo útil. Isso foi um completo falhanço, para quem tem os deslumbramentos tecnológicos do Primeiro-ministro, mas não foi o mais importante no sucesso do exercício eleitoral de José Sócrates.
Em primeiro lugar, a iniciativa de José Sócrates tem todo o sentido para ele próprio. Não sei se Manuela Ferreira Leite vai fazer a mesma coisa, mas nela é contra natura e deveriam poupa-la às imitações caseiras de Obama. Sócrates está sempre melhor nesse papel “obamês”, até porque se Sócrates não fosse o que é e estivesse na oposição, muito provavelmente teria um blogue ou participaria num blogue colectivo e o seu tom não seria muito diferente do blogue dos assessores do governo e da autarquia, o Camara Corporativa. (Foi interessante ver que blogues escritos com nomes falsos por assessores do governo, das autarquias PS e do Grupo Parlamentar, ou escritos com pseudónimo por conta de agências de comunicação, não apareceram no debate com o seu ídolo e patrão, para não revelar a identidade dos seus autores).
Em segundo lugar, Sócrates sabe quais são as vantagens de ir a um encontro que, em condições normais, seria um desperdício de tempo. Ele sabe que aquelas pessoas têm uma influência escassa e circular, apenas entre eles e que directamente não atingem quase ninguém fora de um pequeno círculo cada vez mais homogéneo. Ele não vai lá pelas “audiências” dos blogues nem pela sua influência directa, mas sim porque hoje ir a um encontro de blogues deste tipo é quase a mesma coisa que ter um almoço com jornalistas numa base muito mais empática. Nesse especial almoço, os jornalistas acham que não são jornalistas, não se comportam como jornalistas e confraternizam com o poder sem estarem de pé trás. É o efeito de audiência indirecta que lhe interessa e que obteve, assim como poder dizer que foi comer com as feras e saiu mais forte.
A situação actual da blogosfera política, em particular da colectiva, é a de um contínuo com os jornais, que não vem apenas da cada vez maior participação de jornalistas em blogues, mas de uma linguagem e agenda comuns, de uma partilha de objectivos igualmente comuns. A sua autonomia em relação á vida partidária é cada vez mais escassa, e nela proliferam candidatos a jornalistas, candidatos a deputados, candidatos a comentadores, uns que já fizeram o salto, outros que desejam ardentemente fazê-lo. Houve tempos em que não era assim e a voz crítica da blogosfera preferia relatar alguma coisa de interessante que não vinha nos jornais nem na televisão. Hoje a blogosfera está rendida ao mainstream, com os mesmos defeitos do mainstream. Tem o mesmo tom, a mesma agenda, os mesmos temas, que a imprensa, e mesma preocupação de carreira e ascensão que tem um jovem de uma jota. Claro que há excepções, mas esta é a regra.
É por isso que Sócrates vai lá e saiu de lá mais forte do que entrou. É o mundo dele.