Do ministro Manuel Pinho que mandou dar Papa Maizena a Paulo Rangel, para ele se desenvolver robusto e sábio, só sei uma coisa: alguém o obrigou a comer muita dessa papa em pequenino e ele não gostava. Ou alguém manteve tal dieta alimentar mais tarde do que a idade aconselhava e o ministro Manuel Pinho tem essa má recordação da infância e adolescência. Nada de mais natural. “Come que é para teu bem”, estou a imaginar o eco, o mesmo eco que vinha com o óleo de fígado de bacalhau, algo de infinitamente mais tenebroso do que a Maizena, o Bovril e outros fortificantes. Era uma vez o tempo, em que as mães tinham medo do raquitismo, da tuberculose, da “fraqueza” em geral, e essas comidas “para teu bem” eram a boa regra para um infância como devia ser. O ministro ficou um pouco traumatizado com a papa, mas daí não vem nenhum mal ao mundo. É natural que, de vez em quando, recebesse o Boca Doce como recompensa.

Se não fosse estar na campanha Vital Moreira, que é a sisudez em acto e que espalha aborrecimento à sua volta com muita eficácia, Paulo Rangel podia ter dito isto mesmo, ele que não é da geração do óleo de fígado de bacalhau nem da Maizena, mas das vitaminas e do pediatra. Disse que não ia dizer nada, porque tinha “ideias” e por isso não precisava de epítetos. Não está mal, mas para a comunicação social não chega.
De há pelo menos três campanhas para o Parlamento Europeu que para a comunicação social, sejam quais forem os candidatos, seja qual for a situação nacional, o tema é sempre “o degradante espectáculo dos candidatos que se insultam e que não discutem os problemas nacionais”. O pior da papa do ministro Manuel Pinho foi dar-lhe um pretexto para ir buscar o habitual cliché das campanhas, a troca de insultos, e repetir pela enésima vez a mesma melodia de nojo.
Os problemas desta realidade (já escrevi sobre ela em 1999, e em 2004) são dois: um, é que para haver troca de insultos e permitir aqueles editoriais de distanciação e repulsa moral, são precisos dois. Não havendo, inventa-se. Como Rangel não respondeu a Pinho, encontrou-se o equivalente num “pândego” parlamentar, dito por um deputado do PSD, a Manuel Pinho. Mas a verdade é que não houve ping-pong só houve ping, o pong é forçado, procurado à lupa, para abastecer mais um cliché da comunicação social. Bem pouco inocente aliás, visto que se destina a manter sempre o mesmo discurso anti-políticos, enquanto que são os jornais e a televisão que se deliciam sempre que há troca de mimos. Vejam-se os quinze minutos de glória de José Eduardo Martins, que teve mais imprensa com um insulto, do que com uma vida inteira de “bom ambiente”.
O segundo problema, é que com esta coreografia espectacular, “papa Maizena” versus “pândego”, a comunicação social exime-se como de costume, ao tratamento de coisas mais sérias, que, ou os jornalistas em funções não percebem ou dão muito trabalho a relatar, e, acima de tudo, não dão audiências. Em 1999, ano em que eu fui candidato, fiz, como aliás Mário Soares, meu adversário, e outros, mil e um esforços para dizer coisas sobre a Europa, e Portugal na Europa, mas ninguém queria saber de nada. Em 2004 e hoje, há muitas questões que, justiça seja feita, quase todos os candidatos levantam, para serem sistematicamente ignorados quando falam a sério e, mais ainda, acusados de nada dizerem por gente com sobranceria e ignorância que nem sequer se dá ao cuidado de os lerem – Rangel, Portas e Vital escreveram sobre a Europa – muito menos de os ouvirem. A Maizena ajuda a isto e por isso tenho pena que o ministro não tenha tido uma infância com menos papa e mais Boca Doce. Pelo menos não facilitava a vida ao cliché habitual para as campanhas europeias.