O gesto de Obama a matar a mosca é autêntico e, no mais absoluto sentido, normal. Milhões de homens o fariam, dos açougues de Bagdad aos cafés de Buenos Aires. Talvez nem tantos o fizessem no Tour d’ Argent ou num clube de gentlemen de Londres, como os que o nosso bom João Carlos Espada frequenta, mas atravesse-se o bairro e entre-se num pub e lá vai mosca para o seu destino Obama. Não se pode por isso criticar Obama por se mostrar mais genuinamente um homem comum do que quando vai comer hamburgers em campanha eleitoral e não leva dinheiro, o que é apanágio dos presidentes.
Uma coisa é igualmente certa, e essa também seria normal cá mais para o nosso lado do mundo, o homem não teve nojo. Lá dirão os racistas, “vê-se logo que é preto”. Mas não teve, a mosca levou com a mais primordial irritação e caiu-lhe a morte em cima. Ninguém a vai chorar, a não ser outras moscas, mas as lágrimas não comovem ninguém. Obama é o príncipe do mundo, o “senhor das moscas” e os insectos como a mosca tem a pior das imagens do mundo e a pior imprensa. São o anti-Obama. Não há agência de comunicação capaz de salvar as moscas da sua péssima imagem, ou haverá? Sei lá, já vi tantos porcos a voar que não é impossível.
Mas permaneçamos colados aos factos e ao gesto presidencial. Em matéria de moscas, há três escolas de pensamento, ou, noutra forma, três maneiras de ver, uma espécie de maneira portuguesa de raciocinar muito comum entre os juristas e de que Freitas do Amaral e Marques Mendes tinham muito o hábito. Numa, Obama trata a mosca como trata os republicanos; noutra, ele trata a mosca como não trata os norte-coreanos. E a terceira, fica sempre esquecida, pelo que não conta para o caso vertente.
Ora, é isto que a história da mosca esconde ou distrai. O que é que Obama está a fazer para travar a escalada nuclear norte-coerana? Nada ou quase nada. O que é que Obama está a fazer para travar a escalada nuclear iraniana? Nada ou quase nada. E isso é que me preocupa, porque nestas matérias quem faz o papel de mosca somos todos nós.