José Pacheco Pereira
O esquecimento do se bem me lembro

Na Rede há milhares de vídeos muitos dos quais no YouTube, mas experimentem procurar um do célebre programa de televisão de Vitorino Nemésio, “Se bem me lembro”, passado na RTP entre 1969 e 1975. O mais provável é que vos aconteça o que me aconteceu: até agora, uma hora depois, não encontrei nada. Nem no YouTube, nem na RTP que é suposto ser a guardião destas preciosidades. Pode ser que haja algum algures, não o posso afirmar ou negar, mas está bem escondido das buscas mais imediatas e eu até sou capaz de fazer algumas bem pouco imediatas. Nada. Nada.
Não é preciso sequer lembrar que a mesma Rede está cheia de programas muito anteriores das televisões inglesas, americanas e francesas, pelo que não é a data que conta. O que conta é este miserável desprezo que temos pelo melhor que somos capazes de fazer, mesmo quando é raro que o consigamos fazer. A verdade é que existe uma televisão do estado, com arquivos do estado pouco acessíveis e caros, e nenhuma política de divulgação séria. Chego aqui e procuro por “Vitorino Nemésio”, 0 resultados, “Se Bem me Lembro”, 0 resultados, se bem que indo por outro lado aparece uma página esquelética sem qualquer vídeo sobre o programa e com um texto ridículo a dizer que “durante cerca de meia hora, em horário nobre, os portugueses, encantados, deixavam o Prof. Vitorino Nemésio abrir-lhes as fronteiras da cultura e do conhecimento.” Os depositários desse “encanto” agora resolveram fechar “as fronteiras da cultura e do conhecimento”.
O que me interessava em Nemésio era exactamente tudo aquilo que hoje a televisão não valoriza. Ou seja, um homem, ainda por cima um velho, cheio de rugas, que falava com sotaque, que não preparava os programas, que hesitava e mudava de tema, deixando-se ir na sua própria conversa, que parava para pensar e parava para dizer, repetia para dizer melhor, que tinha um tempo lento e usava palavras que hoje acharíamos muito difíceis, e que passava em “horário nobre”, absoluta impossibilidade nos dias de hoje.
E já que não temos Nemésio ficamos com Kenneth Clark, um homem muito parecido com Nemésio, mas com menos humor, que foi igualmente um sucesso televisivo do passado e que responde neste filme (não editado) às críticas que lhe foram feitas a propósito da série Civilização:
Tenho a certeza de que Nemésio assinaria por baixo.