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José Pacheco Pereira
O Ministério da Cultura deixou de ter ministra
A implosão da ministra da Cultura deu-se esta semana e cabe nesta frase:
“Consegui meios para não fazer cortes nenhuns no resto do ano. Foi possível porque o Ministério da Cultura se empenhou e obteve da parte do Governo solidariedade e, em particular do senhor primeiro-ministro, as condições para não aplicar os cortes.”
Andam a gozar connosco, o primeiro--ministro e a ministra, porque há uma semana era tudo ao contrário. Na verdade, a ministra acabou, está póstuma, tanto faz lá estar como não estar. Ou melhor: como no sítio onde antes havia uma ministra está hoje apenas um fantasma que vagueia pelo Palácio da Ajuda e este não pode ser transportado para a sede do Conselho de Ministros, o Governo, que já soma quase tantos problemas como ministros que tem, passou a ter mais um.
O que aconteceu à ministra da Cultura é exemplar do vazio em que se tornou este Governo. Infelizmente para o País, é um vazio confuso, fragilizador, caótico, propício a asneiras caras, que se pega à nossa crise como um miasma a mais. A senhora que ocupa o lugar resolveu dar-nos um exemplo de como não se governa: anuncia um corte de 10% nos subsídios da cultura, passou uns dias a ouvir a gritaria dos subsidiados da cultura, cuja capacidade para se fazerem ouvir foi sempre grande, e veio depois anunciar que os 10% de corte, que há uma semana entendia serem absolutamente necessários, são agora superáveis pelo “empenho do primeiro-ministro”. E manteve tudo na mesma.
Nessa mesma semana cometeu outros erros que lançam a suspeita sobre a sua preparação para o cargo. Não é preciso ser muito culto para se ser ministro da Cultura, como já se viu no passado, mas algum trato com essas coisas bizarras da cultura ajuda. Principalmente quando se trata de uma ministra que acha que Jorge Luis Borges se chama José Luís Borges (quando ouvi isto no Parlamento nem queria acreditar e gritei de lá de cima “Jorge”, que espero tenha sido ouvido no registo dos apartes...), e que acha que uma acção é “meritosa” em vez de meritória (gritei de lá de cima “meritória” a ver se havia correcção. Nada...). Ainda perguntei aos meus colegas açorianos se seria um “açorianismo”, mas parece que ninguém ouviu tal palavra. E assim vamos continuar tão “meritosa” função de estar no lugar de ministra da Cultura e não o ser.
O “culturalês” e o poder da autoclassificação
Olhando para os encontros dos “artistas” que venceram a ministra encontramos um dos mundos menos conhecidos e escrutinados da vida pública portuguesa. Porém, existe uma relação directa entre a ausência de escrutínio do seu trabalho e a capacidade que têm de influenciar os media a favor das suas causas, quer porque o seu lugar é central em certas “indústrias culturais”, a que os media estão associados, quer pelo preconceito da intangibilidade da “cultura”, da “criação”, da “arte”.
Este mundo funciona em circuito fechado, e desconhece-se que critérios presidem ao seu funcionamento e como são verificados os resultados dessa aplicação do dinheiro dos contribuintes. Sabe-se que não é pelo interesse do público, visto que estes ramos de “cultura” e “arte” abominam tal critério vulgar, de serem avaliados, entre outras coisas, pelo interesse que suscita o seu trabalho no comum dos portugueses.
É verdade que a verba que gastam do erário público não é elevada, mas é dinheiro dos contribuintes, que têm direito de saber onde e com quem é gasto. Os grupos de “artistas”, principalmente na área do teatro e da performance, empregam um número significativo de pessoas, cujo trabalho individual é desconhecido e não avaliado. São “artistas” e, como se autoclassificam como tal, quase tudo lhes é permitido, e respondem com enorme arrogância a qualquer avaliação.
Organizados em várias “plataformas”, Plataforma do Teatro, das Artes Plásticas, do Cinema, a que se juntaram a Associação Portuguesa de Realizadores, a Plateia – Associação dos Profissionais de Artes Cénicas e a Rede – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea, representam uma miríade de grupos cuja existência pública é quase ignorada se exceptuarmos alguns realizadores de cinema, o Teatro da Comuna, o Teatro da Cornucópia, e os Artistas Unidos. A Rede “reúne 26 estruturas transdisciplinares e de dança contemporânea” e a Plateia “agrega cerca de 70 profissionais e 20 estruturas do Norte de Portugal, maioritariamente da Zona Metropolitana do Porto, das áreas do teatro e da dança”. Só a Plataforma do Teatro inclui a Ar de Filmes, Barba Azul, Casa Conveniente, Chão de Oliva, Joana Teatro, Karnart CPOA, A Mala Voadora, Mundo Perfeito, O Bando, Plateia, Primeiros Sintomas, Qatrel, Teatro da Garagem, Teatro da Rainha, Teatro do Vestido, Teatro dos Aloés e o Útero.
Tanto “artista”, tanto “criador” que nós temos por metro quadrado! O modo como se apresentam tem toda a prosápia burocrática e cultural. O Teatro do Vestido quer com ousadia “criar uma dramaturgia original” para o que constituiu “uma equipa multidisciplinar, que aposta numa forte relação com os espaços de apresentação, valorizando-os, bem como numa relação de partilha com o público”. A Casa Conveniente explica-nos que no seu “espaço” no Cais do Sodré “todos têm os seus lugares: bares, prostitutas, clientes, actores, actrizes, espectadores – todos coexistem sem se misturarem, marcando diferenças e aceitando vizinhanças e influências”. Uma coisa chamada Karnart CPOA (Criação e Produção de Objectos Artísticos) explica-nos que a dita é “uma associação privada sem fins lucrativos (...), tem por objectivo aliar aos valores teatrais clássicos vertentes artísticas de outras áreas na criação de objectos de grande dimensão estética e forte impacto interventivo, quer do ponto de vista antropológico quer do ponto de vista sociológico (...). Valores tradicionais em vias de extinção, minorias sociais, direitos de animais, problemas ambientais, religiões e seitas, globalização, etc., são algumas das temáticas que ao colectivo interessa abordar numa perspectiva de arte interventiva e interactiva”. E por aí adiante.
Este blablá do “culturalês” é como o “politiquês” e o “eduquês”, mas ninguém lhe toca. Só faltava tratar os “artistas” como gente vulgar!
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26 de Fevereiro 2011 - 07:11
Joel Sines
Que fique bem claro que este senhor não está qualificado para tecer os comentários que acabou de fazer neste artigo..."leigo".Eu sou um profissional das artes,posso assegurar-vos que não o está. Pergunto-me porque é que chamam pessoas que não estão qualificadas em determinadas áreas,para as comentarem e discutir os seus caminhos?! É como dar pérolas a porcos.
14 de Agosto 2010 - 15:20
armandina maia
Aliás, tenho sérias dúvidas que PP saiba mesmo o que é o mundo. Real, confuso, medonho mas também miraculosamente capaz de criar soluções salvadoras para se recriar e procriar.
Maria Armandina Maia, texto (com adaptações) publicado no blogue Barriga de aluguer", em Março de 2006.
14 de Agosto 2010 - 15:17
armandina maia
Mas os súbditos ousaram desobedecer: fizeram muitos blogues, fúteis, desinteressantes, pimbas, mas também novos blogues, que mostram que muita gente sabe olhar, comentar e até escrever. A democratização da cultura é importante para que o talento e a criatividade não fiquem eternamente reféns dos feudos de saber. Acho que é altura de dizer a estes senhor de ar abastado e decrépito que a gerência agradece que não se exponha tanto a falar de um mundo a que nunca pertenceu.
14 de Agosto 2010 - 15:14
armandina maia
P.Pereira não é rei por esta ser uma ”terra de cegos”. É rei porque fez por isso, estudou muito, leu muitos livros e fala de tudo com a segurança de quem sabe tudo. Das “verdades” proferidas, algumas são-no, outras nem tanto, outras apenas o fruto de uma imaginação prodigiosa para arremessar as palavras contra tudo e todos, num discurso eivado de uma retórica desnecessariamente violenta, contra uma ”ordem” que contraria a sua vontade: ser único e só, a pairar no planeta.
14 de Agosto 2010 - 15:07
armandina maia
E aconteceu-me uma coisa que acho que me fica bem confessar neste momento: cansei-me daquela perfeição absoluta, daquela fachada de intocável, daquele subliminar grau de inacessibilidade do Abrupto e do seu autor.
Senti-me então aliviada: deixava a minha fidelidade a um lugar que não era de encontro, mas de mera ostentação de (“muito”) saber que P.P plantava como verdades absolutas num território que ele sabe ser ínfimo e pouco dado às coisas de cultura.
14 de Agosto 2010 - 15:06
armandina maia
Durante muito tempo fui visitante assídua do Abrupto, mais exactamente por ocasião da tomada de poder de Santana Lopes, em que este Pacheco Pereira assumiu uma liderança de não pouca importância, pelo combate desassombrado, directo e impiedoso que moveu ao então 1º ministro.
Considerava então este blogue um dos mais bem organizados dos poucos que conheço. De então para cá, tenho seguido as intervenções de Pacheco Pereira sobre política e não só.
13 de Agosto 2010 - 19:52
Rui Mourão
Sem subsídios do estado à cultura não havia em Portugal (nem em nenhum país da U.E.) cinema, dança (nem clássica, nem contemporânea), ópera, orquestras ou museus. As artes visuais e o teatro também seriam muito afectados. Concluindo, a arte e a cultura não teriam lugar em Portugal. E num país sem arte e sem cultura quem quer viver???!!!
13 de Agosto 2010 - 19:50
Rui Mourão
Sem subsídios do estado à cultura não havia em Portugal (nem em nenhum país da U.E.) cinema, dança (nem clássica, nem contemporânea), ópera, orquestras ou museus. As artes visuais e o teatro também seriam muito afectados. Concluindo, a arte e a cultura não teriam lugar em Portugal. E num país sem arte e sem cultura quem quer viver???!!!
13 de Agosto 2010 - 19:50
Rui Mourão
A importância do apoio estatal à cultura
O orçamento para o ministério da cultura anda pelos 0,2 - 0,4% do orçamento do estado (pelo que não é por aqui que o défice público será grande) e as "indústrias culturais criativas" criam riqueza ao país superior a 2% do PIB. Que em todos os outros sectores o investimento público rendesse tanto ao país... E claro está, que o mais importante da arte nem é alimentar o corpo, mas a mente (para quem a valoriza...).
10 de Agosto 2010 - 17:38
Ana Maria Silva
A política do facilitismo está em todo o lado, nomeadamente no eduquês e também no culturalês. Sem educação não é possível ter sentido crítico e por isso aceita-se tudo em nome da "cultura" e dos "artistas". Adoro todas as artes assim tenho pena d ver artistas tão incultos, tão pouco preparados, tão feitos à pressão, tão pseudorevolucionários, sempre à espera do subsídiozinho sem darem provas de nada, só pelo mero discurso ecuménico das artes.
9 de Agosto 2010 - 13:46
Ana Lapa
Compete-nos apoiar e insentivar e näo é certamente assim que se fazem criticas construtivas. Näo se esqueca da sua responsabilidade como deputado que nós ,"gente vulgar", näo dominadores da sintaxe estamos muito preocupados com o estado da culltura em Portugal e admiramos os que apezar de tudo näo desistem de querer "fazer cultura".
9 de Agosto 2010 - 13:45
Ana Lapa
O que escreveu é injusto, despropositado, emocional e odioso. A cultura é um bem essencial e é fantástico haverem tantos artistas em Portugal( se for a ver bem, nem säo assim tantos) querendo trabalhar com uma tal diversidade
9 de Agosto 2010 - 12:21
Ana Lapa
Custa-me a acreditar que um homem culto, deputado e próximo da cultura possa escrever um tal artigo. Até fiquei sem palavras mas näo de tal forma que näo fosse impelida a manifestar aqui a minha indignacäo. Näo sou artista, sou "gente vulgar"mas devo-lhe dizer que o recente protesto organizado dos artistas portugueses perante uma tal situacäo catastrófica quase me comoveu pois é algo que até agora foi raro, e é muito triste o senhor parecer näo ter de facto a nocäo do que se trata.
7 de Agosto 2010 - 14:40
Patrícia Carreira
Uma geração com um Pacheco a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Pacheco ao leme é uma canoa em seco!
O Pacheco saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos opinar que é a única coisa que ele faz!
O Pacheco é um habilidoso!
O Pacheco veste-se mal!
O Pacheco usa ceroulas de malha!
O Pacheco especula e inocula os concubinos!
O Pacheco é Pacheco!
O Pacheco é José!
Morra o Pacheco, morra! Pim!
7 de Agosto 2010 - 14:38
Patrícia Carreira
E se Almada ainda fosse vivo...
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Pacheco é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Morra o Pacheco, morra! Pim!
30 de Julho 2010 - 11:35
Hugo Calhim Cristóvão
http://nuisiszobop.blogspot.com/search/label/Anarquia%20e%20Sistema
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