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Opinião

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José Pacheco Pereira

Livros a mais

Há livros a mais? Se calhar há, quando se vê numa livraria, a ocupar espaço nas estantes e nos expositores, filas e filas de papéis pintados, todos iguais. Mas, deixando passar o tempo, daqui a cem anos, será que quem abra velhas caixas com os livros dos nossos dias, terá a mesma sensação de descoberta e surpresa que eu tenho para os livros do passado? Sempre se publicou muita coisa que nunca deveria ter assumido um formato de livro, mas o tempo salva-os de um modo muito especial. No fundo são livros. Verdade que ninguém os vais ler de novo, mas são livros, papel de livro, capas de livro, formato de livro, mesmo quando estão quase desfeitos. São objectos especiais, que falam connosco de modo diferente do que quando foram publicados e eram lidos como novidades. São livros, contém tempo suficiente para resistir ao tempo.
 
Eu abro muitas caixas com livros de que desconheço o conteúdo, ofertas, espólios, restos de biblioteca que ficaram esquecidos a um canto e que a morte, uma mudança de casa, uma venda quase ao peso de papel, me fazem chegar. É sempre uma das actividades que mais animam um qualquer bibliófilo, abrir e ver, sem saber o que está lá dentro. Não importa saber se são livros comuns, feitos para a leitura rápida e barata. Como se fossem para ler e deitar fora. São livros. 
 
Numa caixa qualquer, numa estante perdida, no meio do pó, vêm estes livros que aqui reproduzo ao acaso. Por exemplo, este Dostoiewsky, numa edição popular. Não o vou ler até porque ele se desfaz, a tradução é em segunda ou terceira mão e não é do original russo. Mas a capa interessa-me, o desenho simples de uma cena comum. Não está feita para que o compre pela capa, mas para que o compre como livro. 

 
Já este Jack London tem capa para me levar a ler o livro. A capa manda e a capa é do tempo em que estes trabalhos comprados à peça e ao metro nem sequer eram assinados. Um qualquer desenhador ou pintor, daqueles que hoje consideramos consagrados, como Almada ou Bernardo Marques, faziam estas capas. Portanto aqui está o livro, mais a capa, os dois, valendo os dois tanto tempo depois.
 
Ou este Cinquenta Fábulas de Fedro, com o subtítulo “para as crianças lerem, estudarem, meditarem”, o que por si só nos diz muito sobre o tempo, 1929. Então era possível pensar que as “crianças” podiam fazer todas essas actividades tornadas hoje impossíveis pela crescente ADD, a “attention deficit disorder”, que é acelerada pelo tempo dos videojogos e da televisão. Outro mundo, outro tempo, outras “crianças”.
 
Por tudo isto não há livro, pobre, comum, mesmo mau, que não nos diga alguma coisa. Pelos séculos adiante, no meio do pó, do esquecimento. Os livros são assim.


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