FOGO SOBRE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA!
...diria o MRPP nos seus velhos tempos, referindo-se à ofensiva que está em curso contra o Presidente da República, tratado num blogue em que participam deputados eleitos do PS, e outras figuras muito próximas de José Sócrates, como doente mental.
O que disse o Presidente (PR) que possa justificar esta fúria grosseira?
O PR analisa três eventos todos ligados entre si por uma comum atitude de desconfiança e dois deles apresentados como sendo operações políticas do PS contra ele próprio. Esses eventos são o encontro de Fernando Lima com um jornalista do Publico, as declarações de deputados do PS a propósito da eventual participação no programa do PSD e a publicação do email no Diário de Notícias.
Analisemos cada ponto de per si:
1) A iniciativa de Fernando Lima de contactar um jornalista do Público, ou a titulo pessoal, ou no exercício das suas funções na Presidência, ou a pedido do Presidente, ou uma mescla destas possibilidades.
É nesta parte que a intervenção do Presidente é mais frágil, ou porque não pode explicar, ou porque não quer explicar ou porque a explicação lhe seria prejudicial. A publicação do email e o afastamento do seu assessor em consequência acabam por ser factos muito mais poderosos do que a explicação presidencial. Aqui o Presidente esteve mal e foi confuso, deixando a impressão de que a iniciativa ou teve o seu assentimento, pelo menos em princípio, ou que, tendo vindo a saber da sua existência, não considerou grave o que tinha acontecido.
A interpretação socialista de que o fez para “prejudicar” o governo parece-me muito abaixo do real significado do caso. É pior. Toda a comunicação do PR está permeada de algo muito pior do que querer “dificultar” a vida ao governo : está impregnada de uma profunda desconfiança entre Belém e S. Bento tão evidente e tão consolidada que o PR não se coibiu de associar a publicação do email no Diário de Notícias (que ele considera parte da operação do PS contra si) a um sobressalto quanto à segurança da sua correspondência.
Mas, se na verdade aceitamos estas preposições, temos também que aceitar, pelo menos em principio, várias outras. Como seja, que o email pode não reproduzir fielmente o que se passou e que o jornalista “apimentou” o seu contéudo para se dar importância, que o email possa ter sido escrito para comprometer o PR ou o seu assessor e mil e uma outra possibilidades que tem o mesmo conteúdo conspirativo.
2) A acusação de que havia assessores do Presidente a participar no Programa do PSD (e já agora porque não do CDS?) com exigência de explicações feita por deputados e dirigentes do PS.
Aqui o Presidente foi completamente claro e associou este evento a uma “manipulação” do PS destinada a:
Primeiro: Puxar o Presidente para a luta político-partidária, encostando-o ao PSD, apesar de todos saberem que eu, pela minha maneira de ser, sou particularmente rigoroso na isenção em relação a todas as forças partidárias.
Segundo: Desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupavam os cidadãos.
Aqui há uma clareza da explicação que não há no primeiro evento. E há mais: o Presidente diz que tal “de acordo com a informação que me foi prestada, era mentira”. O PS diz que soube por uma notícia do Semanário, (que também estava no clipping do PSD), uma publicação assaz estranha, que não tem verdadeira redacção e que não vende, está crivada de dívidas, mas aparece todas as semanas cheia de “recados”.
E, mais grave ainda, porque se refere à contínua desconfiança que transparece em tudo o que diz o Presidente, este afirma que há “interrogações que qualquer cidadão pode fazer sobre como é que aqueles políticos sabiam dos passos dados por membros da Casa Civil da Presidência da República.” Ou seja, em todos os casos que nomeia, o PR enuncia um problema de segurança.
3) A publicação de um email com ano e meio (só para situar no tempo, o email data dos dias seguintes à demissão de Luis Filipe Menezes, ou seja há cerca de 17 meses) descrevendo um encontro referido no ponto 1) a dias de eleições legislativas, num processo longe de estar esclarecido pelo Diário de Notícias.
Aqui também o Presidente é claro:
(…) a mesma leitura fiz da publicação num jornal diário de um e-mail, (…) trocado entre jornalistas de um outro diário, sobre um assessor do gabinete do primeiro-ministro que esteve presente durante a visita que efectuei à Madeira, em Abril de 2008.
Ou seja, “consolidar os dois objectivos já referidos: colar o Presidente ao PSD e desviar as atenções.”
Visto tudo isto, o que diz o Presidente não é grave, é gravíssimo. Nem sempre o diz da melhor maneira, num processo muito mal conduzido (e espero que não me citem esta frase truncada da seguinte porque se o fazem viciam o que eu penso). É que a inabilidade presidencial é o menos relevante em tudo isto.
A questão do milhão de dólares é outra:
Como é que um Presidente institucionalista, que acredita firmemente na “cooperação institucional”, chegou a este ponto de desconfiança e de conflito quase aberto com o “partido de governo” e com José Sócrates?