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Opinião

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José Pacheco Pereira

Eu vi muita coisa

... mas uma crise como esta, não. A SÁBADO devia dar um desconto aos seus leitores, porque a política portuguesa não tem novidades já há muitas semanas e sem novidades não há comunicação social. Eu, que detesto repetir-me, quando posso escapar para outro lado, não escreveria sobre Portugal se não me repetisse. Dia após dia, estamos exactamente no mesmo lugar. É que, como nada muda, nada mexe, nada se move nesta combinação de pântano e areias movediças, onde ninguém governa, nem ninguém quer governar, onde está tudo à espera que o tempo dobre qualquer esquina e traga um milagre em quem ninguém acredita, ou uma catástrofe que ninguém espera na lassitude reinante.
O Inferno, nalgumas versões mais existencialistas, é assim.
 
A confusão como norma
Alguém percebe como está a funcionar o Governo? Alguém percebe quem toma decisões? Alguém percebe quem está a cancelar as decisões tomadas 24 horas antes? Alguém percebe se há negociações entre PS e PSD? Alguém percebe o que estão a negociar? Alguém percebe como é que se registam os acordos e os desacordos de cada negociação? Há apenas a palavra dos presentes ou há algum papel, nem que seja um memorando de entendimento, que nem precisa de ser assinado? Alguém sabe se, entre a decisão no gabinete do primeiro-ministro e o conhecimento ao ministro dos Assuntos Parlamentares e ao Grupo Parlamentar do PS, há algum hiato, ruído, troca de papéis, desinformação, ou o paquete com os documentos foge para casa e faz outros que entrega a Jorge Lacão e Assis? Alguém percebe como é que o PSD é informado, se é que o é, por quem combina e discute, partindo do princípio de que Passos Coelho só acorda com a versão final? E dão-lhe a versão final ou algum génio à solta oferece apenas a sua alta interpretação e não o acordo? Quem marca as reuniões e quem sabe da marcação das reuniões? Alguém percebe como tudo isto está a funcionar, ou, mais exactamente, a disfuncionar?  
 
Cada vez menos liberdade
Seja como for, por detrás da confusão há muito desespero (do ministro das Finanças), há muito cansaço (do Governo todo), muita raiva (do primeiro-ministro) e esta combinação produz impulsos perigosos. Um deles é tentar perseguir o último tostão, no último bolso, daqueles que ainda têm uma economia formal, se esforçam por poupar, colocam dinheiro nos bancos, pagam impostos, declaram ao Fisco e por isso são vítimas privilegiadas do desespero do Estado. A liberdade de cada um, que Aristóteles sabia que estava ligada à independência pessoal e esta à propriedade, está a ser devastada dia a dia a pretexto da crise. E conhecendo-se bem os nossos costumes, até podemos vir a sair da crise, ou pelo menos do mais agudo da crise, mas os maus hábitos de um Estado espoliador permanecerão como critérios normais de controlo do cidadão. Há no Estado português uma pulsão para uma espécie de Big Brother pobre, que se torna cada vez mais absoluto sem verdadeiramente querer ser absoluto, movido pela necessidade e pelos maus hábitos e por uma imensa, gigantesca falta de cultura de liberdade e de respeito pelos cidadãos, a que se soma a apatia generalizada dos cidadãos.

Agora tudo parece justificado pela crise, impostos retroactivos, impostos sem autorização parlamentar, espionagem bancária, etc., etc., mas na verdade começou quando o Fisco e a ASAE se tornaram armas do primeiro-ministro para mostrar um show de determinação que se revelou pouco mais do que o autoritarismo da asneira e o vigor da amoralidade.
Cada dia, há menos liberdade e a história mostra que, em tempos como estes, essa falta de liberdade, meio abusiva, meio consentida, está para lavar e durar. l
 
Luanda, a cidade mais cara do mundo
Luanda ultrapassou Tóquio como a mais cara cidade do mundo, o que sei ser normal nestes fins do mundo da pobreza e da miséria, governados pela nomenklatura ex-comunista reciclada nos grande negócios com os bens da sua terra que o Estado distribui aos corruptos que mandam. Vi isso também em Moscovo, quando as máfias controlavam as ruas e os novos-ricos se banqueteavam com champanhe francês, e os velhos eram expulsos dos seus apartamentos sob ameaça de morte. As coisas já não estão bem assim, Putin trouxe alguma lei e ordem, embora ele seja fruto dessa partilha dos recursos que se fez na era de Ieltsin. Por isso Moscovo, ainda cara, baixou de custo. Mas Luanda? Só se for uma espécie de imposto revolucionário para quem também quer para lá ir ganhar dinheiro.


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