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Opinião

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José Pacheco Pereira

O Keynes que Sócrates não lê

Agora à noite, na cama, ou no carro a caminho de uma inauguração, ou num intervalo entre audiência, no meu computador, vou ler a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda de Keynes



Quem “frequenta” os livros, já nem digo quem apenas os lê, mas quem com eles tem um convívio, chamemos-lhe assim, íntimo, apanha com muita facilidade as falsas declarações de leitura. Apanha-as pela ignorância do que se diz sobre os livros que supostamente se leu, mas muitas vezes nem se chega aí, apanham-se pela completa implausibilidade da sua leitura no contexto. Nunca me esqueço de uma aluna que tive de filosofia, por sinal muito má, que um dia se gabou de ter lido a Crítica da Razão Prática de Kant, livro sobre o qual os seus olhos nunca tinham passado na vida e sobre o qual, autor e muito menos livro, nada de nada sabia para poder dizer essa enormidade. Exemplos destes encontram-se todos os dias, como o da “Fenomenologia do Ser” de Sartre inventado por Passos Coelho, mas, pior ainda, justificado pelos seus amigos nos blogues como sendo uma mera confusão entre título e subtítulo, por quem também não faz a mínima ideia do livro que está a falar, neste caso eventualmente o Ser e o Nada de Sartre, ou será o Ser e o Tempo de Heidegger, ou será a Fenomenologia do Espírito de Hegel, ou será… qualquer outra coisa.
 
O mesmo tipo de imprudência com as leituras revela-se em José Sócrates sempre que quer mostrar que lê, o que faz mais amiúde do que devia. Na campanha eleitoral meteu os pés pelas mãos a falar de Pessoa num registo pseudo-intimista e agora, há dias, numa entrevista da Visão, diz, numa frase displicente, que já não lhe interessa ler Marx, agora vai ler é Keynes. Já esta maneira de falar denota o escasso convívio com os autores que cita como se fossem seus familiares, porque conhecer Marx é tão importante, senão mais, do que conhecer Keynes. E se a frase pretende mostrar que um está “desactualizado” e o outro não, então estamos perante uma boca que se admite num blogue adolescente, mas que não tem sentido num grande deste mundo que está a falar do que lhe interessa.

Quem diz uma coisa destas - ele não está a dizer que Keynes é mais importante no seu entender para perceber a realidade actual, mas sim que “vai ler Keynes” em contraponto com um Marx que já teria lido - não faz a mínima ideia do que está a falar. Keynes escreveu muito e sobre muitas coisas, do alcoolismo a vários artigos sobre economistas, e um ou outro pequeno livro mais popular. Será que o Keynes de que ele está a falar é o de alguns desses pequenos livros, que conheceram alguma notoriedade nos anos trinta? Duvido, porque o Keynes de que se anda para aí a falar a pretexto da crise económica - e é desse que Sócrates está a falar - é o da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.



Ora, eu não li a Teoria Geral, mas tenho uma ideia do conteúdo do livro, da sua complexidade e do seu tamanho. Tenho aliás um exemplar completo (muitas vezes há apenas antologias) que consultei para escrever este texto e não tenho dúvida nenhuma de que falar assim do livro, ou da obra de Keynes, é um pouco semelhante à do operário que num “romance social” aparecia cheio de ardor revolucionário na fábrica depois de ter lido o Capital durante a noite, ou da minha aluna leitora de Kant.

A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda é um texto complexo, com mais de 400 páginas cerradas, muitas vezes com fórmulas matemáticas (anexo um exemplo ao acaso do texto original), um livro que para um economista é matéria de estudo e mesmo assim sem precisar de o ler todo, para um estudioso de Keynes obrigatório, mas sempre longe de ser a leitura displicente que José Sócrates sugere.

Ninguém é obrigado a ler, nem sequer se deve julgar Sócrates como primeiro-ministro por ter lido Marx ou Keynes, mas não fica bem parecer que se lê o que não se lê, ou que se vai ler, o que não se vai ler. Aliás, como acontece sempre nestas escorregadelas, ninguém lhe pediu para mostrar saber e leituras.

ANEXO : uma página da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda

Some part, however, of A + G - A1 will be attributable, not to the activities of the period in question, but to the capital equipment which he had at the beginning of the period. We must, therefore, in order to arrive at what we mean by the income of the current period, deduct from A + G - A1 a certain sum, to represent that part of its value which has been (in some sense) contributed by the equipment inherited from the previous period. The problem of defining income is solved as soon as we have found a satisfactory method for calculating this deduction. There are two possible principles for calculating it, each of which has a certain significance;�one of them in connection with production, and the other in connection with consumption. Let us consider them in turn. (i) The actual value G of the capital equipment at [p.53] he end of the period is the net result of the entrepreneur, on the one hand, having maintained and improved it during the period, both by purchases from other entrepreneurs and by work done upon it by himself, and, on the other hand, having exhausted or depreciated it through using it to produce output. If he had decided not to use it to produce output, there is, nevertheless, a certain optimum sum which it would have paid him to spend on maintaining and improving it. Let us suppose that, in this event, he would have spent B' on its maintenance and improvement, and that, having had this spent on it, it would have been worth G' at the end of the period. That is to say, G' - B' is the maximum net value which might have been conserved from the previous period, if it had not been used to produce A. The excess of this potential value of the equipment over G - A1 is the measure of what has been sacrificed (one way or another) to produce A. Let us call this quantity, namely (G' - B') - (G - A1), which measures the sacrifice of value involved in the production of A, the user cost of A. User cost will be written U. [1] The amount paid out by the entrepreneur to the other factors of production in return for their services, which from their point of view is their income, we will call the factor cost of A. The sum of the factor cost F and the user cost U we shall call the prime cost of the output A. We can then define the income[2] of the entrepreneur as being the excess of the value of his finished output sold during the period over his prime cost. The entrepreneur's income, that is to say, is taken as being equal to the quantity, depending on his scale of production, which he endeavours to maximise, i.e. to his gross profit [p.54] in the ordinary sense of this term;�which agrees with common sense. Hence, since the income of the rest of the community is equal to the entrepreneur's factor cost, aggregate income is equal to A - U. Income, thus defined, is a completely unambiguous quantity. Moreover, since it is the entrepreneur's expectation of the excess of this quantity over his outgoings to the other factors of production which he endeavours to maximise when he decides how much employment to give to the other factors of production, it is the quantity which is causally significant for employment. It is conceivable, of course, that G - A1 may exceed G' - B', so that user cost will be negative. For example, this may well be the case if we happen to choose our period in such a way that input has been increasing during the period but without there having been time for the increased output to reach the stage of being finished and sold. It will also be the case, whenever there is positive investment, if we imagine industry to be so much integrated that entrepreneurs make most of their equipment for themselves. Since, however, user cost is only negative when the entrepreneur has been increasing his capital equipment by his own labour, we can, in an economy where capital equipment is largely manufactured by different firms from those which use it, normally think of user cost as being positive. Moreover, it is difficult to conceive of a case where marginal user cost associated with an increase in A, i.e. dU/dA, will be other than positive. It may be convenient to mention here, in anticipation of the latter part of this chapter, that, for the community as a whole, the aggregate consumption (C) of the period is equal to S(A - A1), and the aggregate investment (I) is equal to S(A1 - U). Moreover, U is the individual entrepreneur's disinvestment (and - U his investment) in respect of his own equipment exclusive [p.55] of what he buys from other entrepreneurs. Thus in a completely integrated system (where A1 = 0) consumption is equal to A and investment to - U, i.e. to G - (G' - B'). The slight complication of the above, through the introduction of A1, is simply due to the desirability of providing in a generalised way for the case of a non-integrated system of production.


Comentários

13 de Dezembro 2009 - 22:28

PAULO SILVEIRA

Pacheco Pereira só tem um objectivo neste artigo, e ele está integrado na estratégia da direita (políticos e media), que é o de tentar denegrir Sócrates para assim paralisar o PS e o governo. O PSD só tem uma saída que é a de garantir a reeleição de Cavaco que só avançará pelo seguro pois tem receio. Se Alegre fizer o pleno da esquerda poderá ter quase os 60% que foi o resultado da esquerdanas eleições de há dois meses. Depois falam estes tipos de interesse nacional...

1 de Dezembro 2009 - 23:20

Luis Teixeira

Permitam-me comentar os comentários. VEJO TAE diz o óbvio e, sobretudo, parece não entender a ironia da afirmação de PP de "ir ler" Keynes "no computador", "na cama, ou no carro a caminho de uma inauguração". MANUEL SILVA acha que PP fala da aluna com "arrogância" - eventualmente, nunca tropeçou numa dessas luminárias do Secundário, que atiram bocas nas aulas e levam 4 nos testes... Sobre a utilidade da transcrição, parece-me óbvia: evidencia o que foi dito no artigo. Bem hajam.

23 de Novembro 2009 - 21:39

vejo tae

A minha opinião é de que nem o Sócrates nem o Pacheco Pereira leram ou sequer vão ler o Keynes. Primeiro: para quê? Qualquer manual de macro economia do 1º ano resume a teoria keynesiana. Segundo: não acredito que nem um nem outro percebessem patavina daquilo, uma vez que não têm bases de economia ou de matemática (P. Pereira) para digerirem esse livro em específico.

16 de Novembro 2009 - 10:14

maria costa

Aprecio muito Pacheco Pereira, embora não esteja sempre de acordo com ele, como é natural. Apreciei muito este artigo, já que desmonta perfeitamente até onde vai a grande manipulação de J. Socrates, sempre a fingir o que não é. Lamento que nem todos percebam a verdadeira personalidade deste primeiro ministro... Era bom para o país que a entendessem !

8 de Novembro 2009 - 18:24

manuel silva

E então? Não disse nada importante. Transcreveu esta parte do livro porquê? Fala da sua aluna com uma arrogância tamanha. Não se pode trocar de "pensadores" ? Que artigo desinteressante.

2 de Novembro 2009 - 19:16

Na Ilha das Ponchas

Pacheco, "get a life!"

29 de Outubro 2009 - 11:19

George Rupp

A arrogancia e presuncao de Pacheco Pereira chegam a ser caricaturais. Ele nao critica Socrates por ler pouco, como por exemplo Cavaco Silva. Tambem nao critica Socrates por fazer afirmacoes erradas sobre as escritas de Keynes. Ele critica Socrates por ter a suprema desfacatez de LER Keynes e ter orgulho nisso. Pois so Pacheco Pereira tem o direito de ler e interpretar Keynes.

17 de Outubro 2009 - 23:15

antonio cardoso

Tenho muita pena de não ter sabido antes, pois com muito prazer poderia ter ajudado a recolha. Tenho muita admiração por Pacheco Pereira, pela sua elevada cultura, pelos artigos que não param de surpreender, quer pela sua oportunidade quer pela sua clareza e acutilância. Na revista "Sábado" como no jornal "O Público", são os seus artigos os que primeiro leio e, por vezes, releio. Obrigado, Pacheco Pereira, em meu nome e no do país que o lê.

16 de Outubro 2009 - 16:16

angelo ochoa

bom esforço de Pacheco Pereira na recolha e 'pedincha' de milhentos papelinhos imagens fotos brindes, panóplia de materialões de vero coleccionista. Se a história, hoje, ele saberá por munus próprio, é feita de minúcias e quotidianidades muito útil será de futuro tal éfemero arsenal de vanidade. Por mim peno por não ter podido ajudá-lo com minha máquina digital sony. Ando mais voltado para as cores da luz, se cores luz tem...






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