Durante a campanha eleitoral das legislativas e das autárquicas recolhi todo o material de propaganda possível, de todas as forças políticas, que está a ser colocado aqui à disposição de todos.
Dezenas de pessoas colaboraram voluntariamente nesta tarefa de uma ponta à outra do país, fazendo-se “expedições” para recolher tudo o que estava disponível. Entrei em sedes do PSD, do PS e de candidaturas independentes, falei com as pessoas em acções de rua do BE, do PSD, da CDU e do PS, conversei com candidatos solitários como o do MPT em Setúbal e, por todo o lado, recebi toda a colaboração possível. E, no entanto, é apenas uma gota de água…

Existem dezenas de milhares de cartazes, panfletos, objectos, listas e programas diferentes. Dezenas de milhares de espécimes parece um número exagerado, mas não é se tivermos em conta o número de freguesias (à volta de 4260) a que se somam mais de 300 concelhos e se se tiver em conta que mesmo nas mais remotas freguesias há pelo menos duas listas e que cada lista produz entre duas e três peças de propaganda (cartaz, lista e programa), a que se soma a enorme quantidade de peças de propaganda eleitoral nas grandes freguesias ou concelhos. Nem sequer é preciso a localidade ser muito grande para ter, para além dos partidos nacionais (BE, CDS, CDU, PSD, e PS) várias listas de independentes ou de pequenos partidos. Nelas, por exemplo, tinha listas próprias do PPM, do MPT, para além do PS e do PSD.

Em vários concelhos havia listas independentes muito activas produzindo abundante material, como na Amadora, em Oliveira do Hospital, em Coimbra, em Odivelas, etc. Tudo isto desaparecerá em breve porque ninguém faz a recolha deste material, que se perderá quando se quiser fazer uma história política que olhe para além dos resultados, para a iconografia, para a “paisagem eleitoral” nestes dias muito especiais em que a política é de quase todos.
A recolha, que continua a ser feita, dará apenas uma amostra (cerca de metade dos concelhos e algumas centenas de freguesias) mas mesmo assim é a maior que alguma vez foi feita e permite tirar algumas conclusões sobre o modo como evolui a propaganda política em Portugal. Uma delas tem a ver com o domínio esmagador do cartaz personalizado. Hoje há milhares de caras em cartazes por todo o país.
Do BE e da CDU, que no passado criticavam a personalização das campanhas, às listas independentes ou aos candidatos dos mais obscuros lugares, todos colocam outdoors gigantes com a sua cara. Candidatos a deputados agora “personalizam” a campanha nos seus distritos fazendo cartazes que até agora só se faziam nas campanhas autárquicas. O domínio da face no cartaz, ou em menor grau das faces (candidato ao municipio+candidato à freguesia), é quase total e isso mostra mudanças na relação política entre eleitos e eleitores.

O mesmo acontece quanto ao conteúdo dos cartazes, com a substituição crescente das frases vagas e gerais por propostas concretas e localizadas.
Há várias formas de propaganda que estão claramente em decadência. O panfleto perdeu muito do seu papel, substituído pelo domínio da imagem e, de um modo geral. pela iconografia da campanha. Ainda há muita propaganda artesanal e pouco estandardizada, mas a tendência é para linhas gráficas comuns por concelho, sem desvio nas freguesias. O autocolante está também a desaparecer, assim como a abundância e diversidade dos “brindes” e o plástico (sacos, por exemplo). Mantêm-se as canetas, as camisolas, os bonés, as bandeiras e ainda sobrevivem em várias campanhas os porta-chaves com falsa moeda para os carrinhos de supermercado. Mas parte deste material é para “pintar” os acompanhantes da campanha, mais do que para oferecer nas ruas. Aparecem alguns “brindes” novos, como caixas para medicamentos.
Há alguns balões, réguas, e objectos diversos (um apito, por exemplo no PS de Carregal do Sal), mas este tipo de “brindes” está a perder o papel central que tinham na campanha de rua.

É fácil ridicularizar esta parafernália de imagens, papéis, objectos, a que há que somar os carros e autocarros decorados para a campanha, as sedes com fachadas decoradas, e chamar a atenção para o seu custo. Na verdade, há muito e muito dinheiro envolvido (a campanha do PS parece a mais rica a nível nacional, mas há campanhas de alguns candidatos autárquicos do PSD também opulentas e mesmo o BE transpira riqueza) e isso é pouco coerente com a situação do país. Também não se sabe muito bem que papel tem toda esta soma de materiais na conquista do voto. Há uma ocupação espacial que permite transmitir uma ideia de força e um ou outro cartaz que se percebe ser eficaz, mas pode ser tudo dinheiro deitado fora. Mas uma coisa me parece certa: cria-se uma paisagem de democracia, de escolha, de envolvimento, sem a qual o acto democrático de votar parece uma abstracção. E isso não é mau.