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Opinião

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José Pacheco Pereira

Pacheco Pereira: A selva a dezenas de quilómetros de Lisboa

Eu sei que a outros aconteceu muito pior, em estragos e perda de bens. Eu sei que estamos demasiado dependentes de confortos que tomamos por adquiridos e que já não sabemos viver sem eles. Mas, sabido isto tudo, mesmo assim, há mais do que isto, há demasiada incúria, pouco cuidado e pouca atenção com os “utentes” (palavra tenebrosa quando se usa, por exemplo, para a saúde, mas que é aceitável neste caso), para os que pagam serviços que esperam receber em boas condições, tanto mais que são fornecidos em monopólio e não podemos escolher a concorrência.
 
Eu sei também que as calamidades naturais vêm quando menos se espera e que mau tempo é mau tempo e o mau tempo severo pode muito. O ciclone que assolou áreas que vão da Lourinhã até Torres Vedras não é um fenómeno inteiramente previsível, nem os seus estragos podem de todo ser evitados. O temporal também me tocou. Houve árvores caídas, alguns estragos, água infiltrada, mas nada que não se pudesse resolver. Como muitos particulares, deitando mãos à obra, o que se podia reparar está reparado, as árvores cortadas, outras escoradas, vasos substituídos, precauções quanto às telhas que podem ter-se partido. Só que os efeitos do temporal continuam a entrar porta adentro, porque não há luz e hoje (a 28, vários dias depois do temporal), por exemplo, isso impediu-me de escrever para a SÁBADO e de fazer outros trabalhos.
 
Muita coisa pode e deve ser feita e muita coisa correu e corre mal. Não foi só a chuva e o vento, mas a incúria dos homens, em particular da EDP. Neste momento em que vos escrevo aproveitando um intervalo com luz, posso dizer que Não é verdade que a situação de fornecimento de energia eléctrica tenha sido reposta, como se anda para aí a anunciar. Depois do “apagão” subsequente ao temporal, no sítio de onde vivo, a poucas dezenas de quilómetros de Lisboa, a electricidade já faltou imensas horas e três dias depois do Natal, mais uma vez quase dez horas seguidas. E muitas vezes vem e vai, num atentado a tudo o que seja aparelho eléctrico, computadores em primeiro lugar, ameaçando frigoríficos e arcas, televisões e sistemas de aquecimento. Os alarmes tiveram o seu dia e noite de festa, tocavam que nem desalmados. Desta vez houve ruptura no fornecimento de água, e nos serviços telefónicos. 
 
Tudo demasiado frágil, para um mau tempo severo, mas também nada que fosse especialmente calamitoso a não ser nalgumas áreas muito localizadas. O problema é que estes eventos mostram não só fragilidades estruturais da rede eléctrica, como deixam antever o caos que se seguirá a uma verdadeira calamidade pública. Dias inteiros para repor a energia eléctrica, e, dias após dias de abastecimento irregular, não são admissíveis em 2009 em zonas em que “a dificuldade dos acessos” parece desculpa mas não é. Porque não estamos nalgum remoto lugarejo, mas em zonas próximas da capital, com uma rede de estradas densa, e muito urbanizadas.
 
Os estremunhados responsáveis por diferentes áreas da protecção civil que o Senhor Ministro resolveu acordar altas horas da noite, quando já se sabia que não havia consequências do sismo, para ter umas imagens televisivas nos telejornais da manhã,  deviam era reflectir sobre como quando é a sério, mesmo este muito moderado sério, as coisas funcionam demasiado mal.


Comentários

10 de Janeiro 2010 - 17:38

José Cardoso

Coitadinho do Pacheco.





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