A Station Nord é um puro produto da política, da vontade política. Uma resolução do Tribunal Internacional de Haia, face a reclamações contraditórias da Dinamarca e da Noruega, decidiu que o território da Gronelândia seria atribuído à soberania dinamarquesa, sob condição da sua ocupação efectiva. E os dinamarqueses, atentos a essa condição, reanimaram uma velha base americana abandonada (como a maioria das outras bases com origem na ocupação americana na Segunda Guerra Mundial e com a Guerra Fria) e mantêm-na aberta todo o ano. Cinco militares dinamarqueses estão lá em permanência, no extremo norte da hostil costa oriental da Gronelândia, 1.700 quilómetros acima do Círculo Polar Árctico, onde não há nada nem ninguém, com excepção dos ursos polares e de alguma outra fauna árctica. As condições são extremas, temperaturas muito baixas, tempestades, seis meses de noite e seis meses de dia. O equipamento mais poderoso da base é uma gigantesca máquina para retirar a neve das pistas, que chega a atingir a altura do telhado de uma casa térrea.
Apesar de a base ter vários edifícios dispersos por uma grande área, na maioria ou são armazéns ou estão desocupados, tendo no entanto que permanecer aquecidos para o permafrost não os destruir. Alguns edifícios abandonados durante a transição entre a base americana e a dinamarquesa estão inabitados. Os militares vivem num pequeno casulo, ao lado de uma enorme dispensa de mantimentos e, no Inverno, tratam essencialmente de manter tudo a funcionar, a começar pelo aquecimento, e servem de base para uma patrulha de trenó com cães, a única presença humana na vasta extensão do Parque Natural da Gronelândia. Tudo é muito longe, tudo é muito grande, tudo é muito remoto, tudo é muito frio.
Mas para os dinamarqueses, que recusaram uma proposta americana para comprar a Gronelândia, e mesmo apesar da reiterada proclamação de que o território se pode tornar independente caso a sua comunidade Inuit, com cerca de 55 mil pessoas numa área de mais de 2 milhões de quilómetros quadrados, o entenda e possa prescindir do seu apoio financeiro – o que teoricamente pode ser possível caso se confirme existirem grandes reservas de petróleo e gás natural –, ali é Dinamarca. l
Um grande livro de História sobre uma revolução a que vulgarmente se chama Guerra da Secessão
O meu companheiro de viagem nos longos voos árcticos foi um dos melhores livros de História que jamais li. As suas quase 900 páginas prendem o leitor como a melhor História narrativa é capaz de fazer e, mesmo com outras tentações de leitura, esta sobrepôs-se a tudo. Trata-se de Battle Cry of Freedom, de James McPherson, uma história da guerra civil americana. Já tinha lido com idêntico entusiasmo outro livro desta série, a História dos EUA de Oxford, e suspeito de que continuarei a ler os restantes com o mesmo gosto, dada a sua alta qualidade.
A guerra civil americana é o acontecimento que, em conjunto com a guerra da independência, “fez” os EUA. Não tendo como motivo formal a escravatura – Lincoln passou a guerra toda a afirmá-lo –, ela só existiu porque a escravatura moldava a sociedade e as instituições do Sul e todos os conflitos que levaram à guerra tinham como pano de fundo a percepção pelos estados do Sul de que a escravatura estaria em risco se não pudesse alargar-se a outros territórios, fossem da América do Norte ou fossem conquistados, como Cuba, e se o direito de propriedade dos escravos não fosse reconhecido, mesmo nos estados “livres”. McPherson sublinha, e bem, que o que na realidade aconteceu foi a combinação de uma revolução social com uma contra-revolução.
A eleição de Lincoln precipitou a guerra, mas foram os estados que deram origem à Confederação que a iniciaram. Depois foi uma enorme carnificina, sem precedentes na História moderna. Nalgumas batalhas morreram mais americanos do que em todas as guerras que o país conhecera, da guerra da independência à guerra com o México.
Apesar da superioridade do Norte em todos os aspectos – homens e recursos –, o Sul passou quase todo o tempo a ganhar militarmente, com um exército que combatia muitas vezes descalço, mas chefiado por grandes oficiais, Robert Lee acima de todos. No Norte foi necessária uma contínua depuração até que os generais que se tinham revelado em combate, Grant, Shermann e Sheridan, chegassem ao comando efectivo e mudassem o curso da guerra. Isto numa guerra em que a probabilidade de os oficiais morrerem em combate era superior à de morrerem os soldados.
Tudo nesta história se recomenda: o uso criterioso das fontes, incluindo a vasta correspondência de soldados e oficiais, os artigos dos jornais (quer na União, quer na Confederação permaneceu quase intacta a liberdade de imprensa e a vida política democrática), os retratos dos homens, a descrição dos combates, os condicionamentos económicos e sociais, as tensões geradas pela escravatura, as hesitações entre moderados e radicais dos dois lados. Não é uma história de um lado, o Sul é tratado como combatendo por valores de liberdade que eram genuinamente sentidos como tais e, num certo sentido, mais próximos de muito do que fora a matriz genética dos Estados Unidos.
McPherson nota por isso a grande transformação que se observa nos discursos de Lincoln, que começa por falar da “união” e dos “rebeldes” e acaba a falar de “nação”. O Norte vence a guerra destruindo o “velho Sul”, mas, ao fazê-lo, permitiu que os EUA fossem uma nação.