José Pacheco Pereira
A influência funciona de forma viral
Aqui está um dos sinais de “influência”: Michael Jackson deixou-nos um gesto, um passo de dança, um movimento engraçado e isso funciona como uma espécie de cartão de identidade imediato. Quando as pessoas o querem homenagear dançam o “moonwalk”, como aqui em Paris.
Tenho por certo, tanto quanto se pode ter alguma coisa por certo, que a “influência” funciona como uma espécie de vírus. Na origem dessa minha pobre certeza está um texto de T. S. Eliot, mas isso pouco importa. O homem deixou-nos o “mês mais cruel” e o Cats, assim mesmo em inglês. O resto é para intelectuais.
Pessoa deixou-nos a “minha pátria é a língua portuguesa” e “o poeta é um fingidor” e mais duas ou três do género. O António Variações o “corpo é que paga”, e o Max a “Mula da Cooperativa”, ou melhor o relinchar da mula (as mulas relincham? Sei lá), o Nemésio o “se bem me lembro” naquele sotaque cerrado, Charlot aquele andar, Bogart aquela maneira de falar, o hino nacional o “às armas”. No filme Good Morning Vietnam fica o início da emissão aquele “good morning”
Nas canções percebe-se muito bem como o refrão entra nas nossas cabeças e as anedotas de sucesso fazem-se lembrar sem esforço. As canções de taberna são um excelente exemplo, como no “às armas”, as salas vão abaixo no refrão. Pode não se saber a letra, mas o refrão toda a gente sabe Os corninhos que o ministro fez também são do mesmo tipo e imagino quantos milhares de portugueses, nem que seja para repetir o gesto, têm feito corninhos por estes dias. Eu fiz vários.
O que lembramos numa sociedade dominada pelo espectáculo é o que nos infecta. É como um vírus, nada de muito complicado, nada de multicelular, de corpo grande, apenas pequenos fragmentos de coisas que entram na nossa cabeça e aí se estabelecem firmemente ocupando uma parte da memória muito especial, onde nós coleccionamos refrões, frases assassinas, dedicatórias, títulos, “conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos”, nem sempre certos, ligeiramente misturados, deturpados, e com que se acorda sem se saber como a cantar mentalmente ou a pensar. E depois, infectadi, infecto. Repito a outros que por sua vez vão repetir o mesmo. Influência, é como influenza, a gripe. Nada de muito sofisticado, só eficaz.