José Pacheco Pereira
A entrega da menina russa na televisão
Não há manual de deontologia que não critique em termos absolutos, taxativos, inequívocos, a utilização de crianças na televisão. Podem apagar-lhes pudicamente a cara, como se isso servisse de álibi, mas nem por isso esta peça televisiva deixa de ser miserável na transformação deliberada dum drama pessoal, em espectáculo para gáudio das audiências. Esta combinação de televisão e “populares” já a conhecemos bem, no caso Maddie, no caso Joana, nas tentativas de linchamento à porta dos tribunais ou na polícia. Mas, na verdade, ninguém aprende nada.
Estão recordados do “caso Esmeralda”? Do que se disse, meses a fio sobre o “pai afectivo” e o ”pai biológico”, numa nova linguagem cheia de perversidade e que se presta a todos os abusos, sobre crianças vítimas de uma modernidade que vive do espectáculo mediático e se alimenta do seu próprio efeito? A dança dos intervenientes, dessa nova figura da “fala” televisiva, o pedopsiquiatra, com fugas e contra-fugas de relatórios da assistência social, as contradições e hesitações dos tribunais, as discussões inflamadas nos blogues, nas rádios, os choros dos “populares”, as manifestações de solidariedade de gente que tinha obrigação de ter mais juízo, tudo, tudo, tudo e depois... nada. Onde está “Esmeralda”, para quem o espectáculo feneceu com o fechar das cortinas do interesse público, com o retorno a uma normalidade que todos juravam ser impossível e que deve ter estado a milímetros de o ser?
A pobre menina russa choraria sempre, estivesse lá a televisão ou não, mas não nos pode ser indiferente este voyeurismo tenebroso para que estamos cada vez mais a ser formatados. Não é saudável uma sociedade assim, em que ninguém se interroga ao passar em prime time uma cena de desespero pessoal e familiar, de gente que não está a fazer uma telenovela, mas a viver a sua vida. Se o facto de haver tribunais envolvidos, decisões judiciais, conflitos de interesses, torna matéria pública um drama familiar nestes tempos de distâncias e diversidades, não é certamente por amor à criança que se lhe passa na televisão o choro. Amanhã estará esquecida na Rússia, como “Esmeralda” com seu pai, e ninguém quererá saber dela, porque o interesse informativo esgotou-se. Os holofotes procuram já outra criança, outro drama, para explorar.