José Pacheco Pereira
A agressão a Vital Moreira
A cena de insultos e tentativas de agressão a Vital Moreira é absolutamente condenável, sem nenhum “mas”. Já tive experiência de cenas semelhantes e sei bem como é revoltante tentar transformar a vítima no agressor, distribuir culpas, e na prática, justificar a agressão ou diminuir-lhe o seu significado como agressão, incompatível com quaisquer regras do estado democrático, da liberdade, sequer da convivência social, que tornam a vida pública sadia. Tudo isto foi violado e Vital Moreira é o agredido, e não há justificações que o desculpem, ponto final.
Depois da agressão abriu-se uma outra história, já no domínio do puro político. Vital Moreira fez de imediato a comparação com a Marinha Grande, com o que aconteceu a Mário Soares. A comparação tem algum sentido, mas os comparados não. A candidatura de Soares era um acto de confronto com tudo o que sobrava do PREC, do PCP aos herdeiros dos últimos “socialismos” anti-parlamentares, como era o “pintassilguismo”. Tinha, na primeira volta, um grande significado político de “primárias da esquerda”, e foi, junto com a maioria absoluta de Cavaco, dois anos depois, o momento final de estabilização democrática que permitiu a revisão constitucional que acabou definitivamente com as anomalias do PREC, pernitindo as privatizações.
A candidatura de Vital está longe de ter essa densidade política e é uma triste candidatura defensiva, assente na ilusão, que não sei bem quem teve mas deve ser uma luminária, que com um ex-PCP se apanhavam votos à esquerda. Na verdade, Vital Moreira foi nos últimos quatro anos, um dos mais ortodoxos e agressivos defensores do actual governo e de José Sócrates, muito para além do puro bom senso, como revelou quando no debate da RTP afirmou que “os impostos baixaram”. Desse ponto de vista, da influência à esquerda, está tudo esclarecido.
Depois sobra o aproveitamento político que o PS, consciente de que a campanha de Vital Moreira está a correr mal, tenta fazer do incidente com a cena do pedido de desculpas. Nestas coisas os autores da malfeitoria e o significado do seu acto, ainda por cima filmado com as melhores e mais esclarecedoras imagens de prime time televisivo, são tão evidentes que ninguém tem dúvidas do que se passou. Mas o PS resolveu “usar” o incidente e a partir daí tem sido um desastre todos os dias. Primeiro, concentrou-se no PCP e esqueceu a participação de militantes do Bloco de Esquerda (como aliás faz muita imprensa).

Os blogues ligados ao PCP arderam de fúria com alguma razão e apresentaram, pudicamente tapada, a cara de um dos principais insultadores de Vital, cujo currículo no Bloco é mais que conhecido. Os defensores do Bloco assobiam para o lado e colam-se ao PS na “condenação” do PCP.
Estão bem uns para os outros, mas tornam a intencionalidade política do PS num desastre de explicações e contra-explicações. Na SIC, pode ver-se o muito apagado líder parlamentar do PCP a transmutar-se num leão à solta e a fragmentar em pequenos bocados, um Vitalino que não sabia onde se podia meter. O resultado é completamente contraproducente: a simpatia que Vital merecia, até porque no incidente se portou bem, tornou-se numa antipatia. Hoje, onde chega a sua campanha, há um indesmentível cansaço e a sensação de desgaste é enorme.