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Opinião

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José Pacheco Pereira

A "verdade desportiva"

Pelos meus companheiros da Quadratura do Círculo vim a saber que havia uma petição, abaixo-assinado, campanha, seja lá o que for, do nosso estimável Rui Santos, a favor de uma coisa chamada verdade desportiva. Tudo aconteceu depois de um clube ter ganho a outro devido a uma falta que afinal não foi falta. O humano árbitro enganou-se e depois disse que marcou a falta por “intuição”. Desculpem a minha linguagem um pouco bizarra e certamente imprecisa, a propósito do futebol, mas é matéria que conheço muito mal, embora saiba que o país andou uma semana a discutir a falta.
Presumo que a ideia para garantir a “verdade desportiva” era usar novas e velhas tecnologias para ter a certeza que a falha humana não se repetiria. Colocar-se-iam outros humanos a ver, dez olhos em vez de dois ou quatro, câmaras de vídeo, microchips na bola, células fotoeléctricas, etc, toda a parafernália tecnológica à procura ... da verdade. Em tempos de Plano Tecnológico e com um Primeiro-ministro deslumbrado pelos gadgets, fica bem com a ideologia oficial.


O problema da tribo do futebol é que devia aprender com a tribo da filosofia, imaginem! Os da tribo da filosofia (que jogaram já pela Grécia e a Alemanha nos campeonatos do Monthy Python) sabem que isto da “verdade” é muito complicado. A gente procura no Fenómeno e ela foge para o Nómeno, a gente acha que ela está na Doxa e ela foge para a Episteme e para a Noesis. A gente da filosofia é como o Pôncio Pilatos e pergunta com ar enigmático, ou seja filosófico, “o que é a verdade?” ou “onde está a verdade”? E não há chip na bola que responda, nem duzentos olhos distribuídos pelo campo adiante.




É por isso que a gente do futebol que quer “verdade desportiva” devia era olhar para a CAMBADA. Sim para a CAMBADA, o “Cooperative Autonomous Mobile roBots with Advanced Distributed Architecture”, honra da Universidade de Aveiro e da pátria, que ganharam limpamente e com “verdade desportiva” o campeonato internacional de futebol robótico em 2008 na China. Assim é que é. Não há batota, ninguém se atira para o chão, ninguém engana o árbitro e microchips é que não faltam. E a CAMBADA ganhou por sete a um ao Tech United  da Universidade de Tecnologia de Eidhoven, um resultado semelhante a outro que me lembro de ver andar por aí, “com tranquilidade”, nas bocas do mundo. Foi é noutro campeonato, o imperfeito, o sem “verdade desportiva”, o que mobiliza multidões imperfeitas, jogadores imperfeitos, miseráveis humanos que enganam, se enganam, fazem batota, e enchem as almas de fúria, raiva, paixão, “camisola”. E, acima de tudo, são tão imperfeitos, tão fuzzy logic  que acreditam... na verdade.
 


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