Edson Athayde
Opinião: Too old to rock 'n' roll. Too young to die
"Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir para parar.
Aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida"
(Chacal)
O meu pé esquerdo rebola no vazio. Tenta acompanhar o ritmo e argumentar com o resto do corpo que a idade é uma mera convenção. Não é, responde a cabeça, o tronco e os membros. E, assim, o pé esquerdo segue sozinho no seu baile. Se pudesse, ele dava de ombros. Mas os ombros ficam noutro departamento.
No palco, toca o The Waillers, a banda que acompanhava o Bob Marley. Bem, tendo em vista que os músicos que se apresentam têm pouco mais de 30 anos, suspeito que estou a comprar gato por lebre. No fundo, trata-se de um show de casino made in Jamaica. Finjo que não percebo a patranha e quase que concordo com o meu pé esquerdo. Ajuda um certo aroma que bamboleia pelo lugar e que reconheço dos meus tempos de universidade. Ele, o perfume, fica mais forte sempre que alguém acende aquilo que identifico como um cigarro feito de qualquer coisa, menos tabaco. Deve ser uma versão do Marlboro Lights à base de folhas de alface e canela.
Um velho provérbio húngaro afirma que “há milhares de maneiras de matar um gato, mas só uma dá prazer ao gato”. Da mesma forma, há muitas maneiras de assistir a um concerto, mas estou a tentar lembrar-me daquela que poderia dar-me prazer. Não está fácil. Fico a pensar que poderia estar em casa, debaixo do edredom a ler um livro. Coisa de velho, portanto.
Você já sentiu isso? Uma sensação de incoerência no espaço físico onde se encontra? Como se a sua imagem tivesse sido colada numa foto de um lugar ao qual não pertence? Sinto-me um impostor, no meio de uma rapaziada mais alegre do que eu, mais esperançosa do que eu, mas ingénua e (felizmente) mais ignorante do que eu sobre a vida.
Ser jovem passa muito por aí: não saber. Quem não sabe de nada pode ter certezas sobre tudo. O escritor Nelson Rodrigues dizia: “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência”. Concordo. Só trocaria a palavra “defeitos” por “qualidades”. O sentido final (sendo, rigorosamente, o contrário) acabaria por significar o mesmo.
“Lembras-te, Carlos, quando, ao fim do dia,
Felizes, ambos, íamos nadar
E em nossa boca a espuma persistia
Em dar ao Sol o nome do Luar?
Tudo era fácil, melodioso e longo.
Aqui e além, um súbito ditongo
Ecoava em nós certa canção pagã.
Contudo o azul do mar não tinha fundo
E o mundo continuava a ser o mundo
Banhado pela aragem da manhã…”
(Pedro Homem de Mello)
Ser velho também passa por deixar-se submergir em pensamentos pueris enquanto o reggae corre solto lá fora. Desperto do meu torpor quando a banda entoa “No woman, no cry”. Sobre os versos em inglês, o meu cérebro processa as frases da versão em português, feita pelo Gilberto Gil: “Se Deus quiser, tudo, tudo, tudo vai dar pé”.
O pé da canção recorda-me o meu pé esquerdo. Seja resultado do fumo proibido que abraça o lugar ou de um momento fugaz de senilidade, ao olhar na direcção do pé, nada vejo. Incrédulo, olho para frente e avisto, bailando em cima de uma coluna, os meus tarso, metatarso e cinco dedos inferiores esquerdos. O resto do corpo treme de inveja. Aproveito esse balanço, mando a velhice às urtigas, começo a dançar e concluo: “No baile da vida não é preciso convite para entrar”.
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