Edson Athayde
Opinião: Losing My Religion
O fim de uma banda não é o fim do mundo. Mas anda lá perto. Isto se a banda for mais do que um agrupamento de tipos que tocam e cantam. Se a banda estiver tatuada nas nossas memórias, na MTV dos nossos neurónios.
Coincidência ou sincronicidade, há umas duas semanas, vi na TV o Michael Stipe, vocalista dos R.E.M, a explicar o sentido da expressão “losing my religion”. Afinal, passei vinte anos a assobiar gato por lebre em relação ao refrão da minha canção pop preferida.
“Losing my religion” significa perder a linha, a cabeça, as estribeiras. Nada tem a ver com papas ou rabinos. Aprendi isso e fui dormir. Quando acordei, o Facebook avisou-me que os R.E.M tinham acabado. Justamente na hora em que descobri o que eles tanto me queriam dizer.
“That's me in the corner. That's me in the spotlight”, diz a música. E eu abano a cabeça, não para acompanhar um involuntário passo de dança, mas apenas para consentir. Pois é, aquele sou num canto a pensar como a letra de um tema americano de 1991 tem a ver com este Portugal de 2011.
Estamos todos (uns menos, outros mais) “losing our religion”. Basta abrir os ouvidos nos cafés da cidade. Monotematicamente ruminamos a crise. Atento para o verbo aqui utilizado: “ruminar”. Já nem sequer falamos, gozamos, protestamos, choramos, versamos ou tergiversamos. Cá está, ruminamos. Lá está, eles (preciso dizer quem?) estão tornar-nos ruminantes, como as girafas, os alces e os bois.
Não estou aqui a conclamar o grito. Quase nada tenho de revolucionário. E o pouco que tenho reduz-se à única frase que sei de Che Guevara (um lugar comum, ainda por cima): “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”. Daí que estou a tentar descobrir uma maneira de fazer saltar a tampa, chutar o balde, virar a mesa, perder o siso mas sem perder o riso. Se souber de alguma, avise-me.
Matuto se a solução não passa por não deixarmos que, para além de nos lixarem a vida, também nos amargurem a alma. É uma tarefa árdua, concordo. Mas, das poucas hipóteses, alinho nessa luta. Se é para ser guerreiro, prefiro ser Dom Quixote. Estou à procura de um ou dez milhões de Sancho Pança que queiram, como eu, defender o direito a uma qualquer quimera. Acredite, amigo, para um economista não há nada mais ofensivo do que a poesia.
Ou como diriam os R.E.M, no fim da tal canção: “But that was just a dream/(try... cry... why... try)/That was just a dream,/just a dream,/just a dream, dream...”
Remix da Semana
Uma grande canção pode ter um número infinito de versões. Clique nos links (a vermelho) e descubra algumas bem interessantes para a música que dá título a esta crónica.
- Uma das últimas vezes em que os R.E.M tocaram “Losing My Religion”.
- Quem é Igor Presnyakov? Não faço ideia. Mas o certo é que sua versão para “Losing My Religion”, numa guitarra de três cordas”, é uma das mais vistas no YouTube.
Se você tiver um iPhone, encontrará aqui como montar a sua banda “R.E.M Cover” de bolso: