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Edson Athayde

Edson Athayde: I wish you were here

É ciência, é verdade, está nos livros. 80% das nossas memórias são um resultado do que vemos, daquilo que nos entra pelos olhos dentro. Por isso, cuidado para onde olha. Cuidado com o que vê. Cuidado com o que deixa que lhe mostrem.

Antes de ir de viagem, passeio os olhos pelos sites portugueses de notícias. E pelas redes sociais. Ficam tristes, eles, os olhos. Quanta coisa má, quantas palavras feias para ler: “crise”, “perda”, “compadrio”, “fuga”, “lixo”. Eles, os olhos, suplicam: “Chega, por favor, chega”.

É ciência, é verdade, está nos livros. Os nossos olhos podem detectar dez milhões de tons de cores diferentes. No entanto, há tempos em que tudo o que nos é apresentado é tão cinza, tão negro, tão baço, tão fosco. Dez milhões de tons de cores diferentes… Que desperdício.

Faço a vontade deles, os meus olhos. Aproveito uma viagem para tratar de compromissos e incluo-me fora, momentaneamente, da Europa (ou dessa versão da Europa que hoje temos, para ser mais claro).

Distância não significa alienação. Tenho que admitir, estou no fim do mundo, no deserto do Atacama, mas nas minhas malas, não vieram só roupas. Elas estão cheias de dúvidas e preocupações. Volto? Vale a pena voltar?

Tento jogar a carta do afastamento sabendo que, não sendo solução definitiva, serve para iludir o espírito. Quem sabe, afastado do dia-a-dia, possa ver as coisas em perspectiva. Sem falar que eles, os meus olhos, são tiranos, mandam em mim e estão mal habituados a alimentar-se de horizontes longínquos e poesias bonitas.

Indago-me: não deveriam ser todos os olhos assim? Ou, pelo menos, terem o direito de ser, nem que seja de vez em quando?

Fecho os olhos. Abro os olhos. Olho em volta. Sempre achei que na aridez do deserto não havia vida possível. Coisa de turista burro ou mau aluno de geografia. No Atacama, descubro que a vida é mais forte do que a lógica. Há árvores de pouca altura mas com cinquenta metros de raízes à procura de água. Elas, as árvores, coitadas, não sabem que não deveriam estar aqui. Não percebem que a simples existência delas nos coloca em xeque.

Por que lutam tanto para sobreviver num lugar impossível? Por que não se entregam num Outono qualquer da alma, ressecando a pouca seiva que lhes resta? A metáfora é óbvia. Os meus olhos confessam que eram aquelas improváveis árvores a razão da minha viagem. Volto. Vale a pena voltar.

Não é ciência, não é verdade, não está nos livros: o que os olhos vêem, o coração sente. Contemplo o pôr-do-sol no Vale da Lua, a 2.500 metros de altitude. Mais do que uma paisagem, eles, os olhos, procuram um instante de calma para me oferecer. E encontram. É a hora em que, num iPod imaginário, soam os primeiros acordes de um velho tema dos Pink Floyd e, sinceramente, penso:

“I wish you were here”. Sendo que o “you” tem o tamanho de um país inteiro.

Remix da Semana

- Uma semana no deserto do atacama é uma coisa difícil de descrever em palavras, por isso segue o link para algumas fotos que fiz por lá.

- “Que bom. Há tantos lugares para ir…” Um dos últimos (e mais belos) textos do escritor americano Dr. Seuss reinterpretado por uns tipos muito loucos.

- O mundo mágico dos livros numa livraria além da imaginação.

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