José Pacheco Pereira
Dilemas da história oficial
Na Rússia não é nada de novo. Nem antes, nem depois da revolução de 1917. Nem com os eslavófilos anti-ocidentais, nem com os comunistas. Mas não devia continuar depois do fim do regime comunista e nos primeiros passos para a democratização da Rússia. Mas há coisas que muito dificilmente mudam, a começar pelo controlo estatal da verdade histórica.
Em Maio deste ano, o Presidente Medvedev assinou um decreto criando uma comissão “ para contrariar as tentativas de falsificação da história em detrimento dos interesses da Rússia”. Só o nome da coisa já devia levantar todos os sobrolhos num país em que existiram mais de setenta anos de história “oficial” imposta a Gulag e pena de morte. Parece que a gota de água, se é que na Russia de Putin – Medvedev seria necessária uma gota de água para uma medida que tão bem encaixa na mais recente evolução política, foi o tratamento dado no Ocidente a aspectos até agora ocultados, ou pouco falados, da participação russa na II Guerra Mundial.
Parada da Vitória de 2009. O papel simbólico da vitória na II Guerrra Mundial é central na legitimação do estado russo.
Deve dizer-se que este mesmo tipo de censura, exercida com eficácia mas sem a possibilidade do Gulag, existia nos meios académicos e jornalísticos ocidentais, imposta pelas esquerdas comunistas e pelos seus “companheiros de estrada”, e que tornava incómodo falar de vários eventos que ocorreram “em detrimento dos interesses da Rússia”, então URSS e do movimento comunista internacional. Um exemplo típico foi a ocultação quase total das violências cometidas pelas tropas soviéticas vencedoras na Alemanha, em particular a violação em massa das mulheres alemãs, permitida, consentida, quando não instigada pela cadeia hierárquica do exército vermelho. Como com o holocausto ,conhecem-se casos de oficiais e de soldados que se comportaram como os “justos” que protegeram os judeus, mas são a excepção. A regra foi uma vingança de dimensões épicas que puniu os alemães nas zonas de ocupação soviética. A violação é um crime de que as vítimas falam pouco, mas esse indizível permaneceu fora dos crimes de guerra cometidos nesses anos de “guerra total”.
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Medved vai dar muito trabalho à sua comissão, a começar pelas coisas mais básicas como a célebre fotografia de Yevgeny Khaldei do hastear da bandeira soviética no edifício do Reichstag. Na vida real, não foi como na fotografia. Ela teve que ser retocada para esconder o facto de o soldado ter vários relógios no pulso, resultado do saque então em curso em Berlim. E um bom soldado soviético não pode parecer um saqueador vulgar, não é verdade Presidente Medvedev?