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Opinião

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José Pacheco Pereira

Citações do presidente Salazar


No meio deste surto de Salazar nas livrarias, nos vídeos e, a prazo chegará ao cinema, apareceu nas livrarias um livro preto de citações do presidente Salazar. Não se chama assim, porque seria muito maoista e lembraria o Livro Vermelho de Citações do Presidente Mao Zedong, mas não estão tão distantes um do outro como possa parecer.


Mas, dito isto, é de leitura obrigatória, e sabem que quem recomenda esta leitura não tem qualquer visão idílica do ditador, nem sequer as que correm hoje, revistas pelo tempo e traidoras à memória. Eu sei muito bem quem foi Salazar e o que significou a longa ditadura de 48 anos, fonte de muitos dos nossos atrasos e, pior do que isso, dos nossos piores atavismos, que ou fomentou ou gerou. Mas nenhuma história é a preto e branco, nem sequer linear, e Salazar não é a encarnação do Mal, e se o é, muito do mal também era nosso, dos portugueses, do país, da nossa complacência nacional. Isso não o desculpa, mas ajuda a explicá-lo.

Uma das coisas interessantes das citações, que são sempre ilusórias, porque seleccionam o melhor e deixam pelo caminho, muita rama inútil, onde se esconde muita asneira, é revelarem o Salazar agudamente conhecedor do seu país, dos portugueses, inteligente até dizer não, e cínico até dizer sim e não e talvez. Cínico como poucos, e é no seu cinismo que mais brilha a inteligência e o conhecimento. Veja-se o que escreve sobre os jornais, a censura, a propaganda e como Salazar parece um teórico actual do marketing político. Com palavras dele, escreveu António Ferro:

a opinião pública é indispensável ao governo dos povos, constitui por vezes um grande estimulante, mas nunca se deve perder, a bem da sua própria saúde, o controle da sua formação

E suspeito que o nosso Primeiro-ministro pensa exactamente o mesmo.



Claro que o que “parece, é”, mas o problema é que o “parece” acaba por ser puído pela realidade, sejamos nós capazes de ter ainda uma remota relação com ela. Veja-se o célebre discurso do “não discutimos”. “Não discutimos Deus e a virtude”, “não discutimos a autoridade e o seu prestígio”, etc, etc, A verdade é que o “não discutimos” acabou por ser no quotidiano uma outra coisa. A Censura encarregava-se de que não “discutíamos” a pobreza, a miséria dos “indígenas” das nossas colónias, a circulação entre os governantes e as grandes empresas (ainda hoje há quem acredite que no tempo de Salazar não existia...) , a corrupção, a repressão, e a míriade de pequenas coisas, a pederastia, as violações, os “acidentes com armas de fogo” (vulgo suicídios), a incúria pública que gerava acidentes mortais, as prepotências contra os trabalhadores, a africana taxa de mortalidade infantil, o reino infinito das cunhas, etc, etc. E certamente que nos impediria de ver no filme de propaganda acima, que as tropas parecem de opereta, e o melhor sinal do “progresso do país”, são uns guindastes que os alemães tiveram que nos dar para reparação de guerra, obra dos negregandos republicanos de antes do 28 de Maio.

As citações são muito interessantes e quase sempre certeiras, mas Salazar era mais do que as suas citações, era o poder de as impor pela força, num reino mais de fancaria do que de gloriosa Nação, que não podíamos “discutir”.


Comentários

11 de Abril 2009 - 19:50

Antonio Malhado

Concordo, quem oiça pela 1ª vez este vídeo, parece sentir no discurso de Salazar segurança e convicção naquilo que acreditava, na sombra estava a censura e a repressão. Sobre um livro "gestos", provávelmente diria que Salazar era seguro no que dizia, Hitler treinava ao espelho a sua imagem, erguia os dedos em público e era vigoroso nos comícios. Por cá também se usa essas tácticas para fingir que são seguros, basta ver alguém do governo de Portugal a imitar tais tiques.





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