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Reportagem: Sentaram-se e riram (vídeo)

02-07-2011

Por Rita Bertrand com imagem e edição de Bruno Vaz

Não há quem não goste de rir – e será por isso que os humoristas portugueses têm trabalho de sobra. Tanto que as suas agendas sobrecarregadas de spots televisivos, espectáculos e afins dificultaram o encontro de alguns para uma conversa descontraída sobre comédia. Mas conseguimos! E, assim, antecipamos a primeira edição do Famous Humour Fest, o festival de humor que promete encher de gargalhadas o Cinema São Jorge, em Lisboa.

O vosso humor parte das misérias humanas, de figuras da sociedade. Quais são as mais gozáveis?
Aldo Lima: Eu adoro os macios, aqueles tipos para quem uma grande noitada de galhofa é beber meio copo de vinho e dar uma quase gargalhada.

Eduardo Madeira: Tipos como tu, não é? Que jogam golfe, têm dinheiro e falam de Porsches.

A. L.: Epá, desde que eu jogo golfe há cada vez menos desses, que eu tento acertar-lhes com a bola. Ahahah!

Esperem lá, estão a falar dos ricos?

A. L.: Nãaaa, há ricos que não são macios. Sabem viver e rir-se deles mesmos.

Pedro Fernandes: Como tu, Eduardo?

E. M.: Que remédio, eu sou um bronco! Não há vez nenhuma que eu suba ao palco e funcione tudo. Ou é o micro ou a guitarra ou eu a tropeçar nos fios...

A. L.: É uma tristeza, realmente, ver-te em pânico! O que te vale é que as pessoas acham que faz parte do número...

P. F.: Que trapalhada! Mas isso deixa-me contente. Quer dizer que eu talvez tenha hipóteses neste ramo. Vocês, que são veteranos, bem que me podiam dar uns conselhos!

E. M.: A atitude é o essencial, a forma como dizes as coisas.

A. L.: Verdade, mas não julgues que há fórmulas. Há piadas que funcionam uma noite e na outra já não. Muda se estiveres no Norte ou no Sul, por exemplo. Vais testando em salas pequenas e percebes que uns momentos que estavas para tirar, porque ninguém achou graça, afinal são os mais divertidos na noite seguinte. É tramado, pá!

E impõem-se limites?

A. L.: Eu faço humor com qualquer tema, mas tenho um filtro para as boas piadas: chama-se bom senso. É uma fronteira.

P. F.: Pois, ainda ninguém fez piadas com a Sónia Brazão...

E a crise, ajuda ou nem por isso?
A. L.: Há mais tendência para fazer rir em tempo de crise. Mas o que é porreiro é que Portugal está em crise há séculos! Desde que D. Pedro foi para o Brasil, começou tudo a correr mal.

P. F.: E o que corre mal dá pano para mangas.

E. M.: É. Desde essa altura que o Rio de Janeiro devia ser a capital do País. Aproveitando que tínhamos lá aqueles terrenos.

A. L.: O cacilheiro é que ficava um bocado caro...

E. M.: Por mim, seria perfeito. Toda a gente sabe que o Brasil é a maior obra portuguesa.

A. L.: O Brasil e o Aqueduto das Águas Livres, construído com o dinheiro do Brasil!

E. M.: E o Carnaval? Não se vê que é filho das Marchas? Passaram aquilo para Fevereiro porque o tempo é melhor para as miúdas andarem descascadas...

Por falar em miúdas, homens com piada têm mais êxito?

A. L.: Ora, ora, essa coisa que todas as mulheres do mundo dizem, que o que mais as atrai é o sentido de humor, é a maior mentira de todos os tempos!

P. F.: Porque dizes isso, pá?

A. L.: Se assim fosse, eu andava aqui magrinho, magrinho... de tanto comer gajas!!!

E. M.: Mas tu estás magro...

A. L.: Ahahah! Correu-me tão bem, esta piada...

Mas é um trunfo para conquistas?

E. M.: Elas só acham graça no primeiro mês. Depois começam a queixar-se. Estamos a tentar ter piada e elas acusam-nos de estar a implicar com tudo...

A. L.: Confirmo. O melhor é ter pose de professor de matemática logo de início!

E. M.: Isso mesmo. E nada de piadas em casa. Se querem humor, elas que paguem bilhete, como os outros.
Luís Filipe Borges Concordo! Os amigos verdadeiros não nos pedem para animar as suas festas, têm noção que isso é trabalho. Mas outras pessoas não entendem.

A. L.: Pois, é deprimente pedirem-me para ter piada quando não estou a trabalhar.

E. M.: Podes crer, há um lado mau. Às vezes só queremos ser pessoas comuns e não nos deixam. Alguém pede a um mecânico, a meio de uma festa, para ir verificar o óleo do seu carro?

L.F.B.: Exacto. Não nos contratam, não tencionam pagar-nos, mas se nos recusamos a contar umas anedotas porque estamos de férias ficam ofendidos!

E não há humoristas a mais?

A. L.: Há é empresas de telecomunicações a menos, para nos pagarem para fazer rir!
E. M.: Agora a sério: nós temos sempre trabalho, portanto...

Perfis

Eduardo Madeira: 
É um artista frustrado: “O que eu queria mesmo era ser uma rock-star!” Mas é como humorista que ganha a vida. E não se tem safado mal. “Esta coisa de fazer letras cómicas e cantar até funciona”, admite. Ao palco, leva um 50-50: 40 minutos de material inédito e outros tantos com um best of de carreira.

Aldo Lima: Faz stand-up comedy de estilo clássico, na pura tradição anglo-saxónica, a sós com o microfone. É o nosso Seinfeld e não tenciona mudar de fórmula, nem neste festival nem nunca: “É o que gosto de fazer.” Nunca contou uma anedota na vida: “Digo o que penso. A brincar, falo do mundo, das parvoíces das pessoas... e de mim.”

Pedro Fernandes: É mais um aspirante do que um humorista encartado, que tem dado nas vistas no “5 Para a Meia-Noite” pela descontracção, que agrada sobretudo aos jovens. Vai ao festival como anfitrião de Luís Franco Bastos e Bruno Nogueira. “Ninguém vem para me ver. O meu único objectivo é não estragar o serão”, diz.

Luís Filipe Borges: Também conhecido como “O Boinas”, foi mentor de “A Revolta dos Pastéis de Nata”, “Sempre em Pé” e “5 Para a Meia-Noite”, na TV. Mas também faz stand-up comedy. “Estou nervoso com o festival, pois é a primeira vez que o faço em Lisboa. Temo que o público não me ache graça, mas na província tem corrido bem.”

O Programa completo

Sexta, 1 de Julho
São Jorge 1 | 21h30 | Pedro Fernandes (hoster), Bruno Nogueira e Luís Franco Bastos | € 20
São Jorge 2 | 23h30 | António Raminhos e Tocha Pestana | € 8 (em pé) e € 12 (sentado)
São Jorge 3 | 22h00 | Ciclo de cinema, apresentado por Rui Pedro Tendinha: “Submarine”, comédia do humorista inglês Richard Ayoade | Grátis

Sábado, 2 de Julho
São Jorge 1 | 19h00 | Salvador Martinha, Eduardo Madeira e Aldo Lima | € 15 | 22h30 | Commedia A La Carte | € 15
São Jorge 2 | 21h30 | O Humor e Tal: conferência de Nuno Artur Silva | Grátis | 23h30 | Luís Filipe Borges e Voodoo Marmalade | € 8 (em pé) e € 12 (sentado)
São Jorge 3 | 18h00 | Ciclo de cinema: antestreia de “Bridesmaids – A Melhor Despedida de Solteira”, de Paul Feig | Grátis

Domingo, 3 de Julho
São Jorge 1 | 19h00 | Men In Coats (comédia britânica) | € 12 | 21h30 | Nós É Mais Bolos: conversa sobre comédia, com Herman José e Nuno Markl | € 20
São Jorge 3 | 18h00 | Ciclo de cinema: curtas e previews | Grátis | 20h00 | “Ser Sisudo não é Sinal de Competência, é só Sinal de que se é Sisudo”: palestra de Pedro Tochas | € 12

E ainda...
Workshops grátis (inscrições na página do Facebook do patrocinador, o whisky escocês The Famous Grouse) no Ateneu Comercial de Lisboa:
Vozes, com Bruno Ferreira sáb. às 10h
Escrita Criativa, com Luís Filipe Borges sáb. às 15h
Maquilhagem, com Sérgio Alxeredo dom. às 10h
Humor Físico, com César Mourão dom. às 15h
Exposição nas vitrinas do São Jorge
Fotos humorísticas de figuras públicas em situações encenadas, por João Cupertino. Com: Jel como agente imobiliário à frente da Assembleia da República, com uma tabuleta a dizer “Já Era!”; Paulo Bento a fazer o seu emblemático risco ao meio no barbeiro; Sofia Aparício tornada “calendário de carne e osso”, toda nua, num talho; Miguel Guilherme a proteger-se de uma tempestade de bizarros objectos com um guarda-chuva; e José Luís Peixoto, e Bruno Nogueira – e mais surpresas.

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