Reportagem
As aventuras de um candidato a futebolista (vídeo)
30-01-2012
Por Tiago Carrasco e imagem de Bruno Vaz
A minha única experiência no futebol aconteceu quando tinha 12 anos. O meu pai levou-me aos treinos do Oriental, em Lisboa. Havia 60 miúdos para 20 lugares e eu, apesar de ser um dos mais pequenos, disse que queria jogar a ponta-de-lança. Fui testado nessa posição, mas depois de falhar um golo de baliza aberta o treinador pôs-me a lateral-direito. No fim, fui dispensado e decidi passar a minha adolescência a jogar basquetebol.
Dezassete anos mais tarde, voltei a tentar ser futebolista, inspirado no exemplo do francês Buval, que depois de ter estado uma semana a treinar à experiência no Feirense (12.º classificado da I Liga) foi inscrito pelo clube e marcou quatro golos em três jogos – foi eleito pelo Sindicato de Jogadores o melhor de Dezembro.
Para ganhar currículo, decidi começar por baixo: escolhi o Malveira da Serra, o último classificado da II Divisão Distrital de Lisboa, com um empate e 14 derrotas. Um telefonema para o número geral do clube bastou para que me autorizassem a ir treinar à experiência.
O campo de relva sintética, sem bancadas, fica num ermo, no Parque Natural de Sintra-Cascais. Cheguei já equipado, para não lhes dar hipótese de mudarem de opinião. Apresentei-me ao treinador e comecei a fazer os exercícios. Na peladinha, o míster Ricardo Pedro colocou-me a extremo-esquerdo e as minhas primeiras intervenções foram desastrosas: dois maus passes e um sprint miserável atrás de um adversário 10 anos mais novo do que eu. Já perto do fim tive uma oportunidade de golo, mas rematei tão por cima que a bola se perdeu na mata atrás da baliza.
Não estava preparado para o que se passou a seguir: 120 abdominais e 50 flexões, que me deixaram à beira do colapso. Talvez por isso não celebrei como devia o facto de me terem autorizado a voltar no treino seguinte.
Nessa sessão, treinámos remates e em 20 pontapés o melhor que consegui foi acertar na barra da baliza. No fim, admiti que era jornalista e que nunca tinha jogado à bola. “Olha que há para aí uns piores do que tu”, disse o treinador Ricardo Pedro, de 26 anos, que também é advogado. Perguntei-lhe se me deixaria ficar a treinar. “Não havia problema”, respondeu. “Mas achei muito estranho teres telefonado. Quando alguém quer treinar à experiência aparece aqui, não liga para a sede.” A seguir, fui tentar a I Divisão Distrital. Escolhi novamente o último, o Bobadelense, com duas vitórias e um empate em 17 jogos. Tinha havido chicotada psicológica e o treinador estava no balneário a despedir-se do plantel. Disseram-me para voltar dali a dois dias.
Antes do treino, o treinador adjunto perguntou: “Estás a ver aquele prédio?” – e apontou para um edifício alto. “Foi ali que sempre viveu o Jorge Mendes [empresário de, entre outros, Cristiano Ronaldo e José Mourinho]. Às vezes, ainda aparece aqui no campo.” Ali estava um excelente factor de motivação. Se jogasse bem e o Jorge Mendes fosse à varanda, talvez ainda acabasse no Real Madrid.
A sessão começou com uma palestra sobre a mudança. O novo técnico era Marco Mesquita, que estava a treinar os juniores e tinha levado o Bobadelense à I Distrital na época passada. A seguir, os jogadores, em círculo, iam decidir se Albano, que saíra da equipa por divergências com o antigo treinador, podia regressar. “Mano, tu fora de campo és cinco estrelas, dentro de campo és uma mais-valia, mas se vieres com as atitudes da pré-época, com as tuas azias por ires para o banco, prefiro que não voltes”, disse o capitão, Edi. Albano confessou: “Eu sei que errei, mas não suportava o míster.” Por fim, lá decidiram perdoar a Albano, que se foi equipar.
Nos sprints, depressa percebi que era o mais lento. Mas nos exercícios de contra-ataque desforrei-me e fiz duas assistências perfeitas para golo. Olhei para a varanda de Jorge Mendes: não estava lá ninguém.
Na peladinha, o treinador Marco Mesquita atribuiu posições a toda a gente e esqueceu-se de mim. “Ficas a médio-defensivo. Não há ninguém nessa posição”, disse um dos defesas. Contei os elementos da minha equipa e éramos 12. Só pela vantagem numérica é que devo ter conseguido fazer aquelas duas boas recuperações de bola.
“Quando um tipo vem treinar à experiência, tem de ser descarado, procurar a bola, mostrar-se”, disse-me o médio Xuxa, que nos infantis do Sporting jogou com Cristiano Ronaldo. “Não podes andar aí a tentar fintar toda a gente que levas logo uma cacetada.”
Decidi então atacar a III Divisão nacional. Escolhi o Despertar de Beja, com três empates em 15 jogos. Telefonei e falei com o presidente, Mariano Baião. Disse-lhe que tinha jogado no Malveira da Serra e no Bobadelense e que ia mudar-me para Beja, por isso gostava de tentar aí a minha sorte. Ele respondeu-me: “Venha já hoje e, se mostrar valor, podemos inscrevê-lo até ao fim de Dezembro.”
À minha espera estavam já o presidente, Mariano Baião, e o treinador, Filipe Felizardo. O dirigente dissera ao técnico que aguardava um novo jogador vindo de Lisboa, que podia ser craque. Perguntaram-me qual a minha posição: “Trinco”, respondi. “Sou um jogador mais defensivo.”
A palestra inicial girou em torno da má pontuação. Felizardo até colocou o lugar à disposição, mas nem os jogadores nem o presidente aceitaram. Na pré-época perdeu oito titulares para outras equipas com mais dinheiro, uma vez que o Despertar de Beja paga em média apenas 150 euros mensais por atleta. “A despromoção já é certa, mas temos de continuar a lutar pela primeira vitória no campeonato”, disse o treinador.
Fiz os meus primeiros golos no exercício de finalização e, apesar de estar sempre a escorregar com as minhas botas de pitons de borracha (impróprias para a relva verdadeira do campo de Beja), sentia-me confiante. Logo a seguir, fez-se um jogo em meio campo entre os jogadores mais velhos e os mais novos. Quando me perguntaram a idade e respondi “29”, percebi que era o velhadas do grupo.
Tive oportunidade de marcar um golo, mas rematei com tão pouca força que o guarda-redes até teve tempo de parar a bola com o pé. “Míster, troque de bola que esta está vazia”, gozou um dos meus colegas.
Depois do Despertar de Beja, decidi continuar a subir nas divisões. Tentei o Caldas, último da Zona Sul da II Divisão B, com duas vitórias e três empates em 16 jogos. Soube que três dos habituais titulares haviam sofrido lesões graves no início da época e por isso era normal o clube querer reforços.
Pelo telefone, combinei com o treinador Gila apresentar-me 30 minutos antes do treino para uma conversa sobre as minhas qualidades futebolísticas. Felizmente, cheguei em cima da hora. O treinador pôs-nos a correr à volta do campo. À 10.ª volta comecei a respirar com dificuldade e a atrasar-me do grupo. Mais tarde, Hugo Morgado, um dos médios da equipa, confessou-me que chegou a ter medo que eu tivesse um ataque cardíaco. E disse-me: “Safaste-te melhor nos exercícios com bola do que no aquecimento. Pelo menos, jogavas sempre ao primeiro toque. Já apanhámos aqui tipos que só querem fintar.”
O nível técnico da II Divisão B era alucinante para mim. No fim do treino, contei que afinal era jornalista. Miguel Silva, um dirigente do clube, não se conteve: “Eu sabia. Até tinha apostado com outros dirigentes que lhes pagava um almoço se você fosse um futebolista a sério. Eu disse logo que você era como os cromos que vão cantar ao Ídolos.”
Voltei Às caldas da rainha para um segundo treino, para fazer um vídeo. Cinco minutos depois de começar, fiz um sprint e senti o músculo da coxa rasgar. Fui assistido pela médica e pelo massagista: puseram-me gelo e diagnosticaram-me uma microrrotura.
Apesar de ter de parar duas ou três semanas, decidi fazer mais uns contactos, desta vez nas ligas profissionais, para perceber que hipóteses teria. Como o Belenenses está a fazer uma má época (é 13.º na Liga de Honra), falei com o director-desportivo, Marco Paulo. “Tem de enviar-me um DVD com imagens suas em jogo e, de preferência, o seu currículo e o contacto do seu agente”, disse.
Vi o Benfica a golear a União de Leiria (4-0) e no dia seguinte contactei o treinador Manuel Cajuda, que devia precisar de reforços. Disse-lhe que jogava a médio ou extremo. Ele ouviu e respondeu: “Temos os extremos fechados. Como deve ter visto contra o Benfica, precisamos é de um central e de um ponta-de-lança.”
Li então num jornal que o Feirense tinha no plantel dois futebolistas alemães oriundos de divisões inferiores a treinar à experiência. Telefonei a Quim Machado, treinador do clube. Quando me perguntou a posição disse-lhe que jogava a defesa ou médio. Ele respondeu: “Nós estamos à procura de um ponta-de-lança, alguém do género do Buval.” Falei com o presidente, Rodrigo Nunes, para saber como convencer um clube de topo a abrir-me as portas. “Tem de apresentar um currículo a dizer onde jogou nos últimos tempos. Um jogador até pode ter um bom currículo, mas se na última época esteve sem competir, nós desconfiamos, porque pode ter tido lesões graves”, disse. “No caso do Buval, como em qualquer outro, pagámos-lhe a estadia em Santa Maria da Feira durante duas semanas – o tempo necessário para ele nos convencer.”
Por fim, e como o Sporting entre Dezembro e Janeiro esteve seis jogos sem ganhar, decidi ligar para o treinador, Domingos Paciência. O clube tem falta de um médio-defensivo, devido à lesão de Rinaudo, por isso disse-lhe que era essa a minha posição. “Como deve calcular, não posso abrir assim as portas a toda a gente que me telefona e manda emails. Até porque tenho a imprensa nos treinos e isso ia gerar estranheza”, respondeu.
De seguida, pediu-me para lhe mandar um DVD com imagens minhas em campo. “Para a próxima época?”, perguntei. “Não, até pode ser para já, tem é de mandar o DVD e esperar que o contactemos.” Infelizmente, o único vídeo que tinha era o da minha ridícula lesão muscular no Caldas.