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As polémicas de Avelino

27-03-2009

Na sessão em que foram ouvidas as alegações finais, o procurador do Ministério Público (MP) afirmou terem sido provados durante o julgamento quatro crimes - corrupção, peculato de uso, abuso de poder e extorsão. O  tribunal do Marco de Canaveses absolveu Avelino Ferreira Torres de todos os crimes de que era acusado. A SÁBADO passou dois dias com o ex-autarca. Texto de Tânia Pereirinha
 
Avelino Ferreira Torres é um homem à moda antiga. Apesar de ter em seu nome contas, cartões e cheques, não há nada que prefira ao dinheiro vivo. No passado sábado, 10 de Setembro, o “senhor presidente” (como por aquelas bandas todos lhe chamam) chegou pontualmente ao restaurante O Príncipe, no centro de Amarante. Eram 12h30. Tinha acabado de passar pelo multibanco. O maço de notas que levantou, e que juntou às que já trazia no bolso, impunha respeito.
Antes da refeição, o aviso: “Vamos almoçar com duas pessoas mas só uma é que pode ser fotografada.” E mais Avelino não disse: os nomes dos comensais nem sequer chegaram a ser mencionados. Um foi apresentado como “arquitecto”; o outro, o tal que tinha de se manter longe das objectivas, como “engenheiro”.
Porque à tarde havia acção de campanha numa das 30 freguesias do seu concelho natal e a cuja câmara agora concorre, as tripas à moda do Porto foram engolidas depressa e não houve oportunidade para grandes conversas. Com Avelino sempre a marcar o ritmo (“Vamos a despachar que não temos muito tempo”), vieram as sobremesas, os cafés e os palitos. Depois, foi sair porta fora que as gentes de Olo e os bombos e zés pereiras de Santo Estêvão já estavam à espera.
Foi ao agarrar no puxador da porta do BMW X5 de Ferreira Torres que deu para perceber que, afinal, a paragem seguinte não era a pequena freguesia rural. O “engenheiro”, com o ar mais natural do mundo, foi quem deu a notícia, quando já Avelino e o “arquitecto” arrancavam a todo o gás: “Vocês agora vêm comigo.” Tudo bem, a primeira separação em quase 24 horas é sempre dolorosa, mas a viagem não devia ser tão longa quanto isso. Acabaram por ser cinco minutos, não mais. O BMW todo-o-terreno do protagonista de uma das candidaturas mais polémicas destas eleições autárquicas já estava de volta e a parar ao lado do BMW clássico do “engenheiro”. Nova troca de boleia: “Ora então, adeus! Muito gosto em conhecer-vos”. Assim, sem quê nem para quê.
Em Amarante, e passe o sacrilégio, quem está com Ferreira Torres está com Deus. Além de não passar despercebido em parte nenhuma, o autarca é altamente requisitado. Seja pelos populares, que, sobretudo em tempo de campanha eleitoral, não abdicam de uma visita do “senhor presidente” à sua casa (só para dar uma ideia, no sábado de manhã, debaixo de uma chuva diluviana e durante uma acção de rua na freguesia de Cepelos, o carro do movimento Amar Amarante foi literalmente abalroado pela eleitora Maria do Céu, que queria a todo o custo saber por onde andava Avelino e porque não tinha ido ele ainda passar à sua porta), seja pelos homens de negócios, que não deixam de lhe pedir conselho sempre que surge um problema ou oportunidade de fechar contrato.
 
Na sexta-feira anterior, dia 9, pouco passava das 16 horas quando Avelino Ferreira Torres recebeu mais uma destas últimas solicitações. O homem vinha impecavelmente vestido (fato cinzento com riscas mais escuras) e solicitou uma audiência que, de certeza, já estaria combinada há mais tempo. Afinal, Ferreira Torres estava em Rebordelo, freguesia amarantina em que nasceu há 59 anos (a umas boas dezenas de quilómetros do centro da cidade) e onde está, no frenesim da candidatura à Câmara Municipal, a construir um casarão. Ninguém encetaria uma viagem tão cheia de curvas e contracurvas se não tivesse a certeza do que iria encontrar. O senhor do fato cinzento, veio a perceber-se depois, sabia.
Chegou cuidadoso, pé ante pé, e saiu sorridente: “Adeus, boa tarde! E desculpem o tempo que lhes roubei com o senhor presidente.” À despedida, e à laia de quem pisca o olho, Ferreira Torres lá rematou (agora para quem quisesse ouvir) com um conselho que não se cansou de repetir ao longo de dois dias: “Já sabe: é à esterlinguemosse”, que é como quem diz “rápido e sem ondas”. Ou seja, à Stirling Moss, o famoso automobilista que, nas décadas de 50 e 60, limpava tudo o que eram grandes prémios de Fórmula 1. Avelino Ferreira Torres é o primeiro a admitir: “Não percebo nada de inglês.” Pelo sotaque e não só, a tese confirma-se. A sua língua preferida é outra.
Religioso, o autarca assumidamente populista e que até participou num reality show começa os dias todos da mesma forma. Acorda cedo, às seis da manhã e sempre uns minutinhos antes de o despertador tocar, toma um Guronsan, para poupar o fígado (cuidado de quem vive sem estômago há mais de 20 anos), devora o pequeno-almoço, uma reminiscência de ter crescido como um de 17 irmãos numa casa onde os recursos eram escassos (“Quem comesse mais rápido talvez ainda pudesse repetir”) e sai porta fora. Destino: a capela que mandou construir na sua vivenda, ou chalé, como carinhosamente lhe chama, no Marco de Canaveses (ver infografia). “Rezo todos os dias o terço e ao sábado o rosário, que demora mais de uma hora”, conta. As idas à missa dominical é que não são tão frequentes: “Só vou de vez em quando. Para fazer as minhas orações e os meus pedidos não preciso de ir à igreja.”
 
Os seus apoiantes de Amarante também não. Até porque Ferreira Torres só não satisfaz os seus desejos se não puder. Os elementos do rancho de Vila Meã, que na sexta-feira à noite o convidaram para um jantar de bacalhau assado com batatas a murro, que o digam. Ao telemóvel com Assunção, a sua chefe de gabinete há 22 anos, o autarca certificou-se antes de chegar à sede da colectividade, noutra das freguesias de Amarante, de que aquele rancho era o tal: “Esses são aqueles a quem eu paguei a viagem a França?” Apesar de não dar para ouvir a resposta, bastou estacionar em Vila Meã para perceber que sim, eram mesmo eles.
Antes da jantarada, as reclamações. Que precisavam de uma sede nova e o actual presidente da câmara, o socialista Armindo Abreu, lhes tinha dito para a pedirem a Ferreira Torres. Assim como assim, o agora candidato independente já tinha financiado duas viagens do rancho a França e por isso não se importaria de gastar mais umas centenas de euros com o grupo, deve ter pensado o socialista. O despeito, aparentemente marca comum a todos os seus antagonistas, acabou por lhe sair caro. Pelo menos ali, 50 votos já estão garantidos. E isto sem contar com os familiares e amigos dos elementos do rancho. O cheque do Finibanco que Avelino passou, antes de jantar, em nome do grupo, e que segundo o seu inchado presidente veio acabar com todas as dívidas da colectividade, terá certamente o seu peso na orientação das cruzinhas marcadas por muito boa gente no próximo dia 9 de Outubro. Há quem ofereça frigoríficos. Avelino dá aquilo que as pessoas verdadeiramente precisam.
A população de Vieiros, freguesia em que o autarca chegou a trabalhar, nas minas de volfrâmio, tinha um pequeno altar, já pintado e tapado com placas de vidro. Faltava apenas algo para lá pôr dentro. Não esperaram muito. Na sexta-feira à tarde, o autarca, agora acusado por um ex-colaborador de corrupção no Marco de Canaveses, fez uma aparição rápida na freguesia. Cinco minutos bastaram: ficou a imagem do Sagrado Coração de Maria, seguiu um coração reconfortado com a certeza de ter arrebanhado mais um punhado de votos. Excesso de confiança? Se dúvidas houvesse, os sorrisos desdentados das gentes da terra e o trautear da menina loira de 2 anos, ao colo da mãe (“Ferreira Torres, és o maior, Ferreira Torres, tu vais ganhar”) estavam lá para o comprovar.
A táctica só tem vantagens: além de sair mais barata do que as viagens de helicóptero oferecidas na pré-campanha aos amarantinos, sempre se poupa ao martírio que é para ele voar. “Tenho medo de alturas, não posso ver sangue e, sempre que passam imagens de miséria na televisão, tenho de mudar de canal”, desfia o autarca, pondo a nu as suas fraquezas. Todas recentes: “Não sei o que me aconteceu, mas só desde há uns anos é que estas coisas me incomodam.”
 
Essas não foram, porém, as únicas coisas que mudaram. Este é um novo Avelino Ferreira Torres, é o próprio quem o garante. As noitadas de sueca na sede do CDS, que invariavelmente acabavam com a sua chegada a casa carregado de doces (“Jogávamos a chocolates”), já lá vão. E as tardes que pegavam com as madrugadas no Café Conselheiro de Amarante, a beber cerveja e a petiscar, também. “Uma vez, estávamos a beber príncipes à porfia: quem não conseguisse beber o copo todo de uma vez tinha de pagar a rodada seguinte. Eu bebi tanto que à noite, quando peguei no carro, decidi que tinha de ir até casa sem pôr as mãos no volante. Fui até lá sempre a conduzir com os joelhos”, recorda divertido.
Hoje, também porque a ausência do estômago a isso obriga, não bebe álcool nem café. “O médico até me aconselha a beber um copo de tinto maduro à refeição, mas eu, como forma de autocontrolo, não o faço.” O temperamento explosivo é a sua pior característica e o autarca tem noção disso. Ferve em pouca água (sexta-feira, porque não conseguia acertar com os botões do jipe e parar os limpa-pára-brisas, estava à beira de um ataque de cólera), recusa-se a esperar por alguém mais do que 15 minutos e fica “mosca” quando o aldrabam. Não é de agora: quando tinha 29 anos, chegou a fazer uma cura de sono em Santiago de Compostela para atenuar o génio. Não resultou. “Passei lá oito dias, sempre a beber xícaras de chá com uns comprimidos. Saí de lá zonzo mas na mesma”, confidencia. Talvez tenha sido melhor. Afinal, e por muito simpático, popular e afável que seja, o mau feitio é um dos seus cartões-de-visita.
 
* Artigo publicado na SÁBADO em Setembro de 2005

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