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Macieira, a vila ocupada (vídeo)

26-11-2014

Construída para operários, hoje só tem sem-abrigo, mas entre eles até há um advogado inscrito na Ordem

Por Tiago Carrasco, com imagem de Joel Pinheiro

Todas as manhãs, o advogado arrasta-se de joelhos do colchão, abençoado por um quadro de Jesus Cristo pendurado à cabeceira, até à casa de banho improvisada nas traseiras da casa ocupada. Põe uma esponja no chão para não magoar as rótulas, cansadas de 66 anos de esforço, e despeja sobre o corpo a água da chuva acumulada em tinas. Depois, senta-se à porta a ler os jornais e a fazer palavras cruzadas, até que uma alma caridosa lhe traz a refeição diária. “Nem sempre foi assim”, diz, mostrando a sentença do último caso que defendeu e ganhou, em Março de 2012. “Há uns anos, tinha mulher, dois filhos, dois apartamentos em Lisboa e uma quinta em Amarante. Hoje não tenho nada.”

Quando vivia com dignidade, o advogado tinha escritório com nome à porta. Perdeu-se o escritório e com ele a vontade de ter um nome, apesar de ainda estar registado na Ordem dos Advogados. Chamemos-lhe Virgílio. Virgílio vive hoje numa casa entaipada da Vila Macieira, no topo da Calçada dos Barbadinhos, junto ao bairro lisboeta de Sapadores. Não tem água, luz nem gás. Foi ali parar depois de um divórcio litigioso: a ex-mulher, ginecologista, levou-lhe as poupanças depositadas a prazo, ficou-lhe com os filhos e com a propriedade em Amarante, comprada com o dinheiro de dois andares vendidos em Lisboa. Teve de hipotecar o escritório e rumou à capital com um portátil e 20 euros no bolso, para fazer um curso e um estágio como solicitador. Passou no exame da Universidade Católica e estagiou numa das melhores sociedades da capital, enquanto ainda vivia num abrigo da Santa Casa da Misericórdia.

Porém, Virgílio não estava habituado a comer mal e a dormir com alcoólicos. Fez reivindicações e foi punido com a limpeza das retretes. Negou-se e diz ter recebido ordem de transferência para o abrigo do Exército da Salvação. Bateu o pé e alega terem-lhe cortado os apoios. Não tinha para onde ir quando um colega de dormitório lhe falou das casas ocupadas da Macieira. “Quando cheguei, há dois anos, escolhi esta casa, do piso de cima. Estava cheia de lixo.” “Agora, é uma casa pobre, mas limpa e organizada.” Confirma-se. Virgílio, barba feita, bigode honesto, colete aprumado, fala sobre o seu último caso mas abana a cabeça à pergunta: quanto recebeu? “O nosso código ético não nos permite revelar os honorários.” Ética. Mesmo com a vida arruinada. Mas o valor é indiferente. O cliente não lhe pagou e tem saldado a dívida levando-lhe medicamentos e transportando-o ao hospital.

A descida aos infernos consumou-se há três meses, quando caiu da plataforma que circunda o primeiro piso da vila. Partiu os dois pés e só se desloca de joelhos.

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